O melhor detergente é a luz do sol
BERERÉ TÁ ROLANDO: Mauro Mendes enche bolso de juízes e desembargadores do TJ-MT de dinheiro enquanto arrocha servidores, reclama Sinjusmat, que comandará greve. CONFIRA GRANA DE MAGISTRADOS
O melhor detergente é a luz do sol
TJ de Mato Grosso pagou extra de R$ 28,4 milhões a magistrados no final do ano
Mais de 300 magistrados receberam em média R$ 90 mil cada, segundo o sindicato dos servidores do Judiciário
Meus amigos, meus inimigos: O dinheiro tá rolando no Tribunal de Justiça de Mato Grosso. Dinheiro grosso, farto, abundante. Mas dinheiro só para quem é juiz ou desembargador, enquanto servidores do Judiciário se queixam de um arrocho atroz e já estão organizando greve de protesto que começará no próximo dia 21 de janeiro.
A causa desse novo escândalo. que vai ganhando destaque nacional, estaria na birra que o atual governador bolsonarista do Estado, o empresário Mauro Mendes, assumiu com relação aos trabalhadores da Justiça de Mato Grosso, que brigam por melhores salários e melhores condições de trabalho.
Segundo revelou o sindicalista Rosenwal Rodrigues, presidente do Sinjusmat, juízes e desembargadores de Mato Grosso receberam no final de 2025 pagamentos extras de cerca de R$ 90 mil cada. Segundo levantamento do Sindicato, nada menos que R$ 28,4 milhões no total teriam sido embolsados gulosamente por 323 magistrados do TJMT. O teto salarial da classe é R$ 46 mil, mas, em dezembro de 2025, o TJ-MT parece que teve a sua farra do boi.
A relação do bereré extra repassado aos magistrados está rolando nas redes e revela alguns valores tais como: o desembargador Orlando Perri, ex-presidente e ex-corregedor de Justiça, teria embolsado nada menos que R$ 109.431,56. O desembargador Rubens de Oliveira, ex-presidente, teria embolsado R$ 110.030,26. A juíza Amini Haddad, que tem se queixado de ser prejudicada rotineiramente nos jogos de poder no Tribunal, teria embolsado R$ 102.808,18. O desembargador Sebastião de Moraes, afastado inicialmente por suspeita de corrupção e depois aposentado por idade, teria embolsado R$ 54.284,96. O juiz Flávio Miraglia, de Várzea Grande, teria embolsado R$ 102.091,41. O juiz Mirko Giannotte, de Sinop, outro afastado por suspeita de corrupção, teria embolsado R$ 101.700,37. O desembargador Rui Ramos Ribeiro, da bancada dos moralizadores do Tribunal, ex-presidente do TJ-MT e do TRE-MT, teria embolsado R$ 101.187,73. A desembargadora Maria Helena Póvoas, filha do historiador Lenine Póvoas e uma das vozes moralizadoras do Judiciário de MT, quando presidia a OAB, teria embolsado R$ 118.142,66 O juiz Gonçalo Antunes de Barros Neto, o neto de Gilson Hulk de Barros, teria embolsado R$ 101. 775,09. O juiz José Luiz Lindote, atual corregedor de Justiça, teria embolsado R$ 111.187, 73. O juiz Ivan Lucio Amarante, de Vila Rica, atualmente afastado sob suspeita de venda de sentença, teria embolsado R$ 53.975,32. O juiz Agamenon Moreno, de Várzea Grande, teria embolsado R$ 118.142, 66. O desembargador Deosdete Cruz, da cota do Ministério Público, teria embolsado R$ 30. 609,53. O desembargador João Ferreira Filho, atualmente afastado sob suspeita de venda de sentenças, teria embolsado R$ 54.184,54. O juiz Jamilson Haddad, de Cuiabá, afastado das eleição municipal na capital. depois de rumorosa denúncia do jornalista Rafael Costa Rocha , teria embolsado R$ 105.742,55. O juiz Fábio Petengil, que atua em Lucas do Rio Verde, colega no curso de Direito desse blogueiro, mas atualmente distante, talvez por razões óbvias, teria embolsado R$ 100.402,24. A juiza Silvia Renata Anfe Souza, de Sorriso, atualmente afastado sob suspeita de venda de sentença, teria embolsado R$ 101.775,09 O próprio desembargador José Zuquim, atual presidente da Corte mato-grossense, teria embolsado R$ 109.262, 57. A PAGINA DO ENOCK publica inteiro teor da relação de pagamentos no anexo, para melhor conhecimento da Cidadania.
