SEBASTIÃO CARLOS: Só falar que o governo não presta não é o bastante. Isto é óbvio. O governo não é só a presidente. Focar todas as críticas só na presidente Dilma não é uma questão de injustiça, é burrice

dilma presidente na pagina do EDOMINGO, 16 E O ESPECTRO DA CRISE

Sebastião Carlos

A palavra da vez é crise. Nos jornais, na TV, nas conversas, é o que se ouve. Vivemos uma crise, certamente. Mas que espécie de crise? Qual a sua dimensão? Onde a sua origem? Quem são os seus pais? Enfim, como analisar a crise atual do Brasil?

Compreende-la é fundamental para enfrentá-la e decifrá-la Mas, de igual modo, são tão vários os seus prismas que talvez existam n interpretações para o mesmo fenômeno, e assim é que existirão as mais variadas formas de ver essa crise.

Em principio, e a história assim tem mostrado, apesar das agruras no momento de seu epicentro, uma crise pode resultar numa situação salutar. Sair bem dela dependerá muito de como encará-la e de como dela extrair os ensinamentos necessários. Daí que são muito importantes as respostas certas para as indagações acima feitas. Etimologicamente, o termo crise já indica a possibilidade de encontro de um caminho menos tormentoso que aquele que se atravessa. A sua origem está no grego, [krisis] que, pelo latim, entra no vernáculo, com o significado de distinção, de decisão, de juízo, enfim, de julgamento.

Para os estudiosos, com o passar do tempo o termo perdeu muito do seu significado original, que nele encerrava o conceito essencial de estabelecer a diferença entre o bom e o mau, entre o verdadeiro e o falso. Com este sentido, a distinção entre os dois polos implicava na capacidade de distinguir entre um e outro e, a partir dessa inteligência no saber escolher o melhor caminho, estava a possibilidade de sucesso ou de fracasso. Em suma, a crise não representava, em si mesma, uma catástrofe. Era antes uma possibilidade. Assim, toda a questão estava na competência decisória, ou seja, na correta interpretação dos fatos e no seu exato julgamento, que os agentes envolvidos adotariam para escolha do melhor caminho. E, a partir daí, na determinação e firmeza da ação consequente. Inicialmente utilizado com mais frequência na medicina, apontando aquele momento de impasse em que o doente tanto poderia ter o seu quadro agravado e vir a morrer, como também passar para um estágio de recuperação da saúde perdida, o conceito passou a ser usado na sociologia, na política, na economia, na psicopatologia, entre outras áreas de conhecimento.

Que crise o Brasil vive hoje? Não há mais dúvida de que os indicadores negativos, com a contração das atividades, os altos níveis de desemprego e o aumento da pobreza configuram uma crise econômica das maiores nas últimas décadas. O reflexo dessa situação descamba na política. Mas certamente é um equivoco argumentar que a crise surge de modo repentino, quase que como um castigo. Ora, em qualquer dos campos, a crise na economia e na política, sobretudo, são consequência de uma multiplicidade de fatores.

O governo, no poder há mais de uma década, malbaratou os fundamentos da política ec0nomica, estabelecidos, sobretudo a partir da implantação do real e da política de responsabilidade fiscal. A melhoria de condições de vida de parcelas significativas da população que, num primeiro momento, se mostrou satisfatória, se vê agora, não passou de estimulo a um consumismo desenfreado, sem bases reais de sustentação. Então, aquilo que alguns analistas independentes apontavam como um erro foi desprezado e até tratado com ar de menoscabo. Resultado, a inflação está aí corroendo os salários e jogando no desemprego centenas de milhares. E a denominada crise política corrói o mínimo de governabilidade existente. O governo parece estar à deriva. E o curioso é que ele se sente afrontado não pela oposição, o que seria até natural, mas precisamente para aqueles a que foram entregues cargos e sinecuras, ou seja, a chamada “base aliada”.

