SESSÃO DE GALA: Cineclube Coxiponês, da UFMT, exibe nesta quinta (31), o filme “Hannah Arendt”, que retrata a vida e as idéias da filósofa alemã, de origem judia, perseguida pelo regime de Adolf Hitler, que construiu uma obra fundamental para a compreensão da política e da condição humana. No momento em que Israel comanda novo genocídio na Faixa de Gaza, uma oportunidade de reflexão sobre a violência sistemática que é exercida por pessoas banais dentro das estruturas burocráticas de poder nos mais diferentes períodos da História

 Hannah Arendt ( 14 de outubro de 1906 – 4 de dezembro de 1975) foi uma filósofa política alemã de origem judaica, uma das mais influentes do século XX. A privação de direitos e perseguição na Alemanha de pessoas de origem judaica a partir de 1933, assim como o seu breve encarceramento nesse mesmo ano, fizeram-na decidir emigrar. O regime nazista retirou a nacionalidade dela em 1937, o que lhe tornou apátrida até conseguir a nacionalidade estadunidense em 1951. Trabalhou, entre outras atividades, como jornalista e professora universitária e publicou obras importantes sobre filosofia política. Contudo, rechaçava ser classificada como "filósofa" e também se distanciava do termo "filosofia política"; preferia que suas publicações fossem classificadas dentro da "teoria política". Entretanto, ela continua sendo estudada como filósofa, em grande parte devido a suas discussões críticas de filósofos como Sócrates, Platão, Aristóteles, Immanuel Kant, Martin Heidegger e Karl Jaspers, além de representantes importantes da filosofia moderna como Maquiavel e Montesquieu. Justamente graças ao seu pensamento independente, a teoria do totalitarismo (Theorie der totalen Herrschaft), seus trabalhos sobre filosofia existencial e sua reivindicação da discussão política livre, Arendt tem um papel central nos debates contemporâneos. Nesta quinta (31), com a exibição do filme de Margarethe Von Trotta, Hannah Arendt reviverá com toda a força do seu pensamento, por alguns momentos, no Centro Cultural da UFMT


Hannah Arendt ( 14 de outubro de 1906 – 4 de dezembro de 1975) foi uma filósofa política alemã de origem judaica, uma das mais influentes do século XX. A privação de direitos e perseguição na Alemanha de pessoas de origem judaica a partir de 1933, assim como o seu breve encarceramento nesse mesmo ano, fizeram-na decidir emigrar. O regime nazista retirou a nacionalidade dela em 1937, o que lhe tornou apátrida até conseguir a nacionalidade estadunidense em 1951. Trabalhou, entre outras atividades, como jornalista e professora universitária e publicou obras importantes sobre filosofia política. Contudo, rechaçava ser classificada como “filósofa” e também se distanciava do termo “filosofia política”; preferia que suas publicações fossem classificadas dentro da “teoria política”. Entretanto, ela continua sendo estudada como filósofa, em grande parte devido a suas discussões críticas de filósofos como Sócrates, Platão, Aristóteles, Immanuel Kant, Martin Heidegger e Karl Jaspers, além de representantes importantes da filosofia moderna como Maquiavel e Montesquieu. Justamente graças ao seu pensamento independente, a teoria do totalitarismo (Theorie der totalen Herrschaft), seus trabalhos sobre filosofia existencial e sua reivindicação da discussão política livre, Arendt tem um papel central nos debates contemporâneos.
Nesta quinta (31), com a exibição do filme de Margarethe Von Trotta, Hannah Arendt reviverá com toda a força do seu pensamento, por alguns momentos, no Centro Cultural da UFMT


Nesta quinta-feira, 31 de julho, noite de sessão de gala no Cineclube Coxiponês, da UFMT. Na tela do Centro Cultural de nossa Federal, a partir das 19 horas, a vida e as idéias de uma das mais importantes pensadoras da modernidade, a alemã Hannah Arendt.

A direção do filme é da cineasta Margarethe Von Trotta e destaca-se no elenco a atriz Barbara Sukova, interpretando  Hannah, neste drama biográfico. A produção é de 2012, parceria entre a Alemanha e a França. Recorde que Von Trotta e Sukova estiveram juntas em filme sobre outra filósofa e outra alemã notável, Rosa Luxemburgo.

Na história, Hannah Arendt e seu marido são judeus alemães que chegaram aos Estados Unidos como refugiados de um campo de concentração nazista na França. Para ela a América dos anos 50 é um sonho, e se torna ainda mais interessante quando surge a oportunidade dela cobrir o julgamento do nazista Adolf Eichmann para a The New Yorker. 

Hannah Arendt viaja até Israel, e na volta escreve todas as suas impressões e o que aconteceu, e a revista separa tudo em 5 artigos. Só que aí começa o verdadeiro drama de Hannah: Ela mostra nos artigos que nem todos que praticaram os crimes de guerra eram monstros, e relata também o envolvimento de alguns judeus que ajudaram na matança dos seus iguais. 

O filme será exibido pela UFMT, infelizmente, sem alarde. A direção da faculdade não cuidou, por exemplo, de colocar faixas, na rotatória da Fernando Correa, alertando para a exibição deste filme de grande impacto cultural e social. Nota-se, na direção da UFMT, uma postura burocrática, de quem simplesmente cumpre tabela. Uma pena. Confira as análises de críticos sobre o filme. (EC)

hannah-arendt

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OPINIÃO

Filme ‘Hannah Arendt’ discute a ‘banalidade’ no nazismo

FRED KAPLAN
DO “NEW YORK TIMES”

Cinquenta anos atrás, o livro “Eichmann em Jerusalém – Um Relato sobre a Banalidade do Mal”, de uma professora de filosofia chamada Hannah Arendt, desencadeou uma tempestade. Entre a intelectualidade do Upper West Side, em Nova York, o livro provocou, nas palavras do crítico Irving Howe, “uma guerra civil”, suscitando discussões e azedando amizades de muitos anos.