Vejam que, ao falar em repasse extra feito pelo governador Mauro Mendes ao TJ-MT, de acordo com os critérios do Sinjusmat, a gente pode falando no pagamento de uma espécie de agrado especial, uma “mariola”, mais um dos famosos penduricalhos, que teria como finalidade manter os dirigentes do Tribunal alinhados com a política Governo do Estado, notadamente no que se refere ao trato que vem sendo dado ao reajuste salarial dos servidores, votado e aprovado na Assembleia Legislativa de Mato Grosso, mas depois vetado pelo governador, com veto estranhamente confirmado pela maioria dos parlamentares governistas, à exceção dos deputados Carlos Avallone, Eduardo Botelho, Janaína Riva, Faissal Calil, Lúdio Cabral, Valdir Barranco, Wilson Santos, Elizeu Nascimento, Paulo Araújo e Thiago Silva.
De acordo com a denúncia do sindicato ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ), o privilégio pago em grana aos magistrados teria sido garantido, em dezembro, por ninguém menos que o governador do Mato Grosso, o empresário garimpeiro e pai de garimpeiro Mauro Mendes, que abriu um inesperado crédito suplementar por excesso de arrecadação no valor de R$ 40 milhões em favor do TJMT. Foi essa suplementação extra, maravilhosamente extra, tirada do dinheiro que estaria jorrando pelo ladrão (eu falei “ladrão”?!) nos cofres do Estado, que possibilitou, entre outras despesas, o pagamento de valores acima do teto aos magistrados do Estado, que terminaram o ano, então, com a tripa forra. Eles que já ganham muito, quanto se pensa nos demais servidores públicos mato-grossenses em dezembro ganharam muito, muito mais.
A despesa extra de fim de ano foi denunciada pelo sindicato ao CNJ em uma representação que cobra também transparência do tribunal sobre pagamentos a magistrados a título de “quitação de despesas de exercícios anteriores”, de 2019 a 2024. Quer dizer, a suspeita levantada pelos sindicalistas é que pode ter habivo muito mais grana rolando dos cofres públicos para os bolsos privilegiados de quem manda no TJ-MT.
A queixa do sindicalista Rosenwal e demais associados do Sinjusmat é que existe uma resolução do próprio tribunal, datada de 2010, que prevê que as despesas de pessoal têm de ser divididas em 70% para os servidores e 30% para os magistrados. No entanto, assegura Rosenwal, o pagamento dos extras de Natal não chegaram ao andar de baixo.
Devemos recordar que, em dezembro de 2024, o Tribunal de Mato Grosso já havia distribuído aos magistrados um valor extra de R$ 10 mil, chamado pelo sindicato de “vale peru”. O pagamento natalino, no entanto, se transformou, naquela época, em escândalo nacional e como tal acabou sendo suspenso pelo CJN e pelo STF, para desespero da então presidente do TJ-MT, a desembargadora Clarice Claudino da Silva.
O QUE DIZ O TRIBUNAL DE MT
O Tribunal de Justiça do Mato Grosso, procurado por jornalistas da equipe do jornalista Guilherme Amado, do site Platô BR, editado a partir de Brasília-DF, garantiu, em tom de enrolação, que os pagamentos reclamados pelo Sinjusmat estão dentro da legalidade. “Os pagamentos de subsídios, férias indenizáveis, décimo terceiro salário e licenças-prêmio a magistrados são realizados em estrita conformidade com a Constituição Federal, a legislação vigente e as normas estabelecidas pelo CNJ”. E disse mais a direção do Tribunal: “Todas as verbas seguem critérios legais objetivos, estão sujeitas a controle interno e externo e são disponibilizadas com ampla transparência por meio dos canais oficiais da instituição. O TJMT reafirma seu compromisso com a legalidade, a responsabilidade na gestão dos recursos públicos e a observância dos princípios que regem a administração pública.”
Vamos ver, no final das contas, o que resolve o CNJ, onde atua, atualmente, como conselheiro, o advogado cuiabano Ulisses Rabaneda. Será que vem chumbo grosso por aí?? Ou vamos ter, mais uma vez, conciliação?
