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UM INTELECTUAL DA PM: O tenente coronel Edson Rondon desfaz a ideia que a população, em sua grande maioria, mantém de que todo policial atua com base na violência. A base de atuação de Edson Rondon é outra. Apesar da escolha de sua profissão, por influência de uma família em que haviam cinco outros militares, Rondon não abandonou em nenhum momento os seus estudos.

O tenente coronel Edson Rondon, em foto de Hegla Oleiniczak/DC

O tenente coronel Edson Rondon, em foto de Hegla Oleiniczak/DC

PERSONALIDADE

Um intelectual da PM

Edson Rondon é tenente coronel e Comandante da Academia de Polícia de Mato Grosso. Como ele, militares investem cada vez mais na formação de alto nível

 

VANESSA MORENO E ENOCK CAVALCANTI

DO DIÁRIO DE CUIABÁ

 

“A formação aperfeiçoa o perfil do policial. A concepção que se tem de que a policia é violenta deve ser trabalhada na sociedade”, afirma o tenente coronel da Polícia Militar de Mato Grosso Edson Benedito Rondon Filho.

Edson Rondon desfaz a ideia que a população, em sua grande maioria, mantém de que todo policial atua com base na violência. A base de atuação de Edson Rondon é outra. Apesar da escolha de sua profissão, por influência de uma família em que haviam cinco outros militares, Rondon não abandonou em nenhum momento os seus estudos.

Ainda que trabalhar na Polícia Militar o exigisse muito, a partir de suas escalas de trabalho não definidas previamente, o policial não desgrudava dos livros, encarando com êxito o desafio de concluir seus estudos. Bacharel em Direito, em Segurança Pública e em Ciências Sociais, com ênfase em Sociologia, Rondon não parou por aí. Concluiu o Mestrado em Educação e o Doutorado em Sociologia, e ainda deseja avançar além disso.

Rondon acredita que a concepção de violência é relativa. “Muitas vezes um ato que pode ser considerado violento por uma pessoa pode não ser para outra. Existe uma confusão dado o desconhecimento dos conceitos de violência e crime”, afirma. O tenente coronel acredita que a violência é construída socialmente e que o papel que o policial exerce na sociedade está definido no Procedimento Operacional Padrão (POP), que é um manual de regras, procedimentos, condutas e relacionamentos pensados por equipes de estudiosos que se debruçaram durante anos para normatizar a forma como o policial deve agir. “Se o policial exceder o que está estabelecido no POP ele vai ser responsabilizado internamente e quem vai fazer esse julgamento é o Poder Judiciário”, explica.

“A Policia, dentro das condições que são apresentadas a ela, não só tem cumprido o seu papel como tem feito muito mais”, avalia Rondon que exalta a dedicação dos policiais que, como ele, tem uma jornada de trabalho puxada das cinco da manhã às onze da noite sem feriados e finais de semana.

As mudanças nas leis conquistadas após as mobilizações organizadas pelos policiais militares em 2014 trouxeram um momento de calmaria pra instituição, em Mato Grosso. As alterações na progressão de carreira, na forma de ascensão e qualificação e a melhoria salarial, tornaram o ambiente da Polícia Militar mais agradável, rompendo com certos feudos e garantindo ao policial toda tranquilidade quanto ao seu posicionamento funcional, de forma a que possa concentrar seus melhores esforços nas suas atividades.

O que justifica as explosões da violência, segundo Rondon, são as deficiências nos mecanismos sociais como a família criadora de valores, a igreja, escola e o próprio Estado que não consegue suprir as enormes deficiências em ambientes de saneamento, lazer e cultura. “A população acaba canalizando as responsabilidades somente à Polícia”, se queixa.

Atualmente, Edson Rondon é o Comandante da Academia de Polícia Militar, Coordenador do Centro de Desenvolvimento de Pesquisa da Polícia Militar e editor da Revista Científica de Pesquisa em Segurança Pública Homens do Mato.

Além das publicações na revista, Rondon é resenhista e coleciona vários livros e artigos publicados e planeja outros lançamentos nesse ano.

Ele também está concluindo uma pesquisa realizada através da Secretaria Nacional de Segurança Pública no projeto Pensando Segurança, em parceria com o Instituto de Educação da Universidade Federal de Mato Grosso – UFMT e o Centro de Referência em Direitos Humanos da Secretaria de Estado de Justiça e Direitos Humanos – Sejudh. Trata-se de uma pesquisa feita de maneira comparada nas cidades de Cuiabá, São Luís do Maranhão e Belém do Pará pra compreender a relação que se estabelece entre a população moradora de rua e os profissionais de Segurança Pública. A pesquisa deve ser publicada ainda esse ano, até o mês de julho, pelo Ministério da Justiça, em um livro que reunirá vários relatórios de pesquisadores de todo o Brasil e de várias Universidades.