Além disso, vendeu mais de 100 mil exemplares e transformou o modo como as pessoas enxergam o Holocausto.

“A controvérsia” –como era descrita a disputa crescente– hoje já está em grande medida esquecida. Mas um novo filme sobre o episódio, “Hannah Arendt”, que estreia na quarta-feira no Film Forum, retoma essas discussões.

Divulgação
Barbara Sukowa (à esq.), que vive a protagonista em cena do filme com Janet McTeer
Barbara Sukowa (à esq.), que vive a protagonista em cena do filme com Janet McTeer

Quando um amigo sugeriu que fizesse o filme, dez anos atrás, a diretora Margarethe von Trotta, veterana do Novo Cinema alemão, reagiu com ceticismo. “Pensei: ‘Como eu poderia fazer um filme sobre uma filósofa, uma pessoa que fica sentada, pensando?'”, recordou em entrevista telefônica dada em sua casa, em Paris.

Em vez de cobrir toda a vida de Arendt, decidiu concentrar-se no caso Eichmann. “Para um cineasta, é melhor ter um confronto, não apenas abstração”, disse Von Trotta.

Em maio de 1960, Adolf Eichmann –um dos últimos líderes nazistas do alto escalão ainda vivo, que tinha fugido para a Argentina após a guerra– foi sequestrado por agentes do Mossad, levado de avião a Jerusalém e julgado por crimes contra a humanidade.

Refugiada judia alemã e autora de um livro famoso, “Origens do Totalitarismo”, Hannah Arendt cobriu o julgamento para a revista “New Yorker” (seu livro foi publicado como artigo em cinco partes).

Ela apresentou dois argumentos provocantes. O primeiro foi que Eichmann não teria sido o maligno organizador dos campos de extermínio, mas sim um burocrata medíocre, “não um monstro”, mas “um palhaço”. Veio disso o subtítulo “a banalidade do mal”.

O segundo foi que os chamados “conselhos judaicos” na Alemanha e Polônia foram cúmplices no assassinato em massa. Eles ajudaram os nazistas a arrebanhar as vítimas, confiscar bens e os enviar para os campos onde morreriam.

Arendt foi repudiada. Alguns dos ataques contra ela foram exagerados. Mas algumas de suas visões também, entre elas o retrato que traçou de Eichmann. Para Arendt, Eichmann teria cometido seus atos sem ter consciência e sem mesmo ser antissemita virulento.

No entanto, em 1957, na Argentina, Eichmann concedeu uma longa entrevista ao ex-oficial da SS Willem Sassen, na qual gaba-se de ter ajudado a redigir a carta que ordenou a Solução Final. “Não fui apenas alguém que recebeu ordens. Se assim fosse, eu teria sido um imbecil. Eu era um idealista.”

Amos Elon, jornalista israelense que defendia Arendt, disse, na introdução à edição em capa mole do livro, que ela “tinha a tendência a tirar conclusões absolutas com base em evidências casuais”.

A evidência casual da banalidade de Eichmann foi o depoimento carregado de clichês. Ele declarou que tinha apenas feito seu trabalho e Arendt acreditou nele.

Margarethe von Trotta dirigiu filmes sobre mulheres fortes, mas diz que não se considera missionária. “Não faço filmes para transmitir mensagem. Faço filmes sobre pessoas de quem gosto ou que me interessam. Mas, se existe uma mensagem neste filme, é que você deve pensar por si mesmo, não seguir uma ideologia ou moda. Hannah chamava a isso ‘pensar sem corrimões’.”

Tradução de CLARA ALLAIN

FONTE FOLHA DE S. PAULO

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Filmes: “Hannah Arendt”

POR MARCELO COELHO

FOLHA DE S PAULO

Hannah Arendt”, de Margarethe von Trotta, é um bom filme para quem quiser se familiarizar com a grande polêmica filosófica e moral criada por “Eichmann em Jerusalém”. Acompanhamos a viagem de Hannah Arendt a Israel, onde o criminoso nazista foi julgado em 1961. O filme alterna cenas reais do julgamento –closes na figura rígida, mas não monstruosa, do acusado— com a encenação das reações do público, por vezes dividido entre o horror das lembranças da Shoah e a raiva diante de alguns líderes judeus que teriam “colaborado” com as autoridades nazistas.
É em torno desse problema que a atitude de Hannah Arendt causou ondas de indignação, mesmo entre alguns de seus melhores amigos, como Hans Jonas e Kurt Blumenfeld. A solidão teimosa da filósofa ganha muito vigor no ponto alto do filme, quando se encena uma palestra de Arendt num auditório abarrotado, respondendo com altivez, lógica e grandeza às críticas que seu livro suscitou.
Dito isso, o filme de Margarethe von Trotta está longe de ser vivo e convincente. Parece feito para televisão; todos os atores parecem estar usando roupas um modelo acima de seu corpo, muito normaizinhos e sem vida para o tipo de personalidades que estavam em confronto na história real. Saem-se melhor os atores puramente caricaturais, como a grã-fina dona do “New Yorker”, desde o começo um bocado refratária à ideia de contratar uma filósofa para cobrir o julgamento de Eichmann nas páginas da revista. Ou então o antipático Norman Podhoretz, um dos principais acusadores intelectuais no debate contra Arendt.
Em seu livro “Ex-Friends”, Podhoretz tem um texto admirável sobre seu desentendimento com Arendt. Narra sua visita ao apartamento da amiga, e o medo que tinha ao ver seu texto de críticas a “Eichmann em Jerusalém” anotado minuciosamente nas margens. Conforme a tarde avançava, a discussão ia se tornando mais dura, e nenhum dos dois se animou a acender a luz no apartamento. Na escuridão, os dois se despediram para sempre.
O debate sobre a suposta responsabilidade de líderes judeus na ajuda e na organização do Holocausto não pode ser mais difícil e doloroso. No discurso brilhante de Hannah Arendt, a plateia não reage ao que provavelmente é o ponto mais frágil de sua argumentação. “Havia um espaço”, diz ela entre baforadas de cigarro, “entre atos de resistência que seriam impossíveis no momento, e a atitude de ajudar os nazistas.” Havia? Como, quando, para quem, com quem? Seria preciso dar detalhes; e, mesmo assim, talvez exista algo de desumano em acusar tais pessoas, quando se estava a milhares de quilômetros dos fatos, em segurança, nos Estados Unidos. Se a acusação viesse de alguém que estava sob o domínio nazista naquele momento, e tivesse feito algo de diferente, seria bem mais difícil responder.
Esse e outros problemas –como o da “normalidade” psicológica do carrasco, que deu origem à expressão “banalidade do mal”—são de qualquer modo expostos com clareza no filme de von Trotta. Pena que o filme seja tão rotineiro; cria uma banalidade de Hannah Arendt, certamente inadequada à personagem que o inspirou.

