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Antes Arte do Nunca

Sebastião Carlos, Allan Kardec e o desafio das comemorações e festividades dos municípios

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Antes Arte do Nunca

Kardec e Sebastião

O secretário de Cultura e seu desafio

Sebastião Carlos

    Em entrevista recente, o Secretário Estadual de Cultura toca em ponto sensível não apenas da administração da pasta que dirige mas particularmente da politica cultural do Estado. Diga-se, porém, que não se trata de uma situação atual. Ao lado da permanente e insolúvel questão da restrita dotação orçamentária, permeia a má aplicação desses escassos recursos. Allan Kardec trata da destinação de não poucos recursos aos eventos festivos. Está claro que os problemas da administração cultural não se resumem a esta questão exclusiva, mas nela fiquemos por enquanto. 

    Desde sempre considerei que, com pouquíssimas exceções, a alocação de recursos com esses objetivos trata-se de uma imperdoável disfuncionalidade. E não estou me referindo ainda ao aspecto de ordem administrativo e penal que aí subsiste, como as recorrentes não prestação de contas, da não realização conforme garantido no projeto aprovado e, o que é mais grave, a pura e simples malversação e desvio do recurso. Tudo isso já aconteceu em várias ocasiões. Mas vamos ao que disse o Secretário, em declaração que recebi com satisfação, de que se posiciona contra essa prática tradicional. Embora faça a ressalva de que o investimento em aniversários de municípios, em festa de peão de boiadeiro, de santos, em carnavais na época ou fora de época etc, gera emprego e renda graças a lotação dos hotéis e gastos gerais dos turistas no comércio local. Refere-se ao fato de que a maioria desses recursos é proveniente das chamadas emendas impositivas a que os parlamentares têm direito. Para enfrentar essa prática, de indiscutível fundo eleitoreiro, muito objetivamente se propõe a “sensibilizar os parlamentares”, apresentando-lhes “os programas permanentes de Cultura que o Estado os tem como prioridade.” Será o suficiente?

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    Venho fazendo esse tipo de observação já há alguns anos. Em junho de 2017, por exemplo, quando o então Secretário de Cultura assinava convênios com os municípios de Guarantã do Norte e Nova Lacerda [Convênio 0637 – 2017/SEC] para a realização de rodeios e shows de artistas nacionais no valor de mais de trezentos e dez mil reais, além de um anterior com Brasnorte no montante de 450 mil, enquanto nessa mesma ocasião, como parte dos festejos dos 150 anos, Várzea Grande recebia um total de 586 mil reais, para a apresentação de Chitãozinho e Xororó, entre outros menos famosos. Tudo estaria normal, já que são dos melhores na área do canto sertanejo, mas isso se o dinheiro fosse daqueles que pagaram para assisti-los. Mas não. Os recursos que o trouxeram, segundo se comenta para um show de pouquíssimo público, foi dinheiro público. Do Estado. Da Secretaria de Cultura. Apontei então que, enquanto isso, os premiados no Concurso Literário reclamavam o não recebimento de seus prêmios, além do fato de vários outros projetos já aprovados, não tinham tido a liberação das verbas correspondentes. Estes são exemplos emblemáticos. 

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    Nada contra as comemorações e festividades desses municípios, todos constituídos por um povo laborioso e digno das melhores tradições mato-grossenses. O que se discute aqui são duas questões. A primeira, a da não aplicação de recursos, já escassos, em atividades fundamentais e permanentes tais como a publicação de livros, a constituição de bibliotecas comunitárias, a realização de concursos literários, o incentivo ao teatro, às artes plásticas, a dança, o folclore, à leitura. A outra questão: esses eventos, todos eles, não estão mais adequados na área do turismo?