Ficamos daqui, desde já, à disposição, para quaisquer esclarecimento adicional, no interesse da população de contribuintes que é quem paga toda esta conta.
ENOCK CAVALCANTI, 72 anos, é jornalista e editor do blogue PÁGINA DO ENOCK, que se edita a partir de Cuiabá, Mato Grosso, desde o ano de 2009.
Email – [email protected]
Tel Whats – 65-996386107.

Orlando Perri, José Zuquim e Rubens de Oliveira, desembargadores do Tribunal de Justiça de Mato Grosso.
NOTA DO SINDICATO -Servidores do Judiciário de Mato Grosso entram em greve a partir de 21 de janeiro por desvalorização e descumprimento de compromissos
Os servidores e servidoras do Poder Judiciário de Mato Grosso decidiram, em Assembleia Geral Extraordinária convocada pelo SINJUSMAT, deflagrar greve a partir do dia 21 de janeiro de 2026. A paralisação é consequência direta da desvalorização sistemática da categoria, da omissão da gestão do Tribunal de Justiça de Mato Grosso e do descumprimento reiterado de compromissos assumidos com os servidores.
A categoria denuncia a falta de interesse da administração do Tribunal em defender os servidores, evidenciada, entre outros pontos, pela postura adotada no processo do reajuste linear de 6,8%, aprovado pela Assembleia Legislativa e posteriormente vetado pelo governador. Para o sindicato, o Tribunal optou por não enfrentar politicamente o tema, permitindo o aprofundamento das perdas salariais e da precarização das condições de trabalho ao invés de ter atuado para aprovação como fez no início de 2025, conseguindo a tramitação em um mês de projeto de lei com 400 cargos comissionados que teve o impacto orçamentário de quase metade do investido para valorização de 3500 servidores.
Outro fator central para a deflagração da greve é o desrespeito à Resolução nº 01/2010, editada por determinação do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que estabelece que os pagamentos de passivos devem ocorrer na proporção de 70% para servidores e 30% para magistrados. Segundo o SINJUSMAT, essa norma jamais foi cumprida pelo Tribunal de Justiça de Mato Grosso, escancarando a falta de transparência e o tratamento desigual entre servidores e magistrados.
A paralisação também é impulsionada pela quebra de compromissos formais assumidos pela presidência do Tribunal, como o pagamento da Parcela de Irredutibilidade de Vencimentos (PIV), das diferenças de abono de permanência, do bônus por produtividade (Selo Diamante) e de verbas compensatórias. O não cumprimento desses acordos agravou a crise de confiança entre a gestão e os servidores.
Além das reivindicações imediatas, o movimento grevista possui pontos inegociáveis, considerados estruturantes para a valorização da carreira e para o funcionamento do Judiciário. Entre eles estão a mudança de critérios na aplicação do interstício nas progressões e a elevação de níveis na tabela, medidas que seguem sendo postergadas pela administração do Tribunal apesar da determinação no art. 68 da lei 8814/2008 (SDCR) para que haja revisão periódica.
Para o SINJUSMAT, a greve é uma medida legítima, necessária e proporcional diante do esgotamento das tentativas de diálogo e da inércia da gestão do TJMT frente a demandas que impactam diretamente a dignidade dos servidores e a qualidade da prestação jurisdicional.
A categoria decidiu manter um período para negociação com a gestão, em respeito à atuação da desembargadora Nilza Pôssas de Carvalho, que tem mediado o diálogo e atuado em defesa dos direitos dos servidores.
O sindicato afirma que a paralisação poderia ser evitada caso o Tribunal tivesse cumprido seus compromissos e enfrentado, com responsabilidade política, a pauta dos servidores. A entidade reforça que permanece aberta à negociação, mas exige respostas concretas, prazos definidos e o atendimento dos pontos inegociáveis, sob pena de aprofundamento do movimento paredista.
SINJUSMAT – Sindicato dos Servidores do Poder Judiciário do Estado de Mato Grosso
O melhor detergente é a luz do sol
SILVIO ALMEIDA: Homens negros felizes não servem; mas se estiverem obedecendo, presos ou mortos é sinal de que as coisas estão em seu devido lugar
“Não ouse sorrir, negro”
Não se trata de um sistema que falhou. É um sistema que está fazendo exatamente o que foi projetado para fazer – Malcolm X

Tinha um texto quase pronto para publicar esta semana, um ensaio de filosofia política. Não consegui concluí-lo, pois dois acontecimentos da última semana me assombram de tal modo que seria impossível escrever sobre qualquer outra coisa.
