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SEBASTIÃO CARLOS: Governava Mato Grosso, pela segunda vez, o udenista Fernando Corrêa da Costa. Com ele, estavam as principais lideranças das então denominadas “classes produtoras”, cujo grosso da economia, de extrato agropecuário, localizavam-se no sul do Estado, de onde era proveniente. O dr. Fernando, como era chamado, estava articuladíssimo com as forças que conspiravam contra o presidente Jango

 

Ernesto Geisel e Garrastazu Médici, dois dos generais-ditadores

Ernesto Geisel e Garrastazu Médici, dois dos generais-ditadores

 

POR SEBASTIÃO CARLOS
Conquanto exista uma vasta e extensa bibliografia sobre o movimento militar de 1964, muito pouco ou quase nada foi escrito sobre os seus reflexos em Mato Grosso e a atuação nele de matogrossenses. O tema, por sua importância histórica e as suas conseqüências continua atual cinquenta anos depois, em que pese a abundância de relatos e análises contra e a favor, tanto de historiadores brasileiros como dos denominados brasilianistas. Como indubitavelmente os reflexos dos idos de março se projetam em nossos dias, mais depoimentos e reflexões podem ser úteis para uma melhor compreensão da história. E isto é tão pertinente que o historiador Carlos Fico que, em Além do golpe— Versões e Controvérsias Sobre 1964 e a Ditadura Militar (Record, 391 páginas), no qual apresenta um balanço da produção acadêmica e memorialística, ao longo de quarenta anos (o livro foi publicado em 2004), diz que esse acontecimento permanece um “cadáver insepulto”.

Numa tentativa de contribuição para o estudo desse período, exporei alguns apontamentos referentes aos primeiros momentos da ação civil – militar em Mato Grosso. Talvez, em futuro próximo, faça um relato mais amplo, sobre os anos seguintes.

Quando o movimento sedicioso, que perdurou vinte e um anos, completa meio século, quiçá tais reflexões possam ser úteis para suprir uma lacuna na historiografia local.

O movimento militar para a deposição de João Goulart vinha sendo articulado praticamente desde antes de sua posse. A “solução” parlamentarista de setembro de 1961, e depois o retorno plebiscitário ao presidencialismo, foi apenas um breve interregno dentro dos planos dos conservadores e da direita para a mudança do regime, cujas tentativas vinham desde 1951 com a posse de Vargas. Assim, foi com irritada surpresa que a cúpula militar, envolvida na conspiração, recebeu a noticia de que naquela madrugada de 31 de março os generais Carlos Luiz Guedes, comandante da Infantaria Divisionária 4, e Olympio Mourão Filho, chefe da 4ª Divisão de Infantaria, de Juiz de Fora, agindo em comum acordo com o governador de Minas Gerais, o udenista Magalhães Pinto, havia postos as tropas na estrada a caminho do Rio de Janeiro. O movimento, preparado para daí a algumas semanas, havia sido precipitado e a tentativa do Chefe do Estado Maior, general Humberto Castello Branco, em convencer o governador e os generais para que suspendessem o deslocamento resultou inútil. E assim a tropa, batizada de “Coluna Tiradentes”, sob o comando do general Antônio Carlos Muricy, saiu de Juiz de Fora, e naquele mesmo dia alcançou a divisa com o Rio de Janeiro.

A partir daí, os fatos são conhecidos e tiveram repercussões diferenciadas nas várias unidades da federação. É óbvio, que o maior ou menor impacto daquele acontecimento dependeria da situação política pré-existente na região, do envolvimento da classe governante e de suas elites intelectuais e econômicas além do nível de politização das forças engajadas no processo político tenso e intenso que o país vivia naquela quadra.

Governava o Estado, pela segunda vez, o udenista Fernando Corrêa da Costa. Com ele, estavam as principais lideranças das então denominadas “classes produtoras”, cujo grosso da economia, de extrato agropecuário, localizavam-se no sul do Estado, de onde era proveniente. O dr. Fernando, como era chamado, estava articuladíssimo com as forças que conspiravam contra o presidente Jango. E o fazia, não tanto pelas questões da política partidária local, como acontecera em movimentos nacionais anteriores como a Revolução de 1930 e o Movimento Constitucionalista de 32, mas, desta vez, por seguras convicções ideológicas. E, nesta seara, naquela quadra, o céu era de brigadeiro para as forças conservadoras, ou seja, para as elites políticas dominantes.

sebastião carlos advogado e professor mt

*SEBASTIÃO CARLOS GOMES DE CARVALHO é historiador e advogado. É membro do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso e do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás. 

Categorias:Nação brasileira

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