PREFEITURA SANEAMENTO

VANESSA MORENO: Gabriel Novis dispensa Academia de Letras

Gabriel e Vanessa

Gabriel Novis dispensa Academia de Letras

Aos 84 anos, o dr. Gabriel, como é conhecido, quer viver uma vida sossegada

POR VANESSA MORENO/ CULTURA POPULAR

Eu não vejo mérito em entrar na Academia de Letras”, afirma o médico e educador, um dos responsáveis pela implantação da Universidade Federal de Mato Grosso. Apesar da infinidade de conteúdos, o cronista do blog Bar do Bugre não quer se dar ao trabalho de publicar um livro. “Eu não tenho nenhum livro publicado, dá muito trabalho. É um legado que vou deixar para minha família, se eles acharem interessante eles publicam”.

Gabriel escreve esporadicamente sobre o cotidiano para o seu blog e alguns jornais, sites e revistas. São mais de duas mil crônicas, o suficiente para publicar cerca de 20 livros.

Atualmente com 84 anos, o dr. Gabriel, como é conhecido, quer viver sossegado e escreve por paixão. Ele não se preocupa sobre o que escrever e nem em seguir um padrão naquilo que escreve. “Na verdade, eu escrevo para mim, eu não escrevo para ninguém”, revela.

Enquanto muitos se dedicam a escrever sobre política, ele se diz por fora do assunto e prefere falar sobre o clima de Cuiabá, que inclusive é o título de uma de suas crônicas mais admiradas pelos seus leitores. A crônica intitulada ‘Clima de Cuiabá’ é uma metáfora sobre o clima quentíssimo da nossa capital, mas deixa um ar de crítica para os governantes e para a população que são, em tese, os principais causadores dessa mudança climática ou “catástrofe ambiental”, como diz o próprio Novis.

Sobre seu blog, que leva o nome ‘Bar do Bugre’, Gabriel conta “Bar do Bugre era o nome do bar do meu pai, eu queria ser garçom, mas meu pai quis que eu fizesse medicina”, descontrai. Lá estão registradas algumas de suas crônicas que vez ou outra são atualizadas. “Escrevo sobre o cotidiano, o que passa nas ruas, nas conversas, nos olhares”, conta.

Gabriel Novis se formou em medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e se especializou como obstetra, durante toda sua carreira como médico, realizou 17 mil partos e foi sócio fundador do Hospital Infantil e Maternidade Femina, em Cuiabá. Ele foi também professor de medicina e um dos responsáveis pela implantação do curso de medicina na Universidade de Cuiabá – Unic, onde permaneceu como diretor por cerca de 10 anos.  

Em 1968, enquanto Secretário de Educação no governo de Pedro Pedrossian, Novis Neves foi designado pelo próprio governador a montar uma universidade de ensino superior em Mato Grosso, quando o estado ainda não era divido, a partir daí começa uma história na vida de Gabriel Novis Neves, que se confunde com a história de Mato Grosso.

Por haver apenas uma faculdade de direito na região e outra somente no outro polo do estado, que era Campo Grande, havia uma intensa necessidade de que houvesse uma universidade aqui.

No dia 10 de dezembro de 1970 o governo federal criou a Universidade Federal de Mato Grosso com sede em Cuiabá. Gabriel Novis foi um dos responsáveis pela implantação e reitor da universidade durante 14 anos. O trabalho demorou de 1968, que foi o processo de preparo.

A história de Mato Grosso que sempre foi muito rica em cultura, recebeu um grande impulso com a implantação da UFMT que trouxe com ela um maior espaço para teatro, música, dança e etc. “A implantação da UFMT abriu um leque enorme”. Conta Gabriel.

O teatro que sempre teve participação na cultura mato-grossense passou a ter maior visibilidade após a inauguração do teatro da UFMT, que passou a ser o melhor do estado e funciona até hoje. “O teatro é único” exalta. Macunaíma de Mário de Andrade, a peça de inauguração do teatro, apresentada por Tônia Carreiro e dirigida por Antunes Filho, segundo Gabriel, foi um grande marco.

Outro grande fator que impulsionou a cultura na época da inauguração foi a criação do Museu Rondon que sempre resgatou a cultura indigenista de forma em que cada peça exposta fosse vista como uma joia. “Nosso compromisso era primeiro com a beleza”, conta Gabriel. Ao lado do Museu Rondon foi criada a Oca, que foi construída próxima à piscina pelos próprios índios.

O Museu de Arte e Cultura Popular fundado por Aline Figueiredo e Humberto Espíndola, a Orquestra Sinfônica e o Coral que foram projetos do próprio Gabriel com o vice-reitor Benedito Pedro Dorileo, proporcionando a alguns mato-grossenses o primeiro contato com a música erudita, popular, folclórica, sacra e regional, além do repertório sinfônico formaram e formam até hoje diversos artistas de destaque.

Um grande diferencial da UFMT nos anos iniciais foi a primeira Escola de Samba de Cuiabá de grande porte, como as do Rio de Janeiro, criada dentro de uma universidade. A Mocidade Independente Universitária, fundada pelo professor de Educação Física João Batista Jaudy, era composta em sua grande maioria por alunos e professores da UFMT. Os enredos eram criados por um dos compositores da Beija-Flor e relatavam a realidade local. “Quando eles desciam a avenida não perdíamos um campeonato”, conta Gabriel que era apaixonado pela beleza da Mocidade. A escola existiu durante 15 anos e foi campeã do carnaval cuiabano por dez vezes consecutivas.

Gabriel Novis foi muito criticado por permitir uma escola de samba dentro da universidade, mas também recebia muitos elogios, inclusive do antigo Ministro da Educação, Cultura e Desportos, Eduardo Portella, que classificou a escola como a maior manifestação da cultura popular do país.

A universidade foi o grande divisor de águas da cultura mato-grossense” relata. A criação da UFMT foi fundamental para a consolidação da cultura e carrega uma história muito extensa e desconhecida. “A história verdadeira jamais vai ser escrita” afirma.

Como bom entendedor de cultura e pela sua vasta experiência na vida pública, assumindo a Secretaria de Educação do Estado por seis vezes e também a Casa Civil e Secretaria de Saúde, Gabriel aponta o grande problema que o Estado vem enfrentando há algum tempo “falta investimento para cultura assim como para tudo” e lamenta “A situação do Brasil é muito difícil, o governo tem que investir em educação, não em ensino, a sociedade precisa de valores”.

FONTE BLOGUE CULTURA POPULAR

Categorias:Cidadania

Sem comentários. Seja o primeiro a comentar

Assinar feed dos Comentários

Deixe seu Comentário

Seu endereço de email não será publicado.
Campos com * são obrigatórios.

treze + 3 =