SEBASTIÃO CARLOS: Tudo é transitório, passageiro, fugaz, efêmero. Desde há milhares de anos, os sábios de todos os tempos nos admoestam para a transitoriedade das coisas da vida.Na política, claro, a efemeridade do poder não é, nem de longe, diferente. A transitoriedade da fama, da fortuna, do poder é tão evidente como o nascer e o por do sol. Os que vivem da política, porém, só entendem essa finitude quando perdem o poder de que dispunham. Aí caem na real, para só então perceberem que a vitoria tem muitos pais, enquanto que com a derrota nem os cães querem conviver.

Sebastião Carlos, historiador

Sebastião Carlos, historiador

Sic transit

por Sebastião Carlos
Desde há milhares de anos, os sábios de todos os tempos nos admoestam para a transitoriedade das coisas da vida. Se a vida mesma é efêmera, imaginem-se então as coisas que a emolduram. A sentença herdada dos latinos fora o “Sic transit gloria mundi” que em bom português ficou, “assim passa gloria do mundo” ou, em sentido literal, “a glória mundana passa desta forma”, isto é, muito rapidamente. Embora sendo muito antigo, o brocardo chega aos contemporâneos através do clássico religioso ‘A Imitação de Cristo’, escrito em torno de 1418 pelo monge Tomás de Kempis. Ele alertou: “oh, como passa depressa a glória mundana”. Assim, o homem sábio a ela não se deve apegar. Desde a Idade Média até meados do século XX a frase era utilizada no ritual de sagração dos Papas. Para lembrar ao futuro chefe da Igreja de que deveria se manter humilde e longe da sedução das coisas terrenas, o cardeal que dirigia a cerimônia ficava de joelhos diante dele e, queimando incenso, em voz alta repetia três vezes seguidas: “Santo Padre, assim passa a glória mundana!” Recordo-me agora de algumas lições passadas pelos salesianos.

Embora vetusto, não se quer, porém, dizer que este seja um ensinamento incorporado pelos homens. Em tempos da sociedade do espetáculo, na qual aparecer a qualquer custo e em que se mostrar ou demonstrar ostensivamente fatias do poder econômico ou político tornou-se objetivo quase patológico, quantos haverão de se preocupar com o ensinamento contido em tais velharias, não é mesmo? No entanto, basta ter olhos de ver para que se constate o quão transitória e fugaz têm sido as glórias mundanas.

Todo este introito para dizer que esta semana assistimos a um momento emblemático da transitoriedade da glória e da fortuna. Os telejornais repetidas vezes mostraram o operário fazendo a retirada do nome de José Maria Marin, que denominava o prédio da CBF, no Rio de Janeiro. Como se estivesse fazendo parte de um espetáculo adredemente preparado tirava lentamente cada uma daquelas letras feitas em aço escovado até agora afixadas no frontispício. Vez ou outra, como se estivesse num palco a representar, com um ar triunfante olhava para baixo, aonde já se aglomeravam transeuntes. Fazia uma breve pausa, como se estivesse para bater um pênalti, e então retornava à cuidadosa operação. Que simbolismo contido nestes gestos, nesta tão simples e aparentemente corriqueira ação. No entanto, pelas circunstancias, isto me pareceu exemplo eloquente a demonstrar de quanto o mais alto cargo está tão próximo do chão. Ainda ontem era ele o todo poderoso do futebol brasileiro. Agora está preso na Suíça. E os que o antecederam, e o que o sucedeu, devem estar com as barbas de molhos. Todos ricos e poderosos até agora. Onde estão aqueles que até agora a pouco o incensavam? Cadê aqueles que aprovaram essa homenagem? O mesmo já está acontecendo com Joseph Blatter, que acaba de renunciar à presidência da FIFA. Eis a glória transitória.

Os exemplos, no entanto, abundam em todos os campos da vida. Até há dois anos considerado o homem mais rico do Brasil, estando entre os dez do mundo, quem ainda dá alguma pelota, a não ser os credores, para Eike Batista? E que espetáculo surpreendente vem sendo o da prisão de alguns dos homens mais ricos e politicamente poderosos do país arrastados pelo furacão da Operação Lava Jato. E idênticos a eles, quantos outros nos últimos vinte anos.

Na política, claro, a efemeridade do poder não é, nem de longe, diferente. Assim tem sido ao longo da história. Aqui mesmo em Mato Grosso, quantos e quantos nos últimos quarenta anos não vimos se tornarem poderosos e concomitantemente arrogantes? Para, passados menos de uma década e meia, se perderem nos escaninhos da mais longínqua memória popular. Só muito raramente é que foram lembrados pelo Poder Judiciário, que agora começa a dar-lhes uma atenção mais próxima e especial. Daí os modos mais comedidos que alguns passam a ter. Será? Alvíssaras. Aliás, uma das características mais marcantes, e não tão rara, daqueles que tão logo chegam ao poder, quase que concomitantemente passam a ostentar indisfarçável arrogância, a irmã gêmea da orgulhosa pretensão que exibe sempre ar de “senhor sabe-tudo”. E, a partir do uso dessa vestimenta, passam a agir com algo de desprezo por aqueles que deles dependem ou que com eles, de alguma forma, deixam de concordar. Quantos os que, já despojados da pompa de outrora, por hábito ainda continuaram com o viés autoritário, embora o mais dramático sempre seja o daqueles que, tendo deixado o poder ou perdido a fortuna, quiseram voltar ao que eram antes e o mundo não mais neles acreditam.

A transitoriedade da fama, da fortuna, do poder é tão evidente como o nascer e o por do sol. Os que vivem da política, porém, só entendem essa finitude quando perdem o poder de que dispunham. Aí caem na real, para só então perceberem que a vitoria tem muitos pais, enquanto que com a derrota nem os cães querem conviver.
Mas, atenção, caro leitor, tal situação não é apenas peculiar aos políticos ou aos homens de negócios. Ela, muito ao contrário, por ser da essência mesma do ser humano, alcança também aqueles outros que galgaram determinadas funções públicas, e que muitas vezes esquecem que tudo é transitório, passageiro, fugaz, efêmero. Olhe ao derredor e vais entender o que quero dizer. Que bom tivéssemos, como instituição publica permanente, um mestre de cerimônia como tinham os papas, a lembrar-nos a todos a impermanência da gloria e do poder. Sim, sic transit gloria mundi.

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Sebastião Carlos Gomes de Carvalho é advogado e historiador em Cuiabá, Mato Grosso.

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