SOCIÓLOGO EDMUNDO ARRUDA: A Copa do mundo de futebol é uma insurgência cultural, mesmo sob os contornos de negócios escusos. Ela deve ser respeitada e venerada como um momento de alegria ao meio de tanto sofrimento que perpassa amplos setores sociais, oprimidos, entristecidos por estarem nas margens do contrato social. Estar contra um evento que produz alegria aos que não a têm em demasia é um contrasenso. Racionalizar em desfavor do esporte mais popular do mundo é uma tarefa inócua.

Para o professor Edmundo Arruda, "mesmo que percamos a Copa, valerá a emoção a cada hino nacional. Uma esperança por si só é qualidade de vida, pois instiga a apostar no futuro em tempos sombrios de bolhas e impetuosidade do capital volátil., Ajuda a pensar algo de  melhor para cada um, e cada um faz um todo de alguma maneira modificado"

Para o professor Edmundo Arruda, “mesmo que percamos a Copa, valerá a emoção a cada hino nacional. Uma esperança por si só é qualidade de vida, pois instiga a apostar no futuro em tempos sombrios de bolhas e impetuosidade do capital volátil., Ajuda a pensar algo de melhor para cada um, e cada um faz um todo de alguma maneira modificado”

Copa do Mundo, política e vida

Edmundo Lima de Arruda Jr

Ando sopesando pontos de vista contrários, antes de expressar o meu, já consciente que a minha visão particular é influenciada por muitas coisas mas pode confluir com o pensamento de compatriotas meus.
A Copa do mundo é um evento popular, uma festa, uma exaltação ao esporte, um esporte coletivo, maravilhoso e apaixonante. Quem jogou futebol, mesmo sem brilhantismo, como eu e a maioria, não se esquece a camaradagem que aquele grupo, correndo atrás da bola, fomenta e vicia. O que dizer da emoção do gol marcado ou da jogada certa, muitas vezes com proveito daquele morrinho artilheiro. A adrenalina sempre alta, as batidas cardíacas beirando à exaustão. No fim da partida os efeitos da endorfina, o relax, as brincadeiras, os sonhos do próximo encontro. Tudo em socialização de experiências e vida em tempos de coisas simples e profundas.
Claro que como tudo numa sociedade de mercado capitalista, a Copa é perpassada por interesses corporativos. A FIFA levará mais de 16 milhões de reais para os bolsos da instituição e dos seus cartolas multinacionais. O governo da senhora Dilma, naturalmente, investindo nos esperados dividendos de uma vitória dos nossos canarinhos.
Corrupção, jogo político, tudo isso é humano e adquire, num momento espetacular que é a Copa, a dimensão internacional, cosmopolita. Mistura-se e identifica os homens tanto no amor ao esporte, ao que ele produz, como nos interesses que lhe permeiram aquele acontecimento internacional. O que o futebol tem a capacidade de provocar? Esperança, sentimento de pertinência a um agrupamento e aos signos que cada time, local,estadual, nacional, possuem, enriquecendo os mitos na complexa simbologia que acompanha aquela guerra, envolvendo muito mais que os vinte e dois homens na arena. Milhões vibram, torcem, sofrem, choram, pulam, gritam, abraçam os mais próximos, mesmo desconhecidos, etc. O futebol é sinônimo de emoção ao seu extremo, a paixão. Paixão é irracional, mas é gostosa.
Há os que com parcelas de razão acusam o governo de participar, com dinheiro público e com óbvios prejuízos para projetos sociais (mobilidade urbana, educação e saúde,etc), financiando negócio bilionário, com extraordinários ganhos particulares, a começar pela própria FIFA e outros setores a ela vinculados.
Grupos mais extremados tentam boicotar, sem sucesso, a realização da Copa, ou ao menos pegar carona no evento para expressar seus pleitos e insatisfações. Xingaram a presidenta no jogo de abertura. Denunciam o governo de responsabilidades no superfaturamento da construção e/ou reforma dos estádios e na infraestrutura do entorno. De fato, a Copa mais cara de todos os tempos, com uma abertura paupérrima em termos estéticos. Dizem que o custo superou os 36 bilhões de reais.
