WANDINELMA DOS SANTOS E CLO GUILHERMINO: O combate à violência, esse mal que mata e mutila corpos e almas, depende, como acontece com todas as doenças, da descoberta da origem da violência

Clo Guilhermino, psicóloga, e Wandinelma Santos, juíza criminal

Clo Guilhermino, psicóloga, e Wandinelma Santos, juíza criminal

A Origem e a Cura da Violência
POR WANDINELMA DOS SANTOS E CLO GUILHERMINO

A VIOLÊNCIA, doença que preocupa, assusta e compromete toda a sociedade, é um tema que, quando tratado com a superficialidade que a ignorância autoriza, sugere esquadrões da morte, penas de morte, sentenças mais duras, mais e maiores instituições prisionais, diminuição da maioridade legal, promulgação de lei do tipo “olho por olho, dente por dente” e outras mais. Além, é claro, do aumento do efetivo policial, do armamento e treinamento da força policial.

Algumas dessas medidas podem ser eficazes, ou até de grande eficiência, para o CONTRÔLE da VIOLÊNCIA, mas não ao seu combate, mas não à sua eficaz solução. E é aí, no combate eficaz da Violência, a cura dessa terrível doença, que devemos coloca nossa Missão.

O COMBATE a esse mal que mata e mutila corpos e almas depende, como acontece com todas as doenças, da descoberta da origem da violência.

Nossos avós diziam: “É preciso cortar o mal pela raiz!”

Cortar o mal pela raiz implica em identificar a sua origem.

Para resolver um problema é preciso formular bem a pergunta. E a pergunta é: Qual a Raiz da Violência?

Violência é uma palavra que a Lingüística Transformacional classifica como uma Nominalização. Nominalização é o resultado de um processo de distorção da experiência que consiste em transformar a ação (o verbo) no resultado (substantivo) que essa ação dá origem, portanto, num nome. No nome do EFEITO que o PROCESSO gerou. Violência, então, é o nome de um efeito.

E qual a ação que origina a violência?

A ação de VIOLAR é a RAIZ, a ORIGEM da VIOLÊNCIA.

Sim, é o processo de violar que gera a violência. Aí está a origem da doença e o começo da resposta, da solução, da cura.

Agressões físicas ou verbais são atos de violência. Violam o espaço físico e/ou psicológico da vítima.

As crianças, meninas e meninos, são violadas quando são xingadas. Palavrões são xingamentos: FDP; VTC, etc. Crianças são violadas quando chamadas de burras, idiotas, preguiçosas, desastradas, teimosas etc. São violadas quando agredidas físicamente. Não se trata só de “tapinhas nas mãos” nem de “palmadas na bunda”. Trata-se de tapas, murros, pontapés, socos, surras…trata-se de espancamento, de agressão. São violadas quando sofrem de abuso sexual.

Dizem que somos nós, mulheres, quem forma o homem e a mulher de amanhã.

“As mãos que embalam o berço, embalam o mundo”

As donas das mãos que embalam o berço são violadas enquanto crianças e seguem sendo violadas quando jovens e adultas. E muitas se tornam violentas, se tornam VIOLADORAS.

São violadas sendo chamadas de putas, vagabundas, burras. São sexualmente violadas por familiares ou por estranhos, namorados ou maridos; são violadas ao lhes ser negado o direito de opção ou não à maternidade; ao lhes ser impedido o acesso à informação e aos meios contraceptivos que lhes permitiriam escolher se estão prontas física, emocional e financeiramente para embalar o berço, embalar o mundo.

E o resultado das violações às mulheres, violadas por outras mulheres e por homens, são crianças abandonadas, literalmente ou não, são crianças xingadas, agredidas, VIOLADAS em seu direito básico de ter protegida sua integridade física e psicológica.

As crianças violadas ontem são os adolescentes, os jovens e os adultos violentos de hoje. E já são, ou serão, no futuro, as mãos que embalam ou embalarão os berços…

Todos nós sabemos que na infância de um estuprador ou pedófilo existe uma história de violação sexual. E no maior número de vezes, executadas por um membro da família, que é, SEMPRE, um jovem ou adulto que foi violado; que dentro de um assassino, de um agressor existe uma criança agredida, violada; que o assaltante de hoje foi uma criança violada, roubada de seu direito de ser alimentada, de ter um teto, de ter espaço para viver e brincar, roubada de seu direito de ser educada e amada, de seu direito de ser protegida.

“Nem toda criança violada se torna um violador mas quase todos os violadores foram violados”

Isso é muito sério!

A violência se cura de dentro para fora. Cura-se, curando-se da própria raiva, da própria ira, ódios, mágoas e incompreensões. Cura-se, curando a raiva de ter sido violada. Cura-se, afastando-se de violadores. Cura-se, removendo comportamentos violentos do repertório. Um bom começo de cura é remover do vocabulário xingamentos e palavras violentas.
Lembre-se: Palavras mudam o DNA!


WANDINELMA SANTOS é juíza de Direito e titular da 14ª Vara Criminal da Comarca de Cuiabá
CLO GUILHERMINO é psicóloga, em Cuiabá

1 Comentário

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  1. - IP 189.87.159.130 - Responder

    Excelente artigo. Precisamos cuidar das nossas crianças e mulheres.

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