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Hannah Arendt

Filósofa Márcia Tilburi, para a revista CULT

Hannah Arendt, filósofa que dá nome ao filme de Margarethe von Trotta, é autora de uma das obras filósoficas mais importantes do século 20. A diretora opta por retrarar a filósofa como uma pessoa comum, a professora envolvida com seu trabalho acadêmico, suas aulas e pesquisas. Fixa o enredo do filme no período em que Hannah Arendt escreveu seu polêmico Eichmann em Jerusalém. Tenta mostrar o que se passava com a filósofa, o cenário que a motivou a escrever o livro cujo conteúdo foi tomado por muitos como um escândalo. O motivo era a análise desmistificatória de Adolf Eichmann, o carrasco nazista capturado na Argentina e julgado em Jerusalém em 1962. Esperava–se desse homem que fosse um monstro, um ser maligno, um louco, cruel e perverso. A percepção de Arendt acerca do caráter desse personagem histórico, de sua postura comum que o fazia igual à tanta gente, causou mal estar.

Foi justamente a postura de Eichmann que permitiu a Arendt cunhar a ideia tão curiosa quanto crítica relativa à “banalidade do mal”. Por banalidade do mal, ela se referia ao mal praticado no cotidiano como um ato qualquer. Muitas pessoas interpretaram a visão de Arendt como uma afronta à desgraça judaica, enquanto ela – filósofa descomprometida com qualquer tipo de facção, religião, partido ou ideologia – tentava entender o que
realmente se passava com a subjetividade de um homem como Eichmann.

Arendt não tomava sua condição de judia como superior à sua posição como pensadora comprometida com a compreensão de seu tempo. A condição judaica era, para ela, condição humana. Não menos, não mais. O problema da subjetividade, das escolhas éticas que implicam liberdade e responsabilidade, era a questão central no momento em que se tratava de pensar e realizar a política.

A performatividade da tese

No filme, fica claro que aqueles que se manifestaram furiosos ou ofendidos contra a tese de Arendt de fato não a compreenderam. Isso porque a tese da banalidade do mal é uma tese difícil, não por sua lógica, mas por seu caráter performativo. Aquele que é confrontado com ela precisa fazer um exame de sua consciência particular em relação ao geral e, portanto, de seus atos enquanto participante da condição humana. A banalidade do mal significa que o mal não é praticado como atitude deliberadamente maligna.  O praticante do mal banal é o ser humano comum, aquele que ao receber ordens não se responsabiliza pelo que faz, não reflete, não pensa. Eichmann foi caracterizado por Arendt como uma pessoa tomada pelo “vazio do pensamento”, como um imbecil que não pensava, que repetia clichês e era incapaz de um exame de consciência. Heidegger, o filósofo nazista que diz ter se arrependido de aderir ao regime, era, no entanto, um gênio da filosofia e, contudo, não era diferente de Eichmann.

Aterrador, no entanto, é que entre Eichmann, o imbecil, e Heidegger, o gênio, esteja o ser humano comum. Eichmann não era diferente de qualquer pessoa, era um simples burocrata que recebia ordens e que punha em funcionamento a “máquina” do sistema, do mesmo modo que cada um de nós pode fazê-lo a cada momento em que, liberado da reflexão que une, em nossa capacidade de discernimento e julgamento, a teoria e a prática, seguimos as “tendências dominantes” como escravos livres, contudo, de si mesmos.  Sair da banalidade do mal é fazer a opção ética e responsável na contramão da tendência à destruição que convida constantemente cada um a aderir.

A banalidade do mal é, portanto, uma característica de uma cultura carente de pensamento crítico, em que qualquer um – seja judeu, cristão, alemão, brasileiro, mulher, homem, não importa – pode exercer a negação do outro e de si mesmo.

Em um país como o Brasil, em que a banalidade do mal realiza-se na corrupção autorizada, na homofobia, no consumismo e no assassinato de todos aqueles que não têm poder, seja Amarildo de Souza, seja Celso Rodrigues Guarani–Kaiowá, uma parada para pensar pode significar o bom começo de um crime a menos na sociedade e no Estado transformados em máquina mortífera.

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EM TEMPOS DE POVO NA RUA, “HANNAH ARENDT” É UM FILME FUNDAMENTAL.

Celso Sabadin, no blogue Planeta Tela


Bastante conceituada nos anos 80, principalmente pelos seus filmes “Os Anos de Chumbo” e “Rosa de Luxemburgo”, a diretora alemã Margarethe Von Trotta estava há bastante tempo ausente do circuito comercial brasileiro. Em seu país, ela tem alternado trabalhos em cinema e TV, com títulos que infelizmente não têm chegado por aqui.

Assim, é mais que bem-vinda a estreia no Brasil de “Hannah Arendt”, o mais recente longa de Margarethe. Que, como é de seu feitio, prova outra vez que não tem medo de meter a mão em vespeiro: “Hannah Arednt” trata da espinhosa e polêmica escritora e filósofa judia alemã que dá nome ao filme. Fugida do Nazismo na Segunda Guerra Mundial, Hannah (papel de Barbara Sukowa, que também viveu o papel título de “Rosa de Luxemburgo”) exila-se nos Estados Unidos onde passa a ter a liberdade suficiente para desenvolver seus textos e estudos filosóficos. Nos anos 50 – quando começa propriamente a ação do filme – já escritora e professora consagrada, Hannah recebe a notícia da prisão do criminoso de guerra Adolf Eichmann, que será julgado em Israel. Ela fica, então, fascinada com a possibilidade de assistir pessoalmente o julgamento, e se oferece como correspondente da revista “New Yorker” para empreender a viagem. Por que? “Por que nunca vi um nazista frente a frente”, diz ela. 

Os problemas começam quando Hannah, na contramão da opinião pública, passa a defender a ideia que Eichmann não é esse monstro que a mídia pinta, mas apenas um funcionário burocrata de Hitler, incapaz de pensar por si só, que não pode ser responsabilizado pelo Holocausto. E mais: acusa vários líderes judeus de terem colaborado com o Nazismo. Nem é preciso dizer que o mundo cai sobre a cabeça de Hannah. Como sempre acontece com as opiniões que ousam ir contra a corrente, a opinião pública prefere julgar e condenar com ódio e rigor a ouvir os prováveis outros lados da questão.

Para contar esta corajosa história de intolerância, a diretora optou por uma narrativa sóbria, quase documental, onde a forma cinematográfica fica em segundo plano, provavelmente para não ofuscar o que o tema tem de melhor: seu fortíssimo conteúdo. A utilização de cenas reais do julgamento é brilhante e forte. Estilisticamente, tudo é muito simples, com planos e contraplanos corriqueiros e enquadramentos televisivos. Mas aqui não é isto que importa. Importa sim levantar a coragem desta mulher que ousou formular uma fascinante “Teoria da Maldade”, através da qual as grandes atrocidades da história da Humanidade são cometidas não exatamente pela crueldade humana, mas por males ainda maiores, como a omissão e a incapacidade de pensar.

Em época de povo nas ruas, “Hannah Arendt” é um filme fundamental. 

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hannah arendt

HANNAH ARENDT

De: MARGARETHE VON TROTTA
Com: BARBARA SUKOWA, AXEL MILBERG, JANET McTEER

Por Luiz Fernando Gallego, no Críticos.com

Apesar do desempenho marcante de Barbara Sukowa, o filme sofre com roteiro problemático

Apesar do desempenho marcante da atriz Barbara Sukowa, o filme Hannah Arendt, dirigido por Margarethe Von Trotta, sofre com um roteiro problemático assinado pela cineasta e por Pam Katz. A partir do que vemos/ouvimos Martin Heidegger (com quem Arendt manteve relações profissionais e amorosas) dizer sobre o pensar ser uma atividade solitária, o filme cai no velho clichê de apresentar a personagem central como mais um “herói solitário” do cinema, e de feitio idealizado porque mantém suas convicções contra opiniões generalizadas avessas ao seu trabalho. No caso, os artigos que escreveu para a revista The New Yorker – e que eram, na verdade, um ensaio filosófico-político – sobre o julgamento do nazista Eichmann por um tribunal israelense no início dos anos 1960. Foi presenciando esse fato real (visto no filme em cenas documentais) que Arendt formulou a – hoje respeitada – tese sobre a banalidade do mal, negando ao nazista o status de “monstro”, afirmando que ele era uma pessoa “normal, um “ninguém”.

As reações foram tremendas: ela sofreu rejeição de amigos – e até mesmo Israel enviou emissários algo ameaçadores pretendendo que ela não publicasse o ensaio em livro – que foi intitulado Eichmann em Jersualém. O filme – que começa e termina com Hannah sozinha, fumando – e pensando, é claro – mostra com bastante ênfase o mal-entendido segundo o qual ela estaria como que absolvendo Eichmann ao compreendê-lo de um modo inédito e original, por mais que ela dissesse que compreender não é perdoar. Mas também a vemos muito questionada por, supostamente, “acusar” as vítimas por haver tocado no papel de lideranças judaicas as quais teriam, de certa forma, propiciado a extensão do Holocausto por tentativas de negociação com os nazistas. Este segundo ataque ainda é mais enfatizado pelo filme sem que o espectador seja informado mais claramente (a não ser por uma breve cena – real – do julgamento) a que Hannah se referiu mais exatamente para causar tanta revolta entre os judeus.

De certa forma, o filme propicia que o espectador saia do cinema mais a par do que foram as críticas que ela recebeu do que mais esclarecido sobre sua “defesa” – que ela teria acabado por aceitar fazer publicamente, o que é visto em uma cena (com intenção de ser um “clímax”) próxima do final, mas ainda assim, seguida por outra forte desaprovação de um amigo da filósofa. Não se trata de cobrar do filme que seja um documentário sobre o pensamento de Arendt, mas como ficcionalização de episódios de fato acontecidos, encontramos opções questionáveis.

Há bastante apoio afetuoso de uns poucos: de seu marido, Heinrich Blücher (mesmo discordante de vários pontos quanto ao que Hannah pensava) e de uma amiga fiel, chamada apenas de ‘Mary’ durante todo o filme, ficando de fora que esta é a escritora Mary McCarthy, cujo romance mais famoso, O Grupo, foi levado às telas em 1966 por Sidney Lumet; mas só vamos saber quem ela é se ficarmos para os créditos finais do elenco. Já o autor de um texto que se pretendia arrasador contra os artigos de Arendt é nomeado apenas de ‘Norman’ (seria Norman Mailer?) até na lista do cast.

Algumas ideias atribuídas à pensadora podem impressionar, tal como na cena em que ela faz sua única autocrítica ao corrigir que “o mal não é profundo e radical: o que é profundo e radical é o bem; o mal é apenas extremo”. Mas pode ser de difícil assimilação o que ela afirma quanto a um “equívoco” da tradição ocidental pensar o egoísmo como raiz do mal. O filme poderá ter o mérito de provocar curiosidade para conhecermos os escritos de Hannah Arendt – e até, seguindo a independência de pensamento que ela exemplifica, contestá-la. [Aliás, no debate que se seguiu à exibição do filme no Estação Rio em 25/06, houve um certo impasse quando foi questionada a segunda afirmação acima sobre o egoísmo: como o autocentramento narcisista que desconsidera a alteridade e que impede a identificação e empatia para com o outro – que deixa de ser visto como um semelhante – não seria mais fundamental do que Arendt afirma sobre a incapacidade de um Eichmann pensar?]

Com tantas críticas de seus adversários intelectuais sobre suas atitudes, taxada de “arrogante”, “europeia” (leia-se ‘germânica’), de “olhar os judeus de cima para baixo”, etc, o filme pode até fazer com que se considere muito os ataques; o que diverge do tom geral que parece pretender mostrar a personagem como uma heroína injustiçada por pessoas que não estavam à altura de seu brilho intelectual. Ou seja, Margarethe Von Trotta repete uma (involuntária?) ambiguidade que já havíamos detectado em outro filme seu, As Mulheres da Rosenstrasse, de 2003.

A ênfase da escritora (tal como mostrada no filme) sobre a incapacidade de Eichmann pensar (pensamento como capacidade de fazer juízo entre o certo e o errado) também nos soou secundária quando vemos as atitudes do Eichmann real nas cenas documentais: friamente, com absoluta indiferença, ele diz não ter nada a ver com as mortes que, por exemplo, ocorriam já nos vagões que transportavam os judeus para os campos, pois ele “apenas” os colocava nos trem, era esta sua atividade (o famoso “apenas cumprir ordens”) acrescentando: “Eu nunca matei nenhum judeu”. O que se vê é um psicopata frio e indiferente às pessoas: só lhe interessavam os arquivos, a burocracia, os números. As pessoas não passam de detalhes que se tornaram incômodos e ele se mostra amplamente indiferente aos outros, sem nenhuma identificação com os que morreriam – e muito menos consegue desenvolver empatia para com esses “estrangeiros”: os “diferentes” porque judeus, ciganos, comunistas, homossexuais, eslavos, etc. Sua identificação era apenas com o ideário autocentrado de uma ‘raça pura ariana’, e ele se vê como parte desse todo autocentrado e imune à piedade pelos “diferentes”, os que eram vistos como “de fora” em relação a essa “raça superior”.

Arendt teve toda a razão em perceber que psicopatas não são “monstros”, mas humanos (como todos nós), só que eles se consideram acima de nós: arrogância ou desmesura – a pior falha humana para os gregos antigos. Mas a dramaturgia dos flashbacks que mostram (de leve, como que para não deixar de mencionar) a relação dela com Heidegger podem até dar força à crítica que ela recebe no final: se ela fosse de fato “uma filósofa de formação europeia, alemã, que nunca conseguiu perder essa identidade e que olha os judeus de cima”, tal descrição pode ser entendida como se ela estivesse aprisionada a uma identificação com Heidegger (que se filiara ao Partido Nazista já em 1933).

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Euler de França Belém, no jornal Opção, de Goiânia
Hannah Arendt: a filósofa judia que provocou a ira dos judeus ao apresentar o nazista Eichmann como “banal”
Os críticos de Hannah Arendt admitem que Adolf Eichmann não era genial, mas lia e citava Kant e era um organizador eficiente. As críticas da pensadora à “colaboração” dos conselhos judaicos têm sido relativizadas
Hannah Arendt: a filósofa judia alemã que mudou a história do julgamento do nazista Adolf Eichmann ao criar o conceito de “banalidade do mal”. Seus críticos jogaram pesado, até com ataques rasteiros, mas ela resistiu bem

O filme “Hannah Arendt”, da diretora alemã Margarethe von Trotta, apresenta ao distinto público a filósofa judia alemã Hannah Arendt. Mulher de uma inteligência extraordinária, dada a insights tão finos quanto os produzidos pela melhor publicidade, às vezes é apresentada mais como ensaísta do que como pensadora, não raro é sugerida como vulgarizadora das ideias alheias. Ela é mais conhecida pelo debate, quase irracional, provocado pelo livro “Eichmann em Jerusalém — Um Relato Sobre a Banalidade do Mal” (Companhia das Letras, 344 páginas, tradução de José Rubens Siqueira) do que por suas obras mais consistentes. Ao contrário do que ela própria sugeriu, não se trata de uma reportagem, pois há um grau de elaboração e reflexão que escapa mesmo ao jornalismo mais refinado. Talvez seja mais apropriado chamá-lo de um longo e brilhante ensaio — publicado na revista “New Yorker” e, revisado, como livro. Apesar das falhas, apontadas por vários estudiosos, inclusive por alguns de seus aliados, o livro ampliou o nível do debate, indo além do julgamento do tenente coronel da SS Adolf Eichmann. Com suas sacadas, retirou o julgamento e os ho­mens comuns do nazismo do ra­merrão e sofisticou a discussão, pela qual seus adversários intelectuais deveriam agradecê-la.

Eichmann era o nazista encarregado do transporte de judeus, ciganos e outros grupos para os campos de concentração e extermínio. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, escapou para a Argentina, com o apoio de religiosos da Igreja Católica. O governo de Israel, por intermédio do Mossad, descobriu o nazista em Buenos Aires, sequestrou-o e levou-o para julgá-lo em Jerusalém (o nazista foi enforcado na prisão de Ramlet em 31 de maio de 1962). Hannah Arendt convenceu o editor da “New Yorker”, William Shawn, a enviá-la como correspondente. Lá, acompanhou parte do julgamento, ao lado de cerca de 600 jornalistas de todo o mundo. Depois, examinou toda a papelada do julgamento, publicou o que chamava de “reportagem” e, em seguida, o livro que provocou um debate acirrado, eventualmente de baixo nível, não de sua parte.

Filósofa aguda, atenta ao que diziam — tanto que o conceito de banalidade do mal não é seu, e sim de seu marido, Heinrich Blücher —, Hannah Arendt não apreciava defensores que percebiam seu pensamento como religião. “A verdade inteira é que eu mesma não conhecia as respostas quando escrevi o livro”, admitiu. Ela recebeu mal a maioria das críticas, sobretudo as feitas por amigos que respeitava, mas leu-as atentamente e refutou algumas.

No livro “O Século XX Es­quecido — Lugares e Memórias” (Edições 70, 462 páginas, tradução de Marcelo Felix), Tony Judt publica o ensaio-resenha “Hannah Arendt e o Mal”. O historiador inglês nota que o filósofo Karl Jaspers, amigo e defensor da filósofa, já havia notado um “problema” no seu pensamento. A autora de “As Origens do To­talitarismo” sugeriu que o mal era “algo totalmente radical”. “Mas Karl Jaspers e outros haviam notado o risco aí implicado de fazer com que o nazismo, em particular, parecesse de certa forma único e, assim, de uma forma terrível, ‘grande’”, escreve Tony Judt. Depois, Hannah Arendt refinou a ideia e frisou que “o mal provém simplesmente de não pensar” (a frase entre aspas é do estudioso britânico, sintetizando o pensamento da alemã). “Se isto implica que o mal é uma função da estupidez, então Arendt está apenas a satisfazer uma tautologia que inventou.” A escritora Mary McCarthy, outra grande amiga da pensadora, escreveu, numa carta de 1971, que, se Eichmann “‘não pode’ mesmo ‘pensar’, então é apenas um monstro. Mas se tem um ‘coração maldoso’, então está a exercer alguma liberdade de escolha, logo é passível de condenação moral segundo o hábito. Aqui, como outros pontos, faremos bem em não tomar Arendt como uma pensadora de excessiva coerência”, anota Tony Judt.

Como devem ser vistos os assassinos nazistas, diretos ou indiretos (como Eichmann)? Tony Judt diz que Hannah Arendt percebe aqueles que matavam e enterravam os judeus como uma espécie de trabalhadores administrativos e, portanto, cumpridores da lei de um Estado — “eram apenas assalariados comuns e bons chefes de família. Os seus atos podem ser monstruosos, provas da ‘falência do senso comum’, segundo Arendt, mas os oficiais em si são muito simplesmente pessoas estúpidas, vulgares, do dia a dia — em suma, banais. Há algo de frustrante e terrivelmente plausível nesta observação”.

Na biografia “Hannah Arendt — Por Amor ao Mundo” (Relume Dumará, 492 páginas, tradução de Antônio Trânsito), Elizabeth Young-Bruehl diz que a filósofa “sabia que o centro de seu questionamento era o subtítulo do livro: ‘A Banalidade do Mal’. Eichmann ‘em carne e osso’ ensinara-lhe que havia superestimado ‘o impacto da ideologia sobre o indivíduo’. E concluiu que para Eich­mann ‘o extermínio per se [era] mais importante que o antissemitismo ou o racismo’. Notando que o conteúdo e a lógica mortal do nazismo eram menos importantes para esse homem do que o movimento no qual ele encontra um lar, Arendt rejeitou o conceito que havia usado em ‘As Origens do Totalitarismo’ para a natureza incompreensível dos nazistas — ‘mal radical’”. Por isso, frisou que “o mal nunca é ‘radical’, é apenas extremo e não possui profundidade nem qualquer dimensão demoníaca. (…) Apenas o bem tem profundidade e pode ser radical”.

Para Hannah Arendt, quando os motivos tornam-se supérfluos, o mal é banal. Karl Jaspers enfatizou: “O mal deste homem [Eichmann] é banal, não o mal é banal”.

A contribuição dos próprios judeus, com seus conselhos judaicos, os Judenräte, para a morte de judeus, ao elaborar listas (encomendadas pelos nazistas) de pessoas que deveriam ser enviadas para os campos de concentração era um tema discutido antes do livro de Hannah Arendt, mas a filósofa radicalizou o debate. Tony Judt a critica, mas também ressalta a importância de seus argumentos: “Arendt pouco sabia do assunto e algumas das suas observações sobre a ‘responsabilidade’ judaica foram insensíveis e excessivas, mas paira um ponto de interrogação moral perturbante sobre os judeus eminentes incumbidos da tarefa de administrar os guetos. Ela não fez mal em levantar a questão, nem se enganou em alguns de seus juízos; mas ela foi indiferente, de forma talvez dura, aos dilemas que os judeus então enfrentavam, e tipicamente provocadora, até ‘perversa’ (como diz o historiador Henry Feingold), ao insistir nos poderes dos seus líderes, esquecendo-se de chamar a atenção para o seu total desamparo e, em muitos casos, o verdadeiro desconhecimento do destino que aguardava os judeus”. A noção de “banalidade do mal”, na avaliação de Tony Judt, deixa a impressão de que os próprios judeus foram “responsáveis” pelo Shoah e “os alemães” foram “meramente ‘banais’”. Elizabeth Young-Bruehl, num livro amplamente favorável a Hannag Arendt, também admite que ela tinha poucas informações sobre determinados assuntos: “Deve ser dito que o conhecimento de Arendt sobre as condições nos guetos da Europa Oriental — e, assim, sua capacidade de sugerir quando uma linha seria ultrapassada — nem sempre era extensa o suficiente para apoiar suas generalizações”. Portanto, o que ela disse sobre a colaboração dos líderes dos judeus não dá “uma imagem precisa, seja da atividade dos Judenräte, seja da resistência judaica”. A filósofa escreveu: “Onde quer que vivessem judeus havia líderes judaicos reconhecidos e essa liderança, quase em exceção, cooperou de uma maneira ou de outra, por uma razão ou outra, com os nazistas”. Siegfried Moses, porta-voz do Conselho de Judeus da Alemanha, disse que a filósofa apresenta uma “informação”, mas não as “provas” do que afirma com convicção.

