O PODER, A CANETA E A POLÍCIA

Por João Guató, no Pasquim Cuiabano

REPORTAGEM ESPECIAL SOBRE DENÚNCIAS DE PERSEGUIÇÃO A JORNALISTAS EM MATO GROSSO

Em Mato Grosso, onde o discurso oficial costuma falar em eficiência administrativa e desenvolvimento econômico, cresce um debate incômodo sobre os limites entre o direito de defesa de autoridades públicas e o uso do aparato estatal contra a imprensa. Desde o início do governo de Mauro Mendes, em 2019, jornalistas, sindicatos e entidades de liberdade de imprensa passaram a denunciar um padrão de reação institucional a reportagens críticas que ultrapassa o confronto retórico comum entre governantes e repórteres. A crítica política, elemento vital em qualquer democracia, passou a ser frequentemente respondida com boletins de ocorrência, investigações policiais e processos judiciais. O que antes era apenas um incômodo para quem ocupa o poder começou a assumir contornos de estratégia de intimidação.

Levantamentos do Sindicato dos Jornalistas de Mato Grosso indicam que pelo menos dezoito profissionais da imprensa foram alvo de inquéritos ou processos após publicarem conteúdos críticos à gestão estadual ou a figuras próximas ao governo. O número não é pequeno para um estado com mercado jornalístico relativamente restrito. Mais do que a quantidade, chama atenção o padrão das medidas adotadas. Em vários episódios, a reação institucional não se limitou a ações civis por danos morais, mecanismo comum em disputas entre imprensa e autoridades públicas. O que se viu foi o acionamento da Polícia Civil, especialmente da Delegacia de Crimes Informáticos, para investigar jornalistas por crimes como calúnia majorada, perseguição e até associação criminosa. Para especialistas em liberdade de imprensa, esse tipo de enquadramento penal extrapola a defesa da honra e entra no terreno do chamado assédio judicial.

O episódio que mais simboliza esse ambiente de tensão ocorreu em fevereiro de 2024, quando jornalistas conhecidos por suas críticas ao governo estadual tornaram-se alvo de uma operação policial. Entre os investigados estavam Alexandre ApráEnock Cavalcanti e Marco Polo Pinheiro, profissionais que atuam em veículos independentes e blogs políticos com forte presença no debate público regional. Mandados de busca e apreensão foram cumpridos nas residências dos jornalistas, e celulares e computadores foram recolhidos pelas autoridades. O motivo formal da investigação era a repercussão de uma reportagem originalmente publicada pela organização jornalística Repórter Brasil, que abordava relações envolvendo um desembargador ligado ao setor de mineração. A investigação policial passou a tratar a circulação dessas informações como possível crime, levantando questionamentos imediatos entre entidades da imprensa.

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A apreensão de equipamentos jornalísticos provocou reação nacional. O argumento apresentado por organizações de defesa da liberdade de imprensa é simples e poderoso: computadores e celulares de jornalistas não guardam apenas textos publicados. Guardam também contatos, documentos e fontes confidenciais. A retirada desses aparelhos pela polícia cria risco direto ao sigilo das fontes, princípio protegido pela Constituição brasileira e considerado um dos pilares do jornalismo investigativo. O caso acabou chegando ao Supremo Tribunal Federal, onde a ministra Cármen Lúcia avaliou que a operação apresentava indícios de cerceamento à liberdade de imprensa. Em decisão que repercutiu nacionalmente, a ministra apontou que a apreensão indiscriminada de equipamentos poderia expor fontes e comprometer o exercício da atividade jornalística, algo incompatível com os princípios constitucionais que garantem a liberdade de expressão.

Para entidades representativas da categoria, o episódio não é isolado. Ele se encaixa em um conjunto de medidas que, somadas, formam um ambiente de pressão sobre jornalistas que investigam ou criticam o poder político local. Esse fenômeno, frequentemente chamado de judicialização da crítica, ocorre quando reportagens e opiniões passam a ser tratadas como crimes contra a honra ou como parte de supostas organizações destinadas a atacar autoridades. Embora qualquer cidadão tenha direito de recorrer à Justiça quando se considera ofendido, especialistas alertam que o uso repetido de instrumentos penais contra jornalistas pode produzir um efeito silencioso, porém poderoso: o medo de investigar.


OPERAÇÕES POLICIAIS E O LIMITE DA CRÍTICA

O caso da operação policial contra jornalistas críticos tornou-se símbolo do conflito entre governo e imprensa em Mato Grosso. A investigação aberta pela Polícia Civil enquadrou os profissionais em crimes como calúnia majorada, perseguição e associação criminosa. A base das acusações era a divulgação e repercussão de reportagens envolvendo figuras públicas do sistema de Justiça e do setor econômico estadual. Para sindicatos e entidades jornalísticas, a medida representou uma tentativa de transformar o trabalho de apuração em atividade criminosa. O episódio despertou forte reação nacional e internacional, com organizações de defesa da liberdade de imprensa apontando que investigações penais contra jornalistas, baseadas em reportagens publicadas, criam precedente perigoso para a democracia.

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O MAPA DA PRESSÃO JUDICIAL

O levantamento do Sindicato dos Jornalistas de Mato Grosso revela um cenário que preocupa profissionais da área. Pelo menos dezoito jornalistas teriam sido alvo de inquéritos ou processos relacionados à publicação de conteúdos críticos ao governo estadual ou a aliados políticos. Em vários casos, o caminho institucional seguiu um roteiro semelhante: primeiro surge a reportagem investigativa ou opinião crítica; depois aparecem boletins de ocorrência ou representações judiciais; por fim, investigações policiais ou ações penais passam a tramitar contra os profissionais. Ainda que muitas dessas iniciativas não resultem em condenações, o efeito prático é o desgaste financeiro, psicológico e profissional dos jornalistas envolvidos. O fenômeno é conhecido internacionalmente como uso estratégico do sistema judicial para intimidar a imprensa.


O CASO DO DETETIVE E A INVESTIGAÇÃO REABERTA

Entre os episódios mais controversos está o caso envolvendo o jornalista Alexandre Aprá, responsável pelo portal Isso É Notícia. O Ministério Público determinou a reabertura de um inquérito que investiga a suposta contratação de um detetive particular para tentar produzir situações que comprometessem o jornalista. Segundo registros presentes no processo, o detetive teria afirmado em gravações que o trabalho estaria ligado a reportagens que desagradaram figuras do governo estadual. O caso havia sido inicialmente arquivado pela polícia, mas o Ministério Público considerou que os elementos apresentados indicavam a necessidade de investigação mais aprofundada. O episódio ganhou contornos ainda mais complexos quando o próprio jornalista passou a ser alvo de indiciamentos por crimes contra a honra após tornar pública a denúncia de perseguição.

No fundo, o conflito revela algo antigo na política brasileira. Governos costumam conviver mal com perguntas insistentes. Reportagens investigativas raramente são recebidas com aplausos dentro de gabinetes. Ainda assim, em regimes democráticos, a tensão entre poder e imprensa funciona como mecanismo de equilíbrio institucional.

Quando a resposta à crítica deixa o campo do debate público e passa a envolver polícia, investigações criminais e apreensão de equipamentos jornalísticos, a discussão muda de natureza. Não se trata mais apenas de divergência política. Trata-se de liberdade de imprensa.

E liberdade de imprensa, quando começa a ser pressionada, costuma avisar cedo que algo está errado no funcionamento da democracia.

João Guató, radialista e publicitário, é titular do blogue Pasquim Cuiabano  

Mauro Mendes, governador de Mato Grosso, um dos que mais ameaçam e perseguem jornalistas no Brasil