Pomar: Dilma deve demitir Levy e mudar política econômica

Valter Pomar, historiador, foi dirigente nacional do PT e é uma das principais lideranças da Articulação de Esquerda, corrente interna do partido

Valter Pomar, historiador, foi dirigente nacional do PT e é uma das principais lideranças da Articulação de Esquerda, corrente interna do partido

Notícia animadora

Por Valter Pomar

 

 

 

O programa de TV correspondeu à linha aprovada no congresso do Partido.

Linha esta que decorre da crença de que seria possível defender a legalidade democrática e o projeto petista, mantendo a atual política econômica e confiando na aliança com Temer/PMDB.

Mas é público e notório de que lado Temer e o PMDB estão.

O programa de TV foi feito antes da reunião da comissão executiva nacional do PT, realizada dia 4 de agosto.

A executiva aprovou duas resoluções importantes. Uma destas resoluções reflete a mesma linha política que materializou-se no programa de TV.

A outra resolução aprovada pela CEN de 4 de agostou fala em mudar a política econômica e pede que o PT mobilize para o dia 20 de agosto.

Nas condições dadas, a mobilização do dia 20 de agosto é totalmente defensiva.

Ademais, alguns vão comparecer ao dia 20 enfatizando a defesa da legalidade democrática, outros vão comparecer enfatizando a mudança na política econômica.

O melhor que podemos conseguir no dia 20 de agosto é mobilizar em quantidade tal que obrigue a direita a avaliar com muito cuidado a relação custo/benefício de uma alternativa golpista.

O problema é que, massa por massa, a tendência é que no dia 16 de agosto compareça muito mais gente. E não se trata apenas do empenho da mídia.

Há outros fatores que explicam a mobilização superior do lado de lá.

O primeiro deles é a política econômica, que transfere gente do lado de cá para o lado de lá a cada dia.

O segundo fator é a campanha de desmoralização do PT, que se alimenta de erros cometidos há muito e da recusa do Partido, em 2005 e depois, de tratar o assunto do financiamento empresarial com decisão, coerência política e de classe.

O terceiro deles é a unidade programática: do lado de lá não importa o que o governo faça ou deixe de fazer, a esmagadora maioria da direita nos considera um governo de merda. Já do lado de cá, tem desde governistas que acham que o passado nos protege até esquerdistas que acham que a direita nunca derrubaria um governo que tem Levy como ministro.

O quarto fator que explica a mobilização superior do lado de lá é a vontade.

A vontade que sobra para eles, falta para setores de nossa direção, como ficou claro no retardo e baixo perfil com se reagiu ao gravíssimo atentado contra o Instituto Lula (só hoje, finalmente, acontecerá o abraço ao Instituto).

Portanto, salvo consigamos fazer das tripas coração (e devemos tentar), o mais provável é que a direita consiga reunir no dia 16 de agosto quantidade superior a nós no dia 20 de agosto. E, portanto, a direita disporá da “vacina-pretexto” para fazer o que pretendem fazer.

A dificuldade da direita, como já apontamos várias vezes, reside mais no desacerto entre eles sobre como fazer e sobre o que virá depois de cometido o crime.

Resolvido isto, eles vão operar ao estilo Cunha. E mesmo que não se resolvam entre eles, a dinâmica da mobilização de massa da direita pode forçar um desfecho que atropele parte deles.

Uma das poucas possibilidades de evitar um desfecho favorável à direita é dar um cavalo-de-pau na linha do governo.

A expressão cavalo-de-pau é 100% adequada, pois significa que podemos “capotar” ao tentar.

Ou seja: a esta altura do campeonato, um cavalo-de-pau não garante que a situação termine bem. Mas é uma das poucas chances que temos e devemos insistir nela.

Cavalo-de-pau significa “demarcar o campo de classe”. A essência do problema está em demitir o Levy e mudar a política econômica. E reposicionar o governo do lado daqueles que o elegeram em outubro de 2014.

