PREFEITURA SANEAMENTO

Válter Pomar (da Articulação de Esquerda) garante que Gregório Duvivier (do portal Porta dos Fundos), a julgar por artigo publicado na Folha de S.Paulo, desponta como o mais novo representante “de certa esquerda que a direita adora”. No artigo, Duvivier apresenta suas razões para odiar o PT. “Parece uma crítica pela esquerda mas é uma crítica impotente e falsa”, diz Pomar. LEIA ARTIGO DO POMAR E DO DUVIVIER

Valter Pomar, historiador, Gregorio Duvivier, escritor e ator

Valter Pomar, historiador, Gregorio Duvivier, escritor e ator

Sobre Duvivier,

por Valter Pomar

Que aos 16 anos Duvivier se considerasse prepotente e tivesse uma visão heroica sobre o poder de seu voto, tudo bem, é ele quem está dizendo e não serei eu a contrariar.


Mas não está tudo bem quando em 2015 ele faz uma revisão histórica, na qual sinaliza para a esquerda mas vira para a direita.

Pois é este o conteúdo político real da frase segundo a qual “quem elegeu o Lula — isso logo ficou claro — foi o José Alencar, os Sarney, o Garotinho, foi aquela Carta aos Brasileiros e a promessa de que o Lulinha era Paz, Amor e Continuidade. Sobretudo continuidade”.

Parece uma crítica pela esquerda, mas é uma crítica impotente. E falsa.

Quem elegeu o Lula em 2002 foi tudo junto e misturado. Que tenham prevalecido uns e não outros, foi resultado da disputa política. Na qual gente que acreditava no poder mediúnico do voto, na prática (por ação ou inação) ajudou o predomínio dos conservadores.

Também me impressiona o parágrafo a seguir, que tanto pode ser lido como uma crítica de esquerda, como pode ser lido como um chororô impotente, mas acima de tudo é falso, falso: “Lula só alugou esse apartamento por quatro anos porque assinou um contrato de locação onde prometia entregar o imóvel i-gual-zi-nho. E Lula, por quatro anos, foi um inquilino dos sonhos — tanto é que renovou o contrato e ainda foi fiador da locatária seguinte. Fizeram algumas mudanças — as empregadas passaram a ganhar mais —, mas não fizeram o mais importante: uma desratização. Muito pelo contrário: os ratos de sempre fizeram a festa”.

Notem: Duvivier fala de 2003 a 2006. Me digam, senhores e senhoras, não falta algo nesta descrição? 

Lembram de 2005? Pois é. Que “inquilino dos sonhos” foi este que quase foi despejado?

Mas o que importa é a conclusão, certo? E a conclusão é igualzinha a da direita coxinha, a saber: que o problema são os ratos. 


Aliás, coxinhas de direita e nazistas sempre terminam com a imagem dos ratos. Pois no fundo no fundo parecem mesmo estar preocupados em saber quem mexeu no queijo deles.

E notem que “divertido”: a mensagem fundamental do texto é… se reconciliar com aqueles que odeiam o PT. 

Palavras dele: “Caros amigos que odeiam o PT: podem ter certeza de que odeio o PT tanto quanto vocês — mas por razões diferentes”. 

É o “jeito de pensar de certa esquerda que a direita adora”, que acha que se diferencia cantando a mesma música mas com letra diferente. Tipo japonês tem quatro filhos… 


Esta esquerda que a direita adora tem seus representantes no governo, mas também tem seus representantes na oposição..

O mais “legal” de tudo é que, ao fim e ao cabo, a conclusão é: “o PT é indefensável”. 


E como nesta visão de mundo quem está movendo a ação de despejo são os “ratos que o PT não teve coragem de expulsar”, os que pensam que “não fomos nós que elegemos Lula” podem lavar as mãos. 

E ficar olhando. 

E odiando.