Manoel Rocha Reis Neto tinha 32 anos, era psicólogo, mestrando na Universidade Federal da Bahia. Havia sido aprovado no programa há menos de um mês. Na terça-feira, 17 de fevereiro, publicou nas redes sociais um relato acerca de um incidente ocorrido no Camarote Ondina, durante o Carnaval de Salvador. Um homem bloqueou sua passagem, ignorou seus pedidos para que saísse de sua frente e só cedeu quando Manoel levantou a voz e demonstrou raiva.
Horas depois de publicar o relato, o jovem psicólogo foi encontrado morto em sua residência, em Santo Antônio de Jesus, no Recôncavo baiano.
Manoel escreveu: “Eles [os brancos] respeitam a minha agressividade e não a minha cordialidade. Eles respeitam nossa raiva. Todo o resto é desumanidade.”
Como psicólogo e psicanalista, Manoel Neto conhecia a psique humana e estudava a relação entre racismo e saúde mental. Seu relato é a confirmação de que uma boa formação acadêmica nos permite dar nome às coisas; que o dinheiro nos dá acesso a ambientes que a maioria dos negros não costuma frequentar; que posições institucionais nos garantem atenção por pouco tempo, alguma admiração circunstancial, muita bajulação, mas pouquíssimo poder real. Nada, contudo, é capaz de nos livrar do martelo do racismo que, inevitavelmente, atingirá as nossas cabeças.
Manoel entendeu isso com uma amarga lucidez ao afirmar que “dinheiro, títulos, sucesso — isso não nos torna legitimados pelos olhos das belas almas brancas. Vocês serão humilhados sempre que uma pessoa branca cruzar o seu caminho.”
Por que os pretos tinham que estragar o espetáculo?

Na mesma semana, o jogador Vinícius Júnior foi, mais uma vez, atacado com insultos racistas durante partida entre Real Madrid e Benfica, pela Champions League.
Até aí, nada novo sob o sol, salvo por um detalhe.
A postura do elenco do Real Madrid, especialmente de sua maior estrela, o francês Kylian Mbappé, trouxe um desenho distinto à situação. Mbappé, também um homem negro, reagiu aos insultos direcionados ao seu companheiro de equipe e confirmou que ouviu um jogador argentino do Benfica chamar diversas vezes Vinícius Jr. de “mono” (macaco). O árbitro, sem alternativas diante da ameaça do time madrilenho de abandonar a partida, fez o gesto de braços cruzados sobre o peito na forma de um “x” e ativou o ridículo“protocolo antirracista” da FIFA.
Se Vinícius Jr. tivesse se calado quando foi ofendido e se Mbappé não tivesse tomado a frente da reação, o mundo do futebol permaneceria como normalmente é: racista, hipócrita, lotado de cafajestes e dos já enfadonhos “antirracistas”. Entretanto, os dois meninos pretos resolveram estragar o espetáculo e se indignar diante do racismo. Isso fez com que comentaristas, jogadores e treinadores fossem obrigados a se pronunciar sobre o tema.
Duas manifestações, em especial, me chamaram a atenção. A primeira foi a de José Luiz Chilavert, o ex-goleiro da seleção paraguaia. Chilavert, que nunca foi conhecido por sua educação (mas eu tenho aprendido na vida que, tal como o conjunto dos números naturais, a falta de modos também pode ser infinita), disse que Vinícius provocou os xingamentos ao comemorar o gol com uma dança junto à bandeira de escanteio. E, no percurso, também aproveitou para ofender Mbappé.
Já o treinador do Benfica, José Mourinho, foi mais sofisticado na ignomínia. Como é típico nesses casos, Mourinho utilizou o nome de outro jogador negro para abalizar a estupidez que sairia da sua boca. Invocou a figura de Eusébio, o maior ídolo da história do Benfica, na tentativa de provar que o clube e a torcida jamais discriminariam uma pessoa negra – como se fosse possível a um moçambicano no Portugal dos anos 1960 não ter sido discriminado.

