SEBASTIÃO CARLOS: Essa de o povo ficar “por fora” parece ser uma característica ou uma sina nossa. Foi sempre assim. O povo até participa, mas no resultado final as elites é que ficam com o poder

Sebastião Carlos, historiador

Sebastião Carlos, historiador

A pedagogia das manifestações

POR SEBASTIÃO CARLOS
Aristides Lobo foi um dos grandes propagandistas da República. Dias depois do 15 de novembro publicou um artigo que entrou para a história do Brasil.

Uma frase nele contida foi um retrato perfeito não apenas daquele acontecimento, mas uma verdadeira antevisão dos anos futuros.

O jornalista, que participou ativamente de todos os lances daquele dia, escreveu que “o povo assistiu àquilo bestificado, atônito, surpreso, sem conhecer o que significava. Muitos acreditaram seriamente estar vendo uma parada”.

Enfim, a proclamação da República, que teve à frente do palco um velho e alquebrado militar, que nem republicano era, e era muito próximo do afável Imperador, foi vista pelo povo da então capital, como uma coisa da importância de um mero desfile militar. Ou seja, nada para ter um destaque histórico. O povo ficou à margem.

Essa de o povo ficar “por fora” parece ser uma característica ou uma sina nossa. Foi sempre assim. O povo até participa, mas no resultado final as elites é que ficam com o poder.

Não vamos longe. A longa luta pela Democracia nos ásperos tempos do regime militar, com milhares tombados ao longo da travessia, resultou em entregar a Presidência para um líder do partido que apoiou a ditadura em suas mais de duas décadas de existência.

Depois de Sarney, veio Collor, com toda a história conhecida. Onde ficaram as bandeiras das lutas históricas em que parcelas representativas da população, os estudantes e professores, os profissionais liberais e trabalhadores, caminharam lado a lado na luta pela Anistia, pela Direta Já, pela Constituinte, pelo Impeachment?

As reivindicações contidas nos brados das ruas e nos inúmeros manifestos, artigos e livros foram empurradas para debaixo do tapete.

A reforma tributária e fiscal, a reforma política e do judiciário, o combate à corrupção, a prioridade à educação tudo se esvaiu entre os dedos dos idealistas, que testemunham o poder continuar sob o domínio daqueles que nunca dele estiveram fora desde, pelo menos, a proclamação da República.

Também são muito hábeis e inteligentes, talvez até mais do que os seus opositores, pois não estão aí como aliados, amigos, comparsas, sócios os Sarneys, os Collors e o operário que veio para mudar tudo isso? Então que lição temos que extrair dessa situação?

Esta consideração vem a propósito das manifestações quase históricas que estamos assistindo. Neste dia 12 teremos outra, