O melhor detergente é a luz do sol
BALANÇO ANUAL: Mais de 50 mil pessoas frequentaram o Cine Teatro Cuiabá no ano de 2025
O melhor detergente é a luz do sol
Cine Teatro Cuiabá reafirma seu papel como polo vital da cultura mato-grossense, unindo patrimônio histórico e formação artística
Sob gestão da Associação Cultural Cena Onze, espaço histórico supera desafios de infraestrutura e se consolida como palco essencial para a diversidade cultural e sede da MT Escola de Teatro.
Inaugurado em 1942 e reconhecido como um dos mais importantes patrimônios arquitetônicos da capital, o Cine Teatro Cuiabá continua a escrever sua história como o coração pulsante da cena cultural local. Mais do que um monumento preservado, o espaço se destaca hoje como um centro de produção e difusão artística, recebendo milhares de espectadores anualmente para uma programação diversificada que inclui teatro, cinema, concertos e espetáculos cênicos.
A gestão do Cine Teatro Cuiabá é feita pela Associação Cultural Cena Onze (uma OSCIP) através de um Termo de Colaboração/Contrato de Gestão com a SECEL-MT (Secretaria de Estado de Cultura, Esporte e Lazer de Mato Grosso), firmados desde 2016.
A administração tem sido elogiada por sua capacidade de articular a memória histórica com a efervescência contemporânea. O local não apenas exibe arte, mas também a fomenta, servindo como sede para as atividades da MT Escola de Teatro, transformando o prédio histórico em um verdadeiro laboratório de novos talentos e formação profissional.
O Cine Teatro Cuiabá é um dos únicos teatros que oferece cinema de rua, com os projetos: A Escola vai ao Cine, Encontros com Cinema, Sessão Vitrine e Ponto de Cultura com o projeto Cinema para Todos. Neste ano (2025), o Cine Teatro Cuiabá abriu suas portas para mais de 300 eventos, e mais de 50 mil pessoas passaram pelo espaço.

Apresentação da Orquestra CirandaMundo, no palco do Cine Teatro, sob comando do maestro Murilo Alves
Compromisso com a Preservação e Conforto
Como todo edifício de caráter histórico e de uso intenso, o Cine Teatro enfrenta desafios naturais em sua infraestrutura. Ciente da importância de oferecer a melhor experiência ao público e aos artistas, a gestão tem atuado ativamente na realização de reformas e manutenções pontuais.
Intervenções recentes focaram na modernização e reparo do sistema de ar-condicionado, manutenção do piso e melhorias nas instalações hidrossanitárias. Essas adaptações estruturais visam garantir que o conforto do público esteja à altura da grandiosidade dos espetáculos apresentados, superando oscilações pontuais de funcionamento para assegurar a longevidade do espaço.

Em 2025, o Cine Teatro Cuiabá abriu suas portas para mais de 300 eventos, e mais de 50 mil pessoas frequentaram o mais importante centro cultural da capital mato-grossense
Um Espaço de Encontro e Memória
As avaliações do público e da crítica reforçam o Cine Teatro Cuiabá como um ponto de encontro insubstituível. A alta procura e o engajamento nas atividades propostas demonstram que, apesar dos desafios inerentes à manutenção de um prédio antigo, o local mantém sua relevância intacta.
“O Cine Teatro é um organismo vivo. Nosso trabalho vai além de abrir as portas; é sobre garantir que este patrimônio continue sendo um espaço seguro, confortável e vibrante para a arte e para a população cuiabana,” destaca a gestão da Cena Onze.
O Cine Teatro Cuiabá segue para 2026 de portas abertas, convidando a população a ocupar este espaço que é, acima de tudo, um símbolo da identidade cultural de Mato Grosso.
FOTOS MARCONDES ARAÚJO/CTC
O melhor detergente é a luz do sol
SILVIO ALMEIDA: Homens negros felizes não servem; mas se estiverem obedecendo, presos ou mortos é sinal de que as coisas estão em seu devido lugar
“Não ouse sorrir, negro”
Não se trata de um sistema que falhou. É um sistema que está fazendo exatamente o que foi projetado para fazer – Malcolm X

Tinha um texto quase pronto para publicar esta semana, um ensaio de filosofia política. Não consegui concluí-lo, pois dois acontecimentos da última semana me assombram de tal modo que seria impossível escrever sobre qualquer outra coisa.
Manoel Rocha Reis Neto tinha 32 anos, era psicólogo, mestrando na Universidade Federal da Bahia. Havia sido aprovado no programa há menos de um mês. Na terça-feira, 17 de fevereiro, publicou nas redes sociais um relato acerca de um incidente ocorrido no Camarote Ondina, durante o Carnaval de Salvador. Um homem bloqueou sua passagem, ignorou seus pedidos para que saísse de sua frente e só cedeu quando Manoel levantou a voz e demonstrou raiva.
Horas depois de publicar o relato, o jovem psicólogo foi encontrado morto em sua residência, em Santo Antônio de Jesus, no Recôncavo baiano.
Manoel escreveu: “Eles [os brancos] respeitam a minha agressividade e não a minha cordialidade. Eles respeitam nossa raiva. Todo o resto é desumanidade.”
Como psicólogo e psicanalista, Manoel Neto conhecia a psique humana e estudava a relação entre racismo e saúde mental. Seu relato é a confirmação de que uma boa formação acadêmica nos permite dar nome às coisas; que o dinheiro nos dá acesso a ambientes que a maioria dos negros não costuma frequentar; que posições institucionais nos garantem atenção por pouco tempo, alguma admiração circunstancial, muita bajulação, mas pouquíssimo poder real. Nada, contudo, é capaz de nos livrar do martelo do racismo que, inevitavelmente, atingirá as nossas cabeças.
Manoel entendeu isso com uma amarga lucidez ao afirmar que “dinheiro, títulos, sucesso — isso não nos torna legitimados pelos olhos das belas almas brancas. Vocês serão humilhados sempre que uma pessoa branca cruzar o seu caminho.”
Por que os pretos tinham que estragar o espetáculo?

Na mesma semana, o jogador Vinícius Júnior foi, mais uma vez, atacado com insultos racistas durante partida entre Real Madrid e Benfica, pela Champions League.
Até aí, nada novo sob o sol, salvo por um detalhe.
A postura do elenco do Real Madrid, especialmente de sua maior estrela, o francês Kylian Mbappé, trouxe um desenho distinto à situação. Mbappé, também um homem negro, reagiu aos insultos direcionados ao seu companheiro de equipe e confirmou que ouviu um jogador argentino do Benfica chamar diversas vezes Vinícius Jr. de “mono” (macaco). O árbitro, sem alternativas diante da ameaça do time madrilenho de abandonar a partida, fez o gesto de braços cruzados sobre o peito na forma de um “x” e ativou o ridículo“protocolo antirracista” da FIFA.
Se Vinícius Jr. tivesse se calado quando foi ofendido e se Mbappé não tivesse tomado a frente da reação, o mundo do futebol permaneceria como normalmente é: racista, hipócrita, lotado de cafajestes e dos já enfadonhos “antirracistas”. Entretanto, os dois meninos pretos resolveram estragar o espetáculo e se indignar diante do racismo. Isso fez com que comentaristas, jogadores e treinadores fossem obrigados a se pronunciar sobre o tema.
Duas manifestações, em especial, me chamaram a atenção. A primeira foi a de José Luiz Chilavert, o ex-goleiro da seleção paraguaia. Chilavert, que nunca foi conhecido por sua educação (mas eu tenho aprendido na vida que, tal como o conjunto dos números naturais, a falta de modos também pode ser infinita), disse que Vinícius provocou os xingamentos ao comemorar o gol com uma dança junto à bandeira de escanteio. E, no percurso, também aproveitou para ofender Mbappé.
Já o treinador do Benfica, José Mourinho, foi mais sofisticado na ignomínia. Como é típico nesses casos, Mourinho utilizou o nome de outro jogador negro para abalizar a estupidez que sairia da sua boca. Invocou a figura de Eusébio, o maior ídolo da história do Benfica, na tentativa de provar que o clube e a torcida jamais discriminariam uma pessoa negra – como se fosse possível a um moçambicano no Portugal dos anos 1960 não ter sido discriminado.