Se o quinto congresso do PT tivesse dito isto há vários meses, a situação estaria melhor. Mas como sabemos, a linha política adotada pelo quinto congresso foi outra e na prática está ajudando a direita a nos derrotar.

É tão infantil subestimar a direita, quanto culpar a direita, quanto tentar acalmar a direita.

A direita está no seu papel. A direita é o que é. E no momento está muito forte.

Quem não percebe isto, quem culpa a direita por ser de direita; e também quem continua na linha da soberba, subestimando o lado de lá, não entende absolutamente nada do que está acontecendo.

Já os que tentam acalmar a direita — a exemplo de certo ministro que pediu ajuda da oposição, ou dos que foram lamber as botas da Globo, ou dos que dão coletivas dizendo que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa– apenas ajudam a fortalecer, no lado de lá, a avaliação de que não vai ter custo nenhum derrubar o governo.

Grande parte da responsabilidade, neste momento, está nos ombros da presidenta Dilma. Mas a responsabilidade principal é do Partido. O Partido deveria ter dito e segue devendo dizer para a presidenta e para o governo, clara e publicamente, que é necessário mudar imediata e radicalmente de política.

Mas a maioria do quinto congresso e da direção do Partido optou até agora por acreditar numa coletânea de contos da carochinha, a saber, que 2015 é igual a 2013, que o ajuste é necessário, que o PMDB é imprescindível, que as coisas estão se acertando, que em 2018 Lula nos salvaria etc etc.

Dentro do Partido, cada um sabe sua responsabilidade. E acima de tudo esta responsabilidade é política. Os que falam em trocar a direção do Partido, colocando nela pessoas “acima de qualquer suspeita”, parecem acreditar na narrativa da direita segundo a qual nosso problema é a corrupção.

Claro que um componente fundamental da defensiva em que nosso PT está, claro que um componente fundamental da ofensiva da direita, reside no trato e na falta de trato que demos ao tema da corrupção (leia-se, da relação com o financiamento empresarial da política, que é feito de maneira corrupta há décadas, fato que sempre fora criticado por nós) desde 2005.

Os erros cometidos pelo Partido nesta questão — gravíssimos e em alguns casos imperdoáveis erros — precisam ser corrigidos ontem. Mas ninguém se iluda: mantida a atual política econômica, nem JC na presidência do PT nos salvaria da cruz.

Se não houver uma mudança de linha no Partido e em seguida do governo, a catástrofe poderá ser inevitável.

A forma da catástrofe? Não está claro ainda. Mas o conteúdo está: desmoralização da esquerda, repressão aos movimentos, neoliberalismo duro e puro de volta, um longo período de refluxo.

Refluxo no qual terá papel importante a lei supostamente anti-terrorismo (mas de fato lei anti-mobilização social) que pode ser aprovada há qualquer momento pelo parlamento.

Setores da esquerda que sonham em “substituir” o PT (sem perceber que em si mesmo este sonho contém o DNA de um próximo fracasso) subestimam o que virá caso a direita vença.

E setores governistas que insistem na política econômica, que capitularam, que desistiram de lutar, que acham que não dá mais tempo nem jeito, contribuem com a inação para a derrota e para a desmoralização.

O que devemos e podemos fazer é continuar lutando para mudar a linha do Partido e do governo, e temos que fazer isto junto com a mobilização social contra o golpismo e contra a política econômica, Por isto o dia 20 de agosto é tão importante,

Mas olho: o problema da direita é menos o quê e mais o como. Se o TCU não ajudar, a pressão social (leia-se dia 16 vitaminada pela mídia) vai ser importante. E pode acontecer um desfecho a qualquer momento.

Sendo assim, boa sorte e muita luta para todos nós, pois os próximos dias serão muito difíceis.

E a notícia animadora que prometemos no título — e há quem acredite que temos a obrigação de concluir qualquer texto com notícias animadoras — é a seguinte: em comparação ao que poderá vir, a situação atual está boa. Pois se não tivermos êxito na mobilização democrática e popular, a situação pode  piorar muito mais, pois como já dissemos (para espanto de alguns) vivemos tempos de guerra.

 

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