Outro livro que será lançado em breve pela editora EdUFMT, coordenado pelos professores Luiz Augusto Passos e José Luiz Marim, através do projeto Rua Ação, tem um capitulo em que Rondon faz uma abordagem de antropologia urbana sobre a relação entre Estado e população em situação de rua, no período anterior e durante a realização da Copa do Mundo de 2014, no Brasil.

“Hoje quem está na área acadêmica dificilmente produz livros, a gente produz artigos que são publicados em revistas cientificas”, declara Rondon.

“Inteligência de Segurança Pública – Um Xeque Mate Na Criminalidade” e “Fenomenologia Da Educação Jurídica Na Formação Do Policial Militar” são dois livros de Rondon que conquistaram destaque em todo o Brasil.

“Essa ênfase nas pesquisas da academia está mais difícil de levar por conta das funções internas”, conta. Rondon está atarefado traçando o perfil dos novos policiais, incluídos na tropa da Polícia Militar de Matao Grosso há apenas três meses. São 620 questionários e o policial trabalha na análise interpretativa dos dados. “É uma coisa muito densa, extensa e trabalhosa”, declara.

Além disso, há outro desafio que vem ocupando muito tempo na rotina de Rondon. Como coordenador da Academia da Polícia Militar no setor de gestão pedagógica, uma de suas funções é pensar na transição do modelo de ensino que é aplicado atualmente aos oficiais. Recentemente foi aprovada uma lei que exige dos oficiais a formação como Bacharel em Direito e essa exigência será cobrada a partir do ano que vem.

“Como hoje o ingressante só tem o nível médio, com a alteração no mecanismo de seleção temos que alterar também o processo de ensino e aprendizagem porque o bacharel já vem com uma formação superior que exige a gente adequar a grade curricular a essa nova realidade”, explica.

Rondon ainda pretende contribuir muito com a Segurança Pública através de suas pesquisas, mas já faz planos para sua aposentadoria. Faltando apenas dois anos, o tenente coronel pretende fazer um pós-doutorado, continuar a pesquisa com os novos acadêmicos para compreender o comportamento do policial e desmistificar a ideia de que o policial é agressivo. Além disso, o estudioso Rondon quer explorar outro cenário, fazendo um trabalho etnográfico e antropológico sobre o bairro Coxipó da Ponte, sua região de origem. “Já venho há algum tempo coletando material e quero mergulhar um pouco mais nessa especificidade local que é o meu nascedouro, a minha origem”, adianta.

O que ele espera é poder captar a história oral de muitos moradores e os registros de pessoas que já morreram, mas que deixaram um legado muito importante que está sendo apagado junto com a história da antiga Cuiabá. “Não posso deixar que a história de vida dessas pessoas venha a ser esquecida e a morrer com o fim da vida delas. Essas pessoas tem um sentido, tem importância fundamental para Cuiabá e para a preservação da história de nossa comunidade”.

 

Endereço da Revista Científica de Pesquisa em Segurança Pública – Homens do Mato: www.revistacientica.pm.mt.gov.br

 

 

Pequeno Perfil Cultural

 

 

Livro de cabeceira: “A Insegurança Social: O que é ser protegido?”, de Robert Castel e a trilogia “Millenium”, romance policial de Stieg Larsson.

Filme: “Notícias de uma Guerra Particular”, um documentário brasileiro de 1999, produzido pelo cineasta João Moreira Salles e pela produtora Kátia Lund.

Peças de teatro que gosta de assistir em Cuiabá: Nico e Lau, Almerinda e Humor do Mato.

Literatura Regional: Manoel de Barros

Time: Cuiabá e Palmeiras

Música: Sou eclético, de regional à música clássica, depende do momento.

Hobby: No pouco tempo que sobra, gosto de tocar violão e nadar.

Lugares que gosta de frequentar em Cuiabá: Tom Chopin, El Pancho e Pizzarias.

O que tem de melhor em Cuiabá: A recepção do povo e a culinária

O que precisa mudar: No ponto de vista moral, precisa mudar a construção de valores da sociedade que causa a violência e, no ponto de vista da estruturação, criar programas e políticas publicas para as periferias com opção de lazer, esporte e saúde. É preciso também conciliar progresso com preservação cultural e dos patrimônios.

 

 

 

2 Comentários

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  1. - IP 177.7.77.183 - Responder

    Enquanto isso o pau come solto na periferia de Cuiabá com a PM maltratando a população e atirando contra tudo e todos… principalmente contra a juventude perdida, pobre e preta. A PM precisa ser extinta porque está contaminada ideologicamente. Precisamos criar uma polícia popular e que não agrida tanto a classe trabalhadora da periferia das cidades brasileiras.

    • - IP 201.86.183.226 - Responder

      A Polícia é formada por uma amostra de sua sociedade, logo é espelho de seu povo.

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