Não obstante as más tradições, as falcatruas de longa e nova lavra, a Copa é uma festa do povo e a ele pertence. Mesmo os que torcem contra ela, mais precisamente, contra a vitória do Brasil, sinceramente, mentem ou tentam enganar a si mesmos. No fundo acabam deixando a força provinciana, igual a minha, dirão muitos internacionalistas, sucumbir num nacionalismo que beira o xenofobismo em tempos do campeonato mundial. O Brasil passa a ser defendido enquanto pátria, um valor que foi se diluindo dentro de modelos de desenvolvimento dependentes, ainda… maltratando a cultura genuinamente nacional.
Assim sendo, talvez a Copa possa ser pensada criticamente antes e depois dela. No meio da mesma temos mesmo é que torcer, muito e muito. Temos que nos permitir uma licença ideológica e mandar para aquele lugar a política do status quo e a política de todos os juízes do mundo.
Agora que já fomos contaminados pelo primeiro toque de bola, exatamente quando aquele paraplégico, assistido pelos engenhos de Miguel Nicolelis, agiu, chutando a pelota. Aliás, Nicolelis é um gênio da neurociência, radicado nos EUA, que muito nos causa orgulho de sermos brasileiros, ajudou a salvar a abertura dos jogos, chamando a atenção para a força da pesquisa e da ciência para salvar vidas ou melhorar o padrão das mesmas aos infortunados.
As elites tradicionais não suportam as emergências estéticas advindas do folclore e do povo. O carnaval, ao suspender os interditos, o futebol nos fazendo anestesiar o racismo histórico presente na nossa genealogia cultural, e vibrar com aqueles garotos pobres na infância, agora ricos e em busca da glória. As vanguardas da velha esquerda comunista se dividem entre os que não aceitam as críticas à Copa por apadrinhamento do governo de Lula e Dilma, e os a esculhambam como ideologia, parte da estratégia hegemônica de mais uma vez alienar as massas.
Sem defender um utilitarismo sem sentido, verdade é que a maioria dos brasileiros é composta de uma ampla classe média e de uma imensa classe de trabalhadores subalternos que adoram futebol e veem na Copa (consciente ou inconscientemente), a emergência do nosso orgulho e de nossa nacionalidade esmagada em algum lugar na história de exclusões que os poderosos nos infligem. Nesse sentido a Copa do mundo de futebol é uma insurgência cultural, mesmo sob os contornos de negócios escusos. Ela deve ser respeitada e venerada como um momento de alegria ao meio de tanto sofrimento que perpassa amplos setores sociais, oprimidos, entristecidos por estarem nas margens do contrato social.
Estar contra um evento que produz alegria aos que não a têm em demasia é um contra senso. Racionalizar em desfavor do esporte mais popular do mundo é uma tarefa inócua. Não se destrói algo que é amado com uma intensidade incontrolável. Tampouco se pode boicotar uma festa presente em cada cantinho do país onde ela chega. No caso brasileiro, o contágio festivo atinge todo o território nacional, das grandes cidades às vilas, dos grandes clubes de praia aos botecos mais modestos.
O carnaval dura uma semana, a Copa três semanas. Uma felicidade geral é produzida. Mesmo que percamos a Copa, valerá a emoção a cada hino nacional. Uma esperança por si só é qualidade de vida, pois instiga a apostar no futuro em tempos sombrios de bolhas e impetuosidade do capital volátil., Ajuda a pensar algo de melhor para cada um, e cada um faz um todo de alguma maneira modificado. Lágrimas de alegria e tristeza se abrigam na bandeira nacional e a ideia de um Brasil grande, eleva a auto estima de muitos e de todos, em última instância, favorecendo a indivíduos e à novos laços de solidariedade. Sorte da Dilma se a Copa for ganha. Sorte do Brasil por ela acontecer no Brasil e ter nos aproximado do sonho do sexto título.

Viva a copa. VIVA!