• Por Gregório Duvivier em 10 de agosto de 2015
A primeira vez que me deparei com uma urna eletrônica foi para votar no Lula. E Lula se elegeu, depois de três tentativas malfadadas.
Gregório Duvivier
Lágrimas grossas escorriam pelo meu rosto: com a prepotência característica dos 16 anos, tive a certeza de que era o meu voto que tinha feito toda a diferença.
A rua estava cheia de pessoas da minha idade que tinham essa mesma certeza. O Brasil tinha acabado de ganhar uma Copa do Mundo, mas a euforia agora era ainda maior: foi a gente que fez o gol da virada. Parecia que o Brasil tinha jeito, e o jeito era a gente — essa gente que nasceu de 1982 a 1986 e votava agora pela primeira vez.
Acabaram-se os problemas do Brasil — a gente chegou. Lembro das ruas cheias, das bandeiras do PT, lembro de abraçar desconhecidos na Cinelândia — Lula lá, brilha uma estrela.
Logo vi que não era o meu voto que tinha feito o Lula se eleger, nem o dos meus amigos, nem o da minha geração. Quem elegeu o Lula — isso logo ficou claro — foi o José Alencar, os Sarney, o Garotinho, foi aquela Carta aos Brasileiros e a promessa de que o Lulinha era Paz, Amor e Continuidade. Sobretudo continuidade.
Lula só alugou esse apartamento por quatro anos porque assinou um contrato de locação onde prometia entregar o imóvel i-gual-zi-nho. E Lula, por quatro anos, foi um inquilino dos sonhos — tanto é que renovou o contrato e ainda foi fiador da locatária seguinte. Fizeram algumas mudanças — as empregadas passaram a ganhar mais —, mas não fizeram o mais importante: uma desratização. Muito pelo contrário: os ratos de sempre fizeram a festa.
Caros amigos que odeiam o PT: podem ter certeza de que odeio o PT tanto quanto vocês — mas por razões diferentes. Odeio porque ele cumpriu a promessa de continuidade. Odeio porque ele não rompeu com os esquemas que o antecederam. Odeio por causa de Belo Monte e do total descompromisso com qualquer questão ambiental e indígena. Odeio porque nunca os bancos lucraram tanto. Odeio pela liberdade e pelos ministérios que ele deu ao PMDB. Odeio pelos incentivos à indústria automobilística e à indústria bélica. Odeio porque o Brasil hoje exporta armas para Iêmen, Paquistão, Israel e porque as revoltas do Oriente Médio foram sufocadas com armas brasileiras. Odeio porque acabaram de cortar 3/4 das bolsas da Capes.
O PT é indefensável — cavou esse abismo com seus pés. Mas assim como não fomos nós que elegemos Lula, engana-se quem vai às ruas e acha que está tirando Dilma do poder. Quem está movendo essa ação de despejo são os ratos que o PT não teve coragem de expulsar.
FONTE FOLHA DE S PAULO
——–

E A POLEMICA SE DESDOBROU:

O bedelho de Telésforo

Foi por acaso que li o texto de Gregório Duvivier, intitulado Por que odiar o PT.

Igualmente foi por acaso que escrevi uma crítica a respeito, numa lista fechada de emails.

Alguém sugeriu que eu divulgasse publicamente a crítica, então adaptei o texto e postei no http://valterpomar.blogspot.com.br/2015/08/sobre-duvivier.html

A crítica teve até agora 5.921 acessos no endereço acima.

Desconheço a repercussão em outros meios (emails, watzap, face, Brasil 247 etc.).

Dezenas de pessoas se deram ao trabalho de criticar o texto. Muitas para defender o Duvivier, várias para atacar o PT e o governo, algumas para discordar dos meus argumentos.

Busquei responder a cada uma destas críticas onde foram feitas.

A única exceção, até agora pelo menos, é esta minha réplica ao texto de João Telésforo.

Telésforo concorda com duas das críticas que faço ao texto de Duvivier, mas diz que me equivoco ao contestar o que — na opinião de Telésforo–  “talvez seja o ponto crucial e mais acertado do artigo de Duvivier”.

A seguir o que diz Telésforo: O TEXTO DIRIGE-SE DIRETAMENTE AOS CONSERVADORES QUE ODEIAM O PT; NO ENTANTO, FAZ ISSO NÃO PARA BUSCAR “CONCILIAR-SE COM ELES”, COMO SUPÕE POMAR, E SIM PARA SE CONTRAPOR À SUA NARRATIVA NA DISPUTA DA PROFUNDA INSATISFAÇÃO COM O GOVERNO E O PT. NÃO SÃO SÓ “COXINHAS” QUE COMPARTILHAM DESSA INSATISFAÇÃO (E ATÉ MESMO ÓDIO), MAS AMPLOS SETORES SOCIAIS, COM QUEM É INDISPENSÁVEL DIALOGAR PARA CONSTRUIR UMA ALTERNATIVA DE MUDANÇA REAL PARA O PAÍS. SE NÃO FIZERMOS ISSO, A DIREITA VAI SEGUIR SURFANDO SOZINHA NA INSATISFAÇÃO E REVOLTA POPULAR CONTRA ESSE GOVERNO INDEFENSÁVEL.