Existe saída para essa crise? Como vimos, o sentido etimológico do termo crise tanto indica que a saída pode se dar para um futuro melhor, para a cura, como para o precipício. Depende assim daqueles que estão à frente do processo decisório. E neste aspecto, parece que a saída não indica um futuro dos mais brilhantes. A política no Brasil na imensa maioria das vezes foi feita por aqueles que estão no andar de cima, ou seja, pelos políticos profissionais. No entanto, a história tem mostrado também, que estes nem sempre souberam escolher o melhor caminho. Até porque uma das formas mais indicadas para a escolha do caminho mais correto é ter a humildade de reconhecer os erros cometidos. O líder maior do atual governo reluta em aprender isso. No passado disse que a crise nos Estados Unidos causaria no máximo uma marolinha por aqui, portanto não havia por que se preocupar. Pois bem, ela chegou ao governo de sua sucessora. Mesmo assim ele não aprendeu. Vejam a declaração dada por ele nesta terça feira (11), no evento em Brasília, denominado de 5ª Marcha das Margaridas: “A única coisa que nós sabemos é que não foi o povo trabalhador que criou a crise econômica mundial. Foram os banqueiros internacionais. A crise não nasceu em Quixeramobim, a crise não nasceu em Garanhuns ou muito menos em Maceió. A crise não nasceu em Brasília. A crise nasceu no coração dos Estados Unidos, a crise nasceu no coração da Europa”. E, arrematou dizendo, sempre contraditoriamente: “Nós vivemos algumas dificuldades, que não é uma dificuldade da presidenta Dilma. Não é uma dificuldade de nenhuma de vocês individualmente. É daquelas dificuldades que a gente não sabe quem foi que criou”.

Ora, o governo está no poder a doze anos e acha que é mais fácil criticar o mundo do que reconhecer os seus inúmeros e variados erros. É claro que, com esse tipo de liderança, não se chegará a lugar algum. Muito menos tendo como protagonistas esses que, perdedores no debate democrático, ameaçam, como se viu com o chamamento feito pelo presidente da CUT nesta semana, para o enfrentamento “pelas armas”. Mas neste passo, deixemos para as providencias que certamente o Ministério Público Federal adotará.

A outra forma de fazer política, e essa é inovadora, é com a força do povo. Mas de nada adiantará, como já ficou provado na história recente de nosso país, se esse povo não tiver clareza de entendimento sobre os fatos. As lideranças que estão mobilizando para mais uma manifestação neste domingo tem a responsabilidade ímpar de contribuírem para criar um novo paradigma do ato político. Só falar que o governo não presta não é o bastante. Isto é óbvio. O governo não é só a presidente. Focar todas as críticas só na presidente Dilma não é uma questão de injustiça, é burrice. Nas manifestações não se tem condenado com a veemência necessária os aliados do governo e do seu partido, aqueles que ajudaram a colocar o seu antecessor e a ela no poder, e que até bem pouco lhe deram apoio e que agora só a criticam porque o barco está fazendo água. Ora, se a presidente se enfraquecer ainda mais, ou mesmo se deixar o governo, haverá quem acredite que só por isso as coisas irão melhorar? Os seus outrora aliados, tanto em Brasília como nos Estados, continuarão com a mesma política, permanecerão na mesma pratica.

Eu disse aliados? Disse sim, mas não só eles. Quantos dos ditos oposicionistas, ou oposicionistas de ocasião, não agem da mesma forma dos que hoje se encontram no poder? Então, se essa insatisfação generalizada que hoje assistimos, não for corretamente canalizada, o povo terá gasto energia e entusiasmo cívico de forma inútil. As manifestações devem ser um momento catalisador cujo foco deve estar voltado para uma maior politização do cidadão. Quantos dos que estão indo agora às ruas não votaram e ajudaram a eleger políticos que têm uma prática política exatamente igual a dos que estão no poder atualmente? Neste caso, entre situação e oposição a diferença não é assim tão grande. Por isso é que, passadas as crises, temos sempre o mais do menos. Mas, até quando?

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sebastião carlos advogado e professor mt

Sebastião Carlos Gomes de Carvalho é advogado e professor. Membro do Instituto dos Advogados Brasileiros – IAB [RJ].

 

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