“Não dá para respeitar saudades da ditadura militar”




Tony Bellotto Foto: Mônica Imbuzeiro / Agência O Globo

O kaos nosso de cada dia

POR TONY BELLOTTO, em O GLOBO

 

Estou farto do populismo atual, mas daí a apoiar golpes antidemocráticos vai uma infinita distância

Kaos com manteiga

No voo Recife-Rio, voltando de um show que reuniu Titãs e Capital Inicial, alterno cochilos profundos (o show terminara às 3h30m da manhã e o avião partira às 9h) com a leitura do volume 1 de “Guerra e paz”, de Tolstói, um tijolaço de 1.255 páginas. Entre moderadas turbulências intermitentes, o senhor ao lado, na janela — estou no corredor, e a poltrona do meio, vazia, nos serve de aparador e biombo conceitual —, me observa de vez em quando. Reparo que em alguns momentos ele franze os olhos na direção da lombada do calhamaço, tentando descobrir que livro estou lendo. Quando chegamos ao Galeão, antes que se abram as portas do Boeing, o enigmático senhor me aborda: “Vejo que você gosta de ler. Leia isto”, e me presenteia com um livreto doutrinário tipo Jesus Te Ama. “Este livro vai transformar a sua vida.”

Agradeço, e guardo o Jesus Te Ama na mochila.

Já me acostumei, as pessoas adoram me presentear com livros religiosos que transformarão a minha vida. Mais tarde, como de hábito, jogarei o livreto no lixo. Nada pessoal, mas sou feliz com a vida que levo. Mais Tolstói e menos Jesus Cristo, meu humilde slogan pessoal de autoajuda.

Kaos doce

Na noite anterior, Titãs e Capital Inicial — cujo mais recente CD, “Viva a revolução”, assim como “Nheengatu”, novo CD dos Titãs, promovem a insubmissão e o questionamento — haviam celebrado com os recifenses as canções de amor e rebeldia que fazem a reputação do rock no mundo inteiro como estilo musical e modo de vida transgressores e libertários há mais de 60 anos. Em determinado momento, Sergio Britto, tecladista e cantor dos Titãs, explicara ao energizado público recifense o significado de Nheengatu, palavra indígena que nomeia nosso disco e também o show com que corremos o país: “Língua geral! Uma língua compilada pelos jesuítas no século XVII para que índios e portugueses pudessem se entender na nação que se criava. Estamos precisando nos entender!” (as palavras do Britto não foram exatamente essas, mas algo do gênero).

A capa do CD (de autoria do próprio Britto), que traz a pintura de Peter Bruguel retratando a Torre de Babel — o mito bíblico do desentendimento — estampada sob o vocábulo tupi-guarani, num aparente paradoxo entre o entendimento e o desentendimento, exemplifica bem o estado das coisas no Brasil.

Kaos amanhecido

Toda essa tergiversante introdução para chegar ao centro gravitacional desta crônica: as constrangedoras manifestações antigoverno ocorridas em várias cidades brasileiras na semana passada. Não dá para respeitar — ou deixar passar batido — jovens brandindo faixas pela avenida Paulista em que se reivindica intervenção militar no governo e se expressam saudades dos tempos da ditadura militar (tempos, ressalte-se, que os jovens protestantes não viveram, devido à evidente pouca idade). Além dos protestos, esse pessoal junta a seus bordões constrangedoras ofensas a nordestinos. Deprimente. Pior ainda ter de aguentar colegas roqueiros velhos de guerra apoiando convictos tais sandices. Eu também estou de saco cheio do populismo, ineficiência, bravatas e corrupção do atual governo, mas daí a apoiar golpes antidemocráticos e declarações xenófobas vai uma INFINITA distância. Ainda que haja muita gente no governo determinada a cercear a liberdade e a autonomia de nosso sistema político, vivemos numa democracia e temos de estar preparados para ser governados por aqueles de quem discordamos e para conviver com aqueles de quem diferimos.

Kaos duro

É certo que o PT tem sua parcela de culpa nessa situação, depois de tantos anos incitando povo contra elite, pobres contra ricos, nós contra eles, isso contra aquilo e outras estratégias idiotas de confrontamento e secessão social. Cutucaram a tenebrosa Zelite e agora têm de lidar com o indigesto omelete de ovos de serpente que ajudaram a preparar. O lado bom da bomba: pelo menos agora temos uma oposição. E sem oposição não existe democracia. Ao contrário do que pregam os manifestantes sectários da semana passada, precisamos de uma oposição atenta, que, dentro das regras democráticas, exerça uma vigilância dura e constante aos movimentos sorrateiros de algumas alas do governo em sua indisfarçável sedução pelo totalitarismo.

Kaos embolorado

À noite, já de volta ao lar, sonho que perdi o celular, e o fato gera grande angústia e ansiedade. Quando acordo, lembro da frase de Sergio Britto no show dos Titãs em Recife: “Estamos precisando nos entender!”.

Nos entender uns aos outros e a nós mesmos.

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