    Tendo em vista os fortes interesses que envolvem tais eventos, para conseguir o louvável intuito a capacidade persuasiva do Secretário, além de redobrada, terá que agregar outras  forças. Como é sabido, as verbas são destinadas a esses eventos por razões muito superiores à própria comemoração em si. Elas refletem o “resultado” do prestigio e representará a propagação do nome que o “donatário”, como “patrocinador”, certamente irá angariar junto ao prefeito, vereadores. Portanto, além da persuasão, o Secretário terá que ter forte determinação. Arraigados costumes são óbices [quase] intransponíveis. Pelo menos num primeiro momento. 

    Allan Kardec está diante de um grande desafio. O Secretário precisará de apoio não só na Assembleia, mas no governo e na comunidade dos que lidam com a cultura. Oxalá, tenha êxito.

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    Sebastião Carlos Gomes de Carvalho é advogado e professor. Membro da Academia Mato-Grossense de Letras e da Academia Paulista de Letras Jurídicas.

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LEANDRO KARNAL: Livro é um presente permanente. Ler é esperança, sempre

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Uma ponte de livros

Por Leandro Karnal

Sim! Você sobreviveu até a penúltima semana de 2020. Parabéns! Eu sei que os pessimistas estão dizendo: ainda faltam vários dias. É verdade. Seria tão injusto falhar agora! Viemos nadando com desafios desde março. A outra margem do rio está tão próxima. Sejamos otimistas: chegaremos todos a 2021.

Há uma possível pausa pela frente. Em algum momento você terá um pouco mais de folga. Chegou a hora de pensar estrategicamente: livros. Por quê? Não sei o que nos aguarda no ano próximo e novo. Sei que ele será mais bem vivido se houver mais pensamentos, maior conhecimento, mais informações. Atrás de sugestões para ter ou presentear? Farei algumas. Lembre-se sempre: um livro é um presente permanente que pode mudar a cabeça do agraciado.

Literatura? É o ano do centenário de nascimento de Clarice Lispector. A editora Rocco lançou um volume alentado e lindo com Todas as Cartas. É a correspondência da nossa maior escritora em um tomo que “fica sozinho em pé”. A leitura me trouxe um enorme prazer. Se o gênero correspondência não faz sua cabeça, mergulhe nos volumes da mesma editora com várias obras de Clarice: A Maçã no Escuro, A Legião Estrangeira, Onde Estivestes de Noite, O Lustre, Perto do Coração Selvagem, Felicidade Clandestina e A Bela e a Fera. São apenas alguns dos títulos lindos, com capas sedutoras e textos que vão alterar seu mundo.

Quer reencontrar outros clássicos? A Cia das Letras lançou Ressurreição, de L. Tolstoi. A luta de um nobre para reparar um erro grave do passado é o eixo daquele que, para mim, é uma das melhores obras do russo genial. Se Tolstoi o atrai, a editora Todavia reuniu 4 obras dele (Felicidade Conjugal, A Morte de Ivan Ilitch, Sonata a Kreutzer e Padre Siérgui) em um único volume.

Você sobreviveu a uma das mais transformadoras epidemias na história. Que tal ler A História das Epidemias, de Stefan Cunha Ujvari? Saiu pela editora Contexto. Aprende-se muito com o livro, bem escrito e solidamente pesquisado. Prefere o terreno argiloso da política e da sociedade? A pesquisa de Bruno Paes Manso resultou no necessário A República das Milícias. O livro proporciona análises indispensáveis e medos incontornáveis.

Leia Também:  SOCIÓLOGO EMIR SADER: Depois dos governos da ditadura e dos governos neoliberais, a direita brasileira está zonza. Não sabe o que fazer, para onde caminhar, nem o que propor. Assim, apesar de conseguir, conforme pesquisas feitas pela própria mídia privada, rebaixar o nível de apoio do governo Dilma a 7%, não consegue, por mais que manipule, baixar o apoio a Lula a menos do que 33%

Você prefere algo que o anime? Pedro Salomão lançou o Valor Presente – A Estranha Capacidade de Vivermos um Dia de Cada Vez pela Best Business. Tive o privilégio de fazer o prefácio. Na mesma linha, uma coletânea com textos exemplares de Mario Sergio Cortella: Sabedorias para Partilhar, da Vozes/Nobilis.

