TRAÍRAS – Em artigo, professor Roberto Boaventura sugere que Adufmat estaria trabalhando, em Mato Grosso, para enfraquecer greve dos professores

Atravessando a greve
ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ    

Segundo Boaventura, "nossa greve não é só por recuperação salarial. Lutamos com bravura nunca antes vista em tempos de Estado de Direito pela Autonomia Universitária e por melhores condições de trabalho." Ele denuncia a ação de trairas que estaria trabalhando, entre os professores, para enfraquecer a greve

O título deste artigo parafraseia a expressão “atravessando o samba”, que é empregada quando os instrumentos não estão em harmonia; quando uns estão mais acelerados e outros mais lentos. Metaforicamente, essa “desarmonia” pode – dentre outras – indicar a incidência de traição (política) em curso.

E é disso que trato hoje. Como é sabido, universidades e institutos federais estão em greve desde 17/05. Durante esse tempo, o governo Dilma/PT jogou pesado contra os professores.

No dia 31/08, sem dialogar com o ANDES (Sindicato Nacional), enviou ao Congresso um Projeto de Lei, que foi endossado por uma “Federação de Professores” (Proifes), formada por docentes subalternos ao governo. O Proifes não tem reconhecimento da maioria.

Nesse tempo, o governo veiculou pela mídia e seus agentes, principalmente reitores, uma das maiores inverdades: de que a categoria havia recebido de 20 a 40% de aumento salarial, a serem pagos em três anos (até 2015).

Na verdade, descontando inflações do período, não mais do que 10% (na UFMT seriam nove colegas) teriam de fato ganho real, mas não mais do que 13%, ao final dos três anos. Os demais, inclusive este que vos escreve, terão perdas salariais!

Portanto, convido a olharem os índices realmente oferecidos – que são variados, conforme titulação e tempo de serviço – e fazer os descontos das inflações já passadas e das vindouras do período em questão. Dá trabalho, mas só assim se desmente o governo.

Mas nossa greve não é só por recuperação salarial. Lutamos com bravura nunca antes vista em tempos de Estado de Direito pela Autonomia Universitária e por melhores condições de trabalho. Nossa proposta de Carreira, desconsiderada pelo governo, centra-se numa universidade realmente pública, gratuita, laica, de qualidade e socialmente referenciada. Estamos recusando a ditadura do mercado.

Assim, tentei resumir o panorama de nossa luta. Nesse cenário, é possível identificar sujeitos em campos antagônicos. De um lado, os docentes – sindicalizados no ANDES (Sindicato Nacional) – e de outro, o governo e seus capachos.

No entanto, essa dicotomia nem sempre é tão simples. Do lado do governo, há governistas (raros e de limitada influência política) sensíveis a nossa causa. Em contrapartida, do nosso lado, e ao nosso lado, há os “hoplias sp.”, da família Erythrinidae. Traduzindo: a traíra, que é um peixe desprovido de nadadeira adiposa, do qual se deve ter cuidado ao manipulá-lo, pois pode morder, causando dor e intenso sangramento. Na piscicultura é indesejável, pois se alimenta de alevinos e peixes jovens de outras espécies. A traíra prefere a sombra/escuridão à luz. Metaforicamente, o “traíra” é o indivíduo que age nas sombras, sorrateiramente, delatando ou prejudicando seus colegas.

Pois bem. Finalizo este artigo, sem comentários, reproduzindo a “Nota de Repúdio” que o Comando Local de Greve apresentou à diretoria da Adufmat (Sindicato dos Professores da UFMT):

“A Assembleia Geral da ADUFMAT-Seção Sindical/ANDES, realizada no dia 5 de setembro de 2012, REPUDIA, veementemente, a DIRETORIA da ADUFMAT-Seção Sindical/ANDES-SN pelo COMUNICADO DA DIRETORIA aos docentes em 5 de setembro de 2012, postado via e-mail, às 15:03. A Diretoria exorbita poderes e desrespeita instâncias de debate e deliberação da greve com a finalidade de enfraquecer o movimento docente em luta na defesa da universidade pública brasileira. Diante disso, a categoria solicita da Diretoria esclarecimentos em assembleia específica sobre o ato praticado, marcada para o dia 17/09/2012, às 9h”.

A greve continua…

*ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ – Dr. Jornalismo/USP; Prof. Literatura/UFMT

1 Comentário

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  1. - IP 189.114.53.137 - Responder

    Roberto! Conheço você de longa data. Sei que és uma pessoa que procura ser coerente entre seu discurso e sua prática. Achas justo receberes o salário pago pelo cidadão brasileiro durante 4 meses sem trabalhares?
    O que aconteceria se os plantadores de feijão, por exemplo, fariam a mesma coisa? Quem pagaria o sustento de suas famílias?

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