Concordo inteiramente (como pode ser verificado em muitos textos deste blog) em que o governo e o PT podem e devem ser criticados. Aliás, eu mesmo faço isto com frequência, para irritação de alguns governistas.

Concordo, também, que se a esquerda não “disputar” os insatisfeitos, a direita o fará.

Evidentemente, tenho como prioridade absoluta recuperar o apoio dos setores da classe trabalhadora que estão insatisfeitos conosco.

E quero “disputar a insatisfação” para corrigir os rumos do governo e do PT. Nisto, se entendi direito, divirjo totalmente de Telésforo.

Entretanto, minha principal crítica ao texto do Duvivier não reside nesta questão.

Se Gregório D. tivesse escrito um texto atacando o PT pela esquerda, muito provavelmente eu não teria me motivado a comentar, até  porque acho que o principal problema do PT está nos seus próprios erros e em segundo lugar nos ataques patrocinados pela oposição de direita.

Acontece que a crítica feita por Duvivier no texto citado parece de esquerda.

A referência aos ratos é particularmente infeliz, não apenas pelos motivos que Telésforo aponta, mas por outras que podem ser encontradas, por exemplo, nos endereços abaixo:

http://www.arqshoah.com.br/bibliografia/295/

http://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php…

http://quadrinheiros.com/…/as-muitas-camada…/comment-page-1/

Gosto de Porta dos Fundos, respeito o que Duvivier fez durante o segundo turno de 2014, mas repito aqui o que disse noutro lugar: infelizmente, a maior parte das críticas ao PT e aos governos Lula-Dilma não são feitas pela esquerda, mas sim pela direita. Neste ambiente, é cada vez mais comum que pessoas de esquerda façam, com consciência ou não, críticas que parecem de esquerda, mas não o são.

Exemplo: a crítica do Frei Betto segundo a qual (repito de memória, portanto com inexatidão) o problema do PT foi ter tido um projeto de poder, não de país.

Esta crítica é totalmente falsa.

Um dos principais erros cometidos pelo PT foi exatamente o contrário do que diz Frei Betto: foi não ter tido um projeto de poder, foi não ter querido enfrentar a classe dominante neste terreno, foi não ter enfrentado o tema da democratização da comunicação, da segurança pública, da indústria cultural, da educação privada, do financiamento das campanhas eleitorais, da reforma política e do Estado etc.

Pois bem: muita gente de esquerda repercute a crítica do Betto acerca do “poder”, sem perceber que esta crítica ecoa a visão de “poder” (e de politica) que a ideologia dominante gosta de difundir.

A crítica de Duvivier também opera no âmbito do senso comum conservador. Canta a mesma música da direita, mas com letra diferente. Tipo o que alguns de nós fazíamos na escola primária: “japonês tem quatro filhos”, no lugar de “já podeis da pátria filhos”.

Compreendo perfeitamente que Telésforo e outros, que querem fazer a crítica de esquerda ao governo, se sintam tentados a tentar utilizar Duvivier como alavanca.

Mas na minha opinião, embarcar no discurso do “odeio o PT tanto quanto vocês — mas por razões diferentes” só fortalece a oposição de direita, não agregando nada à oposição de esquerda.

Telésforo percebe este risco, pois afirma que dizer que o governo e o PT são indefensáveis não significa “automaticamente” lavar as mãos.

Claro, “automaticamente” não.

Mas se o próprio Telésforo acha melhor acautelar-se incluindo esta palavrinha, que dirá eu.

Até porque quem não se defende, não merece defesa.

Sobre a “agenda Brasil”, passo pois escrevi noutro lugar: http://valterpomar.blogspot.com.br/2015/08/sera-o-rubicao.html

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HTTP://BRIGADASPOPULARES.ORG.BR/?P=1775

POSTED ON 12 DE AGOSTO DE 2015BRIGADAS POPULARESIN ARTIGOS363 VIEWS

Gregório Duvivier X Valter Pomar

Por João Telésforo*

Valter Pomar está certo ao contestar a afirmação de Gregório Duvivier de que Lula teria sido eleito, em 2002, devido apenas às alianças com setores conservadores e às promessas de não realizar mudanças profundas na economia, que mexessem nos interesses de banqueiros e latifundiários.