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EDMUNDO ARRUDA, cuiabano, é professor titular da Universidade Federal de Santa Catarina e um dos fundadores do CESUSC – Complexo de Ensino Superior de Santa Catarina (CESUSC), é membro efetivo do Instituto dos Advogados Brasileiros.. Possui graduação em Direito pela Universidade de Brasília (1978), Mestrado em Direito pela UFSC (1981) e Doutorado em Sociologia – Université Catholique de Louvain (1991), Pós-Doutorado em Sociologia Política na Universitè Paris 8 Saint Denis (1996), Pós-Doutorado em Sociologia na Universitè Paris X Nanterre (2009). É autor, entre outros títulos, de “Direito Ordem e Desordem”, “Fundamentação ética e Hermenêutica: Alternativas para o Direito” e “Direito Alternativo e Contingência – História e Ciência”

Categorias:Mora na Filosofia

5 Comentários

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  1. - IP 177.64.231.180 - Responder

    TÁ MALUCO Ô… NINGUÉM TÁ SE INSURGINDO CONTRA O ESPORTE… TÁ SE FAZENDO DE BOBÃO… O QUE O POVO NÃO AGUENTA MAIS É ESSA ZONA QUE TÃO FAZENDO NO BRASIL.. NADA FOI FEITO DENTRO DO PRAZO… (OLHA QUE FORAM 07 ANOS DE ANTECEDÊNCIA), O GASTO FOI UM ABSURDO… A COPA MAIS CARA DE TODOS O TEMPOS… E TUDO MAL FEITO!! É SÓ VÊ AQUI EM CUIABÁ… ATÉ AGORA NÃO VI UMA OBRA QUE PUDESSE ELOGIAR…
    VAMOS FESTEJAR O ESPORTE….. EU QUERO TAMBÉM FESTEJA A SAÚDE. A SEGURANÇA, A POLÍTICA LIMPA,
    A EDUCAÇÃO, O DIREITO AO LAZER, UMA ALIMENTAÇÃO MAIS BARATA…. ETC .. ETC… E TUDO QUE PROMETERAM E NÃO CUMPRIRAM… VAMOS ÀS ELEÇÕES GENTE….. FORA PT… PT NUNCA MAIS

  2. - IP 177.7.74.184 - Responder

    ….verdade professor assim como os gladiadores eram aplaudidos em roma ” POLITICA DO PAO E CIRCO PROFESSOR NADA MAIS DO QUE ISSO.

  3. - IP 177.7.74.184 - Responder

    ….verdade professor assim como os gladiadores eram aplaudidos em roma ” POLITICA DO PAO E CIRCO PROFESSOR NADA MAIS DO QUE ISSO.
    ME UM MOTIVO SO PARA AQUELE FAVELADO SE ALEGRAR COM A COPA, E OLHA PROFESSOR QUE SAO MUITOS….COM TODO RESPEITO VINDO DE UM FORMADOR DE OPINIÃO, NÃO POSSO CONCORDAR COM TANTA FALÁCIA….

  4. - IP 201.57.233.221 - Responder

    SABE UMA VERDADE.:

    ESSES PETISTAS SÓ NÃO DIZEM QUE O POVO QUE FOI AOS ESTÁDIOS E VAIARAM A DILMA SÃO DA ELITE POR QUE SERIA O MESMO QUE DIZER QUE FUTEBOL É ESPORTE DA ELITE… AÍ FICAM INVENTANDO QUE A XINGAÇÃO PARTIU DA ÁREA VIP… O QUE EU VI FOI O ESTÁDIO INTEIRO … RSSSS.. OU O ESTÁDIO INTEIRO ERA SÓ ELITE… SABIA NÃO?? !! O FUTEBOL NO BRASIL É ESPORTE DA ELITE.. FALA SÉRIO .. ACHA QUE GENTE RICA VAI PARA ESTÁDIO?? NUNCA VI BACANA DE VERDADE INDO PARA ESTÁDIO.

  5. - IP 189.59.69.195 - Responder

    Interessante que os críticos do sociólogo sequer tem coragem de se identificar totalmente. “Freitas” e “Herniques” tem de monte por aí. Se são da elite ou do povo, se são corruptos ou éticos, vá se saber….

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