PREFEITURA SANEAMENTO

SOCIÓLOGO EDMUNDO LIMA DE ARRUDA JR: Dia sim, dia não, ouço o barulho do caminhão do lixo, aceleração de marchas primeiras, ruídos do triturador, gritos dos lixeiros. Penso no trabalhador anônimo de Durkheim. Ofício árduo entre corridas e pulos, a marca dos intervalos entre cada parada. Algumas vezes cruzei os olhos com esses profissionais. Um segundo que se projeta e interpela. Por que estou aqui e não ali? Vice versa, também.

O sociólogo Edmundo Lima Arruda Jr reflete sobre o papel dos lixeiros na sociedade. " A ideia de solidariedade orgânica fascinava Durkheim. Como podem os homens da sociedade industrial dependerem tanto de milhares de pessoas anônimas?"

O sociólogo Edmundo Lima Arruda Jr reflete sobre o papel dos lixeiros na sociedade. “A ideia de solidariedade orgânica fascinava Durkheim. Como podem os homens da sociedade industrial dependerem tanto de milhares de pessoas anônimas?”

Lixeiros e coesão social

Edmundo Lima de Arruda Jr
Dia sim, dia não, ouço o barulho do caminhão do lixo, aceleração de marchas primeiras, ruídos do triturador, gritos dos lixeiros.

Penso no trabalhador anônimo de Durkheim. Ofício árduo entre corridas e pulos, a marca dOs intervalos entre cada parada.

Sem contar os ossos da profissão. Homens vigorosos ao meio do insalubre. O que falar do risco de queda, atropelamento?

O salário não é dos piores. As funções é que me fazem pensar em como precisamos desses valiosos homens. Aliás, coveiros, carteiros, limpadores de fossa, peões de obra, como a sociedade deve a eles.

O trabalho braçal é extenuante. Lixeiros levam o que sobrou de nosso consumo. Não ganham o suficiente para imaginar uma vida de sobras e supérfluos. Algumas vezes cruzei os olhos com esses profissionais. Um segundo que se projeta e interpela. Por que estou aqui e não ali? Vice versa, também.

A reprodução antroponômica foi estudada por Daniel Bertaux. “Tal pai, tal filho” é titulo de um livro no mesmo sentido. A trajetória de reprodução das origens da classe trabalhadora tende para a tradição de manutenção da subalternidade. As margens para a mobilidade social são pequenas.

Na Europa, a imobilidade é real. Em países como o Brasil há oportunidades de rupturas e ascenso.

Claro, depois de 2008, o mundo não será mais o mesmo. Ter emprego, integrar a condição de trabalhador, direto ou não, passa a ser um privilégio.

Não estou seguro de que todo trabalho dignifica o homem. Mas reconheço nos lixeiros e em todos os trabalhos de menor qualificação funções de coesão social.

A ideia de solidariedade orgânica fascinava Durkheim. Como podem os homens da sociedade industrial dependerem tanto de milhares de pessoas anônimas?

Imaginem o mundo sem lixeiros, coveiros, especialistas em fossas entupidas. Inumerável a lista dos artesãos dessa lenta e árdua organicidade.

Idéias aparecem. Como diminuir as diferenças salariais entre trabalhadores? Seria possível um rodízio entre trabalhadores mais qualificados em funções mais braçais? Tipo advogados, médicos, exercendo as tarefas de lixeiro por um ou dois dias? Engenheiros e arquitetos esvaziando excrementos?

Talvez esse experimento provocasse uma discussão sobre o outro. O outro sem privilégios de classe, de cor, da educação, ou por outras heranças.

Entendo se o leitor considerar insana a reflexão. Afinal, seria mais interessante falar da aposentadoria de Gisele Bundchem.

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EDMUNDO LIMA DE ARRUDA JR, cuiabano, é professor titular da Universidade Federal de Santa Catarina e um dos fundadores do CESUSC – Complexo de Ensino Superior de Santa Catarina (CESUSC), membro efetivo do Instituto dos Advogados Brasileiros. Possui graduação em Direito pela Universidade de Brasília (1978), Mestrado em Direito pela UFSC (1981) e Doutorado em Sociologia – Université Catholique de Louvain (1991), Pós-Doutorado em Sociologia Política na Universitè Paris 8 Saint Denis (1996), Pós-Doutorado em Sociologia na Universitè Paris X Nanterre (2009). É autor, entre outros títulos, dos livros “Direito Ordem e Desordem”, “Fundamentação ética e Hermenêutica: Alternativas para o Direito” e “Direito Alternativo e Contingência – História e Ciência”

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