O rabino Leo Baeck, líder dos judeus de Berlim, foi criticado por Hannah Arendt, que, porém, o respeitava. A filósofa, segundo Eli­zabeth Young-Bruehl, “ignorava a sua recusa corajosa a abandonar seu povo quando teve, por várias vezes, oportunidade de escapar”. Ela chegou a chamá-lo de “Führer judeu”. Depois, percebendo a injustiça, retirou isto do livro. Adolf Leschnitzer defendeu Baeck por silenciar-se sobre Auschwitz. “Após notar que Baeck havia pensado que ‘a morte não era para todos’, Leschnitzer argumentou que Baeck colocava-se como um médico que decide não informar a um paciente a verdadeira natureza de sua doença.” Paul Tillich apresentou outra argumentação: “Ninguém pode julgar plenamente os acontecimentos nos campos de concentração. Mas, de certa forma, eu criticaria Baeck por não dar o mínimo de informação que possuía. Se sabia que Auschwitz significava morte certa, ele deveria ter declarado. A verdade existencial plena deve estar sempre disponível, exatamente como o paciente incurável deveria sempre saber toda a verdade”. O historiador Saul Friedländer, um dos maiores estudiosos do Holocausto, não endossa a crítica de Hannah Arendt: “Objetivamente, o Judenrät foi provavelmente um instrumento de destruição dos judeus na Europa, entretanto, subjetivamente, os atores não tiveram consciência dessa função, e mesmo que tivessem tido consciência, alguns dentre eles — talvez a maior parte — tentaram fazer o melhor de si no âmbito de suas possibilidades estratégicas extremamente limitadas a fim de retardar a destruição”.

Na resenha “A perversidade do brilho”, publicada na “Com­men­tary”, Norman Podhoretz escreveu: “No lugar do nazista monstruoso, ela [Hannah Arendt] nos dá o nazista ‘banal’; no lugar do judeu como mártir virtuoso, ela nos dá o judeu como um cúmplice do mal; e no lugar do confronto entre culpa e inocência, ela nos dá a ‘colaboração’ entre criminoso e vítima”. A vítima, no caso o judeu, não tinha escolha. Quando resistia, era assassinado. Raul Hilberg, que permanece como o maior historiador do Holocausto e autor do clássico “A Destruição dos Judeus Europeus” (o Brasil publica livros menores, mas não a “bíblia” sobre o assunto), antecipou Hannah A­rendt, aliás influenciou-a: “Os judeus europeus haviam-se recusado a encarar a realidade de sua destruição iminente” e, por isso, “não haviam respondido ativamente como poderiam ter feito”. (Detalhe curioso: a filósofa, consultada por uma editora, havia vetado a publicação do livro do historiador.)

Foto: Jornal Opção
Duas esplêndidas biografias de Hannah Arendt, escritas por Elizabeth Young-Bruehl e Laure Adler, e um livro que contém um poderoso ensaio de Tony Judt. A filósofa não tratava os judeus com comiseração e vitimismo

Na biografia “Nos Passos de Hannah Arendt” (Record, 643 páginas, tradução de Tatiana Salem Levy e Marcelo Jacques), Laure Adler segue a interpretação de Tony Judt: o orgulho da filósofa “a impedirá de fazer uma retratação pública em relação aos pontos contestáveis” de seu livro, “como o da responsabilidade dos conselhos judaicos”. Mas, ao contrário do que assinalam alguns de seus críticos, Hannah Arendt não minimizou o Holocausto, defende Laure Adler. A biógrafa conta que, ao traduzir o livro para o francês, em 2002, Martine Leibovici trocou a palavra “colaboração” dos conselhos judaicos por “cooperação”. A pesquisadora contesta outra ideia frequente dos críticos judeus da filósofa: “É falso dizer que Hannah Arendt focalizou o processo na colaboração dos judeus para seu próprio extermínio e em sua pretensa passividade. Foi exatamente o contrário. Ela censura o procurador [Gideon] Hausner por tê-lo feito”.

Entretanto, ao fazer a defesa da autora de “Eichmann em Jeru­salém”, Laure Adler apresenta uma ressalva: o julgamento de Eichmann foi “uma câmara de eco, pela primeira vez, para os relatos das vítimas, uma lição de história, um deslocamento na percepção do que quer dizer ser judeu, um reconhecimento, enfim, da dignidade de ter sido judeu, e, portanto, a ser exterminado porque judeu segundo os nazistas. Hannah não se deu conta disso”.

Eichmann era um “idiota”, um “mero funcionário”, um homem “sem consciência”, o trabalhador que, respeitando as leis de seu país (na verdade, era austríaco), mandava os judeus para a morte certa, mas não tinha responsabilidade por aquilo que era determinado pelo Estado? No livro “Nos Passos de Hannah Arendt”, Laure Adler apresenta nuances. “Para [o historiador] Léon Poliakov, Eichmann aparece como um homem de inteligência muito acima da média, mas que carece singularmente de envergadura e de brilho”, escreve Laure Adler.