Chilavert e Mourinho ocupam posições importantes no mundo do futebol, um esporte construído sobre o trabalho de homens da cor de Vinícius Jr., Kylian Mbappé e Eusébio. Basta verificar quantos homens negros estão em posições de comando no futebol europeu, nas cabines de comentaristas, nas diretorias dos grandes clubes, nas federações que decidem as regras do jogo. O futebol consome o talento do homem negro com voracidade, mas reserva o poder para os brancos. Chilavert, Mourinho e todos esses homens fizeram suas carreiras e fortunas sobre este arranjo maléfico e ainda encontram disposição para justificar uma agressão racista sobre um jovem negro porque sua dança depois de marcar um gol é uma “provocação”. Já sabemos onde esse tipo de raciocínio pode parar.
O jogador que transforma um ambiente de festa em campo de batalha por não conseguir — e aqui está o núcleo desta patifaria — controlar suas emoções. A denúncia vira prova do desequilíbrio, e o desequilíbrio confirma o que o agressor precisava que fosse verdade desde o início. O homem negro cordial e submisso não será ouvido e nem digno de respeito; o homem negro furioso se fará ouvir, mas por ser “perigoso” e “degenerado” deve, com efeito, ser controlado ou até eliminado.
No século XIX, médicos americanos inventaram o drapetomania. Trata-se de uma suposta doença mental conjecturada em 1851 pelo médico norte-americano Samuel A. Cartwright, que a descreveu como o “distúrbio” que levava pessoas escravizadas a fugirem do cativeiro. Cartwright argumentava que a fuga não era um desejo natural de liberdade, mas uma patologia que poderia ser evitada ou “curada”. Segundo ele, o tratamento para os escravos que apresentassem sinais dessa “mania” incluía o chicoteamento e a privação de certas “regalias”, sob a justificativa de que o submetimento absoluto era o estado natural e saudável do homem negro. Percebe-se como este diagnóstico ainda permanece na alma dos racistas: quem reage ao racismo fora dos “protocolos” é “louco” e seu destino é o chicote em praça pública, a humilhação ou um saco preto.
“Obrigado, senhor”
Negros como Vinícius Jr., Mbappé e Manoel Neto ocupam um lugar no mundo que não se encaixa no imaginário dos racistas. É insuportável que homens pretos possam dançar, ganhar dinheiro, entrar no mestrado, demonstrar competência, ser professores, ter títulos esportivos ou acadêmicos, morar em casas boas ou simplesmente demonstrar felicidade. A felicidade de um homem negro é algo criminoso. A Vinicius Jr. seria permitido sorrir no trabalho (sim, ele estava trabalhando) desde que fosse para agradecer uma gorjeta, ouvir uma piadinha depois de engraxar um sapato, servir uma caipirinha ou fazer malabares no farol.
Um homem negro tem que saber qual o seu lugar. Agradecer pela oportunidade dada pelo branco a toda hora, ficar de cabeça baixa sem olhar ninguém nos olhos, fazer o seu serviço e nada mais. Caso contrário, lhe será reservada a prisão, a indignidade ou um caixão.
Marcuse, Sartre, Fanon e a contraviolência
A pergunta que importa é: por que estes sujeitos dizem com tanta tranquilidade que Vinícius Jr. provocou ou que não foi “nada demais”?
É simples: dizem porque podem.
Racistas são tolerados. O sistema que governa o futebol mundial os acomoda, lhes oferece palco; legitima sua autoridade pública e absorve o escândalo sem que haja qualquer consequência real para além daqueles braços cruzados de Pantera Negra de baixo orçamento e das faixas cafonas em que se lê “say no to racism”.
Em 1965, Herbert Marcuse publicou um texto intitulado Tolerância Repressiva, em que formulou uma das críticas mais incômodas ao liberalismo democrático. Marcuse diz que, em sociedades estruturadas por desigualdades profundas, a tolerância se converte em instrumento de dominação. Ao permitir a circulação irrestrita de práticas e discursos que reproduzem a opressão, o sistema preserva sua legitimidade enquanto bloqueia qualquer transformação. A tolerância deixa de ser virtude e torna-se uma forma de gerir o escândalo sem tocar na estrutura que o produz.