Chilavert e Mourinho ocupam posições importantes no mundo do futebol, um esporte construído sobre o trabalho de homens da cor de Vinícius Jr., Kylian Mbappé e Eusébio. Basta verificar quantos homens negros estão em posições de comando no futebol europeu, nas cabines de comentaristas, nas diretorias dos grandes clubes, nas federações que decidem as regras do jogo. O futebol consome o talento do homem negro com voracidade, mas reserva o poder para os brancos. Chilavert, Mourinho e todos esses homens fizeram suas carreiras e fortunas sobre este arranjo maléfico e ainda encontram disposição para justificar uma agressão racista sobre um jovem negro porque sua dança depois de marcar um gol é uma “provocação”. Já sabemos onde esse tipo de raciocínio pode parar.
O jogador que transforma um ambiente de festa em campo de batalha por não conseguir — e aqui está o núcleo desta patifaria — controlar suas emoções. A denúncia vira prova do desequilíbrio, e o desequilíbrio confirma o que o agressor precisava que fosse verdade desde o início. O homem negro cordial e submisso não será ouvido e nem digno de respeito; o homem negro furioso se fará ouvir, mas por ser “perigoso” e “degenerado” deve, com efeito, ser controlado ou até eliminado.
No século XIX, médicos americanos inventaram o drapetomania. Trata-se de uma suposta doença mental conjecturada em 1851 pelo médico norte-americano Samuel A. Cartwright, que a descreveu como o “distúrbio” que levava pessoas escravizadas a fugirem do cativeiro. Cartwright argumentava que a fuga não era um desejo natural de liberdade, mas uma patologia que poderia ser evitada ou “curada”. Segundo ele, o tratamento para os escravos que apresentassem sinais dessa “mania” incluía o chicoteamento e a privação de certas “regalias”, sob a justificativa de que o submetimento absoluto era o estado natural e saudável do homem negro. Percebe-se como este diagnóstico ainda permanece na alma dos racistas: quem reage ao racismo fora dos “protocolos” é “louco” e seu destino é o chicote em praça pública, a humilhação ou um saco preto.
“Obrigado, senhor”
Negros como Vinícius Jr., Mbappé e Manoel Neto ocupam um lugar no mundo que não se encaixa no imaginário dos racistas. É insuportável que homens pretos possam dançar, ganhar dinheiro, entrar no mestrado, demonstrar competência, ser professores, ter títulos esportivos ou acadêmicos, morar em casas boas ou simplesmente demonstrar felicidade. A felicidade de um homem negro é algo criminoso. A Vinicius Jr. seria permitido sorrir no trabalho (sim, ele estava trabalhando) desde que fosse para agradecer uma gorjeta, ouvir uma piadinha depois de engraxar um sapato, servir uma caipirinha ou fazer malabares no farol.
Um homem negro tem que saber qual o seu lugar. Agradecer pela oportunidade dada pelo branco a toda hora, ficar de cabeça baixa sem olhar ninguém nos olhos, fazer o seu serviço e nada mais. Caso contrário, lhe será reservada a prisão, a indignidade ou um caixão.
Marcuse, Sartre, Fanon e a contraviolência
A pergunta que importa é: por que estes sujeitos dizem com tanta tranquilidade que Vinícius Jr. provocou ou que não foi “nada demais”?
É simples: dizem porque podem.
Racistas são tolerados. O sistema que governa o futebol mundial os acomoda, lhes oferece palco; legitima sua autoridade pública e absorve o escândalo sem que haja qualquer consequência real para além daqueles braços cruzados de Pantera Negra de baixo orçamento e das faixas cafonas em que se lê “say no to racism”.
Em 1965, Herbert Marcuse publicou um texto intitulado Tolerância Repressiva, em que formulou uma das críticas mais incômodas ao liberalismo democrático. Marcuse diz que, em sociedades estruturadas por desigualdades profundas, a tolerância se converte em instrumento de dominação. Ao permitir a circulação irrestrita de práticas e discursos que reproduzem a opressão, o sistema preserva sua legitimidade enquanto bloqueia qualquer transformação. A tolerância deixa de ser virtude e torna-se uma forma de gerir o escândalo sem tocar na estrutura que o produz.