Ao depor, Eichmann disse: “Minha culpa é grande, sei disso. Mas nada tenho a ver com o assassinato dos judeus. Nunca matei um judeu e nunca matei um não-judeu; nunca matei ninguém. Nunca dei ordem para que assassinassem um judeu. Talvez seja isso que me proporciona uma paz interior. Sou culpado, sei disso, porque cooperei com as deportações. Sei disso e estou pronto para expiá-lo”. “Heinrich Himmler — Uma Biografia” (Objetiva, 864 páginas, tradução de Angelika Elisabeth Kohnke, Christine Rohrig, Ga­brielle Ella Elizabeth Lipkau e Margit Sandra Bugs), do historiador alemão Peter Longerich, livro mais recente e portanto atualizado, mostra um Eichmann extremamente afinado com Himmler e Reinhard Heydrich, os principais operadores da máquina de matar gente criada pelo governo de Adolf Hitler. A obra o apresenta como um organizador acima da média e extremamente afinado com a ideia de solução final para destruir os judeus. Ele era medíocre? Sim, mas talvez menos do que imaginava Hannah Arendt. De­certo faltava-lhe mais imaginação do que inteligência.

Ao notar que Eichmann era um funcionário da máquina assassina, um homem comum e não necessariamente monstruoso, Hannah Arendt o estaria eximindo de responsabilidade? Ao contrário dos críticos mais radicais da filósofa, Laure Adler avalia que não: “Hannah não contesta de modo algum a responsabilidade de Eichmann, mas explica sua falta de consciência de culpa pelo mecanismo do nazismo que havia posto o comando do Führer no centro absoluto de toda a ordem jurídica. Eichmann era, portanto, um cidadão obediente à lei durante Hitler, e o que ele fez só constitui um crime aos seus olhos retrospectivamente. Eichmann, relata ela, não queria ser um daqueles que fingiam que ‘tinham sempre sido contra’”. Laure Adler diz que “um carrasco que cita Kant não é um carrasco como os outros”. Portanto, “Eich­mann é responsável”. “Hannah Arendt repete que ele sempre fez o máximo que pôde para tornar definitiva a Solução Final. Mas seu caso não é único. Como tantos alemães, ele obedeceu à lei que os transformou todos em criminosos.”

Segundo Laure Adler, para Hannah Arendt, “o verdadeiro desafio do processo deveria ter sido este: como julgar um indivíduo normal, uma pessoa média, que cometeu todos esses crimes [contribuindo para o assassinato de milhões de judeus, ciganos, homossexuais], mas que não tem consciência da natureza criminosa de seus atos? Todo mundo, nesse processo, ignorou esse assunto, talvez o único que realmente importava. Pois Eichmann era ‘normal’ na medida em que era apenas um no meio de milhares de outros”.

Por que, mesmo sabendo que entraria num vespeiro, Hannah Arendt decidiu enfrentar o establishment judaico, sobretudo o americano (forte na imprensa) e o israelense? “Os fatos, não importa se aterrorizantes, devem ser preservados não ‘para que não os esqueçamos’, mas de modo que possamos julgar. (…) Se você diz a si mesmo ‘quem sou eu para julgar?’”, em assuntos como o totalitarismo nazista e o Shoah, “você está perdido”, disse, com propriedade, a filósofa.

Elizabeth Young-Bruehl nota que Eichmann era, para a pensadora alemã, “simplesmente incapaz de pensar”. Ela o avaliou como “incapaz de separar o certo do errado”. “A consciência do homem ‘cessara de funcionar’.” Ela insistia que “o crime de Eichmann, em sua enormidade, foi antes contra a humanidade e a consciência da humanidade, e não apenas contra os judeus”.

Vários críticos atacaram Hannah Arendt de maneira extremamente agressiva. Entre seus críticos mais contundentes estão Jacob Robinson — apontou “o mal da banalidade” no livro da filósofa —, Lionel Abel (Eichmann “se sai muito melhor no livro de Arendt do que as suas vítimas”), Walter Laqueur (“o dano causado pelas meias-verdades de ‘Eichmann em Jerusalém’ é incalculável), Barbara Tuchman (que acusou Hannah Arendt de ter “um desejo inconsciente de apoiar a defesa de Eichmann”), Daniel Bell, Irving Howe e Hans Jonas. As críticas de Gershom Scholem — tão leitor de Walter Benjamin quanto a filósofa — incomodaram profundamente Hannah Arendt. Eles eram amigos. O que Scholem “critica”, aponta Laure Adler, “além do tom [sarcástico e malevolente], é a leviandade da demonstração, que não o convence e que descamba para o exagero, para a tese mais do que para a explicação. O que ele não pode suportar, mais profundamente, é a pretensão dela de querer julgar. Quem somos nós, afinal, para poder julgar. Onde estávamos naquele momento?”

Depois da crítica de Scholem, Hannah Arendt, segundo Laure Adler, “começa a reconhecer certas fraquezas em seu texto, especialmente em relação ao que chamou de banalidade do mal. (…) A Gershom Scholem, ela confessa que se enganou. Não falará mais de mal radical”. E desiste do jornalismo.

Tony Judt diz que a filósofa “teve bastantes enganos menores, que os seus muitos críticos jamais lhe perdoarão. Mas tinha razão nas coisas importantes, e merece ser recordada por isso”. Um de seus acertos foi destoar do coro dos contentes e transformar a questão judaica e o nazismo em “problema” não resolvido. Ela “abriu” o debate. Intelectuais judeus, no afã de provar que estava “errada”, o “fecharam” e, devido a certa virulência, certamente intimidaram outras vozes.

Hannah Arendt gostava de uma citação de Cícero: “Prefiro diante do céu perder-me com Platão do que manter visões verdadeiras com seus oponentes”. Ela não seguia a maioria. Seguia sua própria voz, aquilo que avaliava como “verdade”.

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