O que Marcuse afirma ao fim e ao cabo é que a contraviolência se torna a única linguagem que o oprimido tem à disposição para ser compreendido. A ordem que organiza a opressão produz, como efeito necessário, a reação que depois condena. Fanon vai na mesma direção em Os Condenados da Terra ao dizer que a contraviolência nasce da experiência reiterada de desumanização, e sua função é romper a naturalidade com que a hierarquia se apresenta como inevitável. Sartre, no prefácio ao mesmo livro de Fanon, é ainda mais direto: a violência do colonizado responde a uma ordem que só reconhece a força como linguagem válida e serve para que o colonizado recobre a sua humanidade. É exatamente o que Manoel Neto registrou naquela noite de Carnaval e que Fanon e Sartre haviam notado décadas antes: a cordialidade do oprimido é invisível. A raiva, não.
A “micareta racial”
E agora falo por mim, sem muita distância analítica.
Conheço o peso que Manoel carregou naquela terça-feira de Carnaval. Conheço a exaustão de ter que provar, de novo, que você merece estar onde está. Conheço a solidão de sair de uma situação dessas sem ter companhia ou redes de proteção – afetivas, políticas ou financeiras – para me ajudar a entender o que aconteceu. A alternativa é metabolizar o insulto e seguir em frente até a hora em que a conta se apresenta na forma de doenças cardiovasculares, transtornos mentais graves, quando não algo pior. Conheço o cansaço de interpretar corretamente, o tempo todo, e de saber que essa interpretação correta não muda nada.
E quanto ao Estado brasileiro? O Estado brasileiro fez uma escolha, e não é pela vida de homens e de meninos negros. Existem políticas públicas — e é muito bom que existam, ainda que insuficientes — voltadas para mulheres, para crianças e para animais. Todavia, para quem mais morre no Brasil, para o homem negro jovem que lidera todas as estatísticas de letalidade, de adoecimento mental, de trabalho infantil e abandono escolar, não há política pública estruturada à altura do problema. Não há uma política para zelar pela vida de homens e meninos negros e, provavelmente, isso sequer está no horizonte dos líderes de instituições públicas e privadas.
Quando fui entrevistado no Roda Viva, em 2020, disse que a morte de George Floyd, que à época gerou tanta comoção, deveria ser a oportunidade para que pensássemos em transformações estruturais; pois, se ficássemos apenas em lamentos e vídeos chorosos na internet, tudo aquilo seria uma grande “micareta racial”. Pois é. Depois de seis anos e tantos gritos de “racistas e fascistas não passarão”, a constatação é a de que eles não só passaram, como estão sambando na nossa cara.
E se o tempo da micareta racial acabou, devemos, especialmente os homens negros, decretar que também o tempo de tolerância para pessoas como José Mourinho, Chilavert et caterva – incluindo aí os omissos – se encerrou. Eles têm que ser submetidos à mais dura crítica e deve lhes ser reservado o tratamento à altura da irresponsabilidade de suas palavras e ações.
Não há mais como continuar conversando com os que “não têm nada a dizer”, mas estão sempre falando; não há como aceitar que continuem ocupando as posições que ocupam, que continuem fazendo pouco das vidas das pessoas que sempre lhes garantiram prestígio, fama e dinheiro. Não há mais como suportar os “antirracistas” e seus textos de internet, seus vídeos chorosos e sua indiferença acolhedora para com homens negros.
Essas pessoas estão de um lado e eu estarei do outro. E não apenas porque desprezo estas pessoas, mas porque ficou evidente que querem a minha destruição e a de todos os homens que comigo se parecem.
As pessoas e instituições que as abrigam têm que ser confrontadas de forma estratégica, mas implacável. Opor-se a este estado de coisas e a seus perpetradores não é somente uma questão ética ou mesmo política. É uma questão existencial.
Silvio Luiz de Almeida é um advogado, filósofo e professor universitário brasileiro. Exerceu o cargo de ministro dos Direitos Humanos e da Cidadania do Brasil de janeiro de 2023 a setembro de 2024, quando foi demitido em meio a denúncias de assédio sexual, até hoje não devidamente esclarecidas. Reconhecido como um dos grandes especialistas brasileiros acerca da questão racial, presidiu o Instituto Luiz Gama e é autor dos livros Racismo Estrutural (Polén, 2019), Sartre: Direito e Política (Boitempo, 2016).

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