O que Marcuse afirma ao fim e ao cabo é que a contraviolência se torna a única linguagem que o oprimido tem à disposição para ser compreendido. A ordem que organiza a opressão produz, como efeito necessário, a reação que depois condena. Fanon vai na mesma direção em Os Condenados da Terra ao dizer que a contraviolência nasce da experiência reiterada de desumanização, e sua função é romper a naturalidade com que a hierarquia se apresenta como inevitável. Sartre, no prefácio ao mesmo livro de Fanon, é ainda mais direto: a violência do colonizado responde a uma ordem que só reconhece a força como linguagem válida e serve para que o colonizado recobre a sua humanidade. É exatamente o que Manoel Neto registrou naquela noite de Carnaval e que Fanon e Sartre haviam notado décadas antes: a cordialidade do oprimido é invisível. A raiva, não.
A “micareta racial”
E agora falo por mim, sem muita distância analítica.
Conheço o peso que Manoel carregou naquela terça-feira de Carnaval. Conheço a exaustão de ter que provar, de novo, que você merece estar onde está. Conheço a solidão de sair de uma situação dessas sem ter companhia ou redes de proteção – afetivas, políticas ou financeiras – para me ajudar a entender o que aconteceu. A alternativa é metabolizar o insulto e seguir em frente até a hora em que a conta se apresenta na forma de doenças cardiovasculares, transtornos mentais graves, quando não algo pior. Conheço o cansaço de interpretar corretamente, o tempo todo, e de saber que essa interpretação correta não muda nada.
E quanto ao Estado brasileiro? O Estado brasileiro fez uma escolha, e não é pela vida de homens e de meninos negros. Existem políticas públicas — e é muito bom que existam, ainda que insuficientes — voltadas para mulheres, para crianças e para animais. Todavia, para quem mais morre no Brasil, para o homem negro jovem que lidera todas as estatísticas de letalidade, de adoecimento mental, de trabalho infantil e abandono escolar, não há política pública estruturada à altura do problema. Não há uma política para zelar pela vida de homens e meninos negros e, provavelmente, isso sequer está no horizonte dos líderes de instituições públicas e privadas.
Quando fui entrevistado no Roda Viva, em 2020, disse que a morte de George Floyd, que à época gerou tanta comoção, deveria ser a oportunidade para que pensássemos em transformações estruturais; pois, se ficássemos apenas em lamentos e vídeos chorosos na internet, tudo aquilo seria uma grande “micareta racial”. Pois é. Depois de seis anos e tantos gritos de “racistas e fascistas não passarão”, a constatação é a de que eles não só passaram, como estão sambando na nossa cara.
E se o tempo da micareta racial acabou, devemos, especialmente os homens negros, decretar que também o tempo de tolerância para pessoas como José Mourinho, Chilavert et caterva – incluindo aí os omissos – se encerrou. Eles têm que ser submetidos à mais dura crítica e deve lhes ser reservado o tratamento à altura da irresponsabilidade de suas palavras e ações.
Não há mais como continuar conversando com os que “não têm nada a dizer”, mas estão sempre falando; não há como aceitar que continuem ocupando as posições que ocupam, que continuem fazendo pouco das vidas das pessoas que sempre lhes garantiram prestígio, fama e dinheiro. Não há mais como suportar os “antirracistas” e seus textos de internet, seus vídeos chorosos e sua indiferença acolhedora para com homens negros.
Essas pessoas estão de um lado e eu estarei do outro. E não apenas porque desprezo estas pessoas, mas porque ficou evidente que querem a minha destruição e a de todos os homens que comigo se parecem.
As pessoas e instituições que as abrigam têm que ser confrontadas de forma estratégica, mas implacável. Opor-se a este estado de coisas e a seus perpetradores não é somente uma questão ética ou mesmo política. É uma questão existencial.
Silvio Luiz de Almeida é um advogado, filósofo e professor universitário brasileiro. Exerceu o cargo de ministro dos Direitos Humanos e da Cidadania do Brasil de janeiro de 2023 a setembro de 2024, quando foi demitido em meio a denúncias de assédio sexual, até hoje não devidamente esclarecidas. Reconhecido como um dos grandes especialistas brasileiros acerca da questão racial, presidiu o Instituto Luiz Gama e é autor dos livros Racismo Estrutural (Polén, 2019), Sartre: Direito e Política (Boitempo, 2016).

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