Quer discutir amor e casamento? Não perca Amor na Vitrine – Um Olhar Sobre as Relações Amorosas Contemporâneas, de Regina Navarro Lins. A psicanalista vai mexer com suas convicções tradicionalistas e desafiar seus censores invisíveis.

Eduardo Giannetti sempre faz pensar. Li com avidez O Anel de Giges, da Cia das Letras. Tomando a lenda platônica do anel que produz invisibilidade, o que restaria da ética? Um homem invisível precisa se manter com boas regras morais ou vai acabar se entregando a seus desejos e caprichos menos nobres de espírito? Foi a leitura que mais me provocou inquietações no ano de 2020. É genial a capacidade de Gianetti de combinar densidade com linguagem leve.

Você ou o seu amigo-secreto amam viajar? Guilherme Canever lançou dois tomos pela Pulp: Destinos Invisíveis – Uma Nova Aventura pela África e Uma Viagem Pelos Países Que Não Existem. Livros densamente ilustrados, com um olhar agudo para lugares inusitados.

A Autêntica vai fundo na alma humana ao lançar uma nova edição do Além do Princípio do Prazer. O livro chegou ao centenário agora e a cuidadosa tradução de Maria Rita Salzano Moraes ajuda a valorizar a obra fundamental do dr. Freud.

Foi um ano estressante, reconheçamos. Talvez seja hora de pensar em um texto sobre ansiedade e o desafio da saúde mental. O dr. Leandro Teles, pela editora Alaúde, lançou Os Novos Desafios do Cérebro – Tudo o Que Você Precisa Saber Para Cuidar da Saúde Mental nos Tempos Modernos. Acho que a grande meta de 2021 é o desafio do equilíbrio. O livro do dr. Teles ajuda muito.

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Você ama narrativas biográficas? A obra de Adam Zamoyski (Napoleão – O Homem Por Trás do Mito – ed. Crítica) prenderá sua atenção do início ao fim. O imperador raramente encontrou um biógrafo tão denso e sem lados definidos: sem o sempre esperado “monstro corso” (contra) ou gênio militar e político (a favor). Continua interessado em narrativas biográficas e domina inglês? Hildegard of Bingen – The Woman of Her Age, de Fiona Maddocks (Image Books), foi uma descoberta muito feliz. A entrevista final com a Sister Ancilla no mesmo mosteiro onde morou a santa medieval é um recurso muito interessante para iluminar a tradição da grande doutora da Igreja.

Anseia explorar uma área nem sempre devidamente destacada? Aventure-se pela obra A Razão Africana – Breve História do Pensamento Africano Contemporâneo (Muryatan S. Barbosa – Todavia). O Racismo Estrutural, obra crítica de Silvio de Almeida (editora Jandaíra), ajuda em um tema que foi destaque em 2020. Na mesma coleção, a coordenadora da série, Djamila Ribeiro, tem texto indispensável: Lugar de Fala. Você se preocupa com o universo feminino e suas muitas abordagens? Mary del Priore escreveu Sobreviventes e Guerreiras: Uma Breve História da Mulher no Brasil de 1500 a 2000 (editora Planeta). 2021 demandará consciência social. Prepare-se!

Muitos e bons livros para todos os gostos. Ler dá perspectiva, vocabulário, ideias e companhia. Um bom texto aumenta seu mundo e o faz sair do senso comum. Embeber-se em histórias é viver de forma ampla. Já é um bom projeto para 2021. Ler é esperança, sempre.

Leandro Karnal é historiador e escritor, autor de ‘O dilema do porco-espinho’, entre outros. Artigo publicado originalmente no jornal O Estado de S Paulo

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