Entende-se que o colunista da Folha tenha querido enfatizar que o PT que chegava ao governo já não era mais aquele que muitos acreditavam (terá realmente sido algum dia?), ainda mais considerando os acordos que fez. Porém, menosprezar a força da mobilização popular como fator decisivo – ainda que não único – para a eleição de Lula não é apenas uma simplificação, mas uma interpretação conservadora da história. Talvez o maior erro do PT nesses anos todos de governo tenha sido justamente endossar em boa medida essa leitura, e supor, com base nela, que a “governabilidade” deveria ser buscada sobretudonos pactos conservadores, e não na “força do povo” nas ruas.

O segundo turno das últimas eleições mostrou novamente a diferença que faz a militância quando convocada a resistir a retrocessos (imagine se fosse para se engajar não só contra o retorno do passado, mas por um projeto alternativo de futuro…).Dilma, porém,segue manifestando seu desprezo a esse fator de poder, ao se jogar a cada dia com maior sofreguidão nos braços da grande burguesia, claramente supondo ser ela quem pode realmente salvá-la do impeachment.(A rigor, talvez o problema mais grave seja que Dilma e o PT não somente cedem às pressões e chantagens da burguesia, mas compartilham de grandes linhas do seu projeto desubdesenvolvimento… Mas isso é assunto para outro texto).

Pomar tem razão também ao criticar a metáfora ‘’gregoriana” dos ratos, que transmite a ideia de que o maior empecilho às mudanças são bandos de indivíduos degenerados. Se a questão fosse só “desratizar”, operações como a Lava-Jatoresolveriam nossos problemas.Aliás, quem não se lembra da “faxina ética” que a imprensa atribuiu a Dilma no início de seu primeiro governo, com demissão de vários ministros?

O problema fundamental da corrupção não se resolve simplesmente perseguindo indivíduos ou quadrilhas específicas; é preciso romper com a lógica corrupta do sistema econômico. Na metáfora do apartamento, seria necessário enfrentar os locadores do imóvel – para construir uma comparação adequada com o Brasil, grandes capitalistas especuladores que cobrariam preços absurdos de famílias pobres, aumentariam o valor do aluguel de modo arbitrário e as chantageariam a cada momento com ameaças de despejo. “Desratizar” um apartamento nessas condições poderia ser útil para melhorar a vida do locador, mas só apoiando-se na força da luta popular (um movimento de trabalhadores sem-teto, por exemplo) ele poderia vencer as chantagens, ter condições de negociar um preço mais justo de aluguel ou mesmo ocupar, resistir e, sem pedir licença à classe-gangue de grandes especuladores, exercer seu direito à moradia e à cidade.

O dirigente petista equivoca-se, porém, ao contestar o que talvez seja o ponto crucial e mais acertado do artigo de Duvivier. O texto dirige-se diretamente aos conservadores que odeiam o PT; no entanto, faz isso não para buscar “conciliar-se com eles”, como supõe Pomar, e sim para se contrapor à sua narrativa na disputa da profunda insatisfação com o governo e o PT. Não são só “coxinhas” que compartilham dessa insatisfação (e até mesmo ódio), mas amplos setores sociais, com quem é indispensável dialogar para construir uma alternativa de mudança real para o país. Se não fizermos isso, a direita vai seguir surfando sozinha na insatisfação e revolta popular contra esse governo indefensável.

Não há defesa possível para um governo cuja “agenda Brasil” é a de Renan Calheiros, Rede Globo e companhia. Mais do que Dilma e seus ministros como Kassab, Joaquim Levy e Kátia Abreu, o PT– ou seu setor majoritário – abraçou essa agenda e se tornou indefensável, como diz Gregório. Afirmar isso não significa automaticamente, porém, ao contrário do que diz Pomar, lavar as mãos diante das ameaças golpistas. Devemos lutar contra o golpe não porque defendemos o governo, mas porque combatemos a hipocrisiae o golpismo da direita reacionária. E é exatamente o que faz Duvivier ao fim do artigo: critica quem tem ido às ruas pelo impeachment, argumentandoque ele só interessa àqueles velhos interesses conservadores (os tais “ratos”) que o PT não teve coragem para enfrentar. Não há aí indiferença ao golpe, e sim denúncia de que ele só vai agravar ainda mais os problemas estruturais do país e até mesmo a corrupção.

* João Telésforo é Mestrando em Direito, Estado e Constituição na Universidade de Brasília, e militante das Brigadas Populares-DF.

1 Comentário

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  1. - IP 179.217.107.78 - Responder

    Esse Pomar deveria interpretar melhor o texto, para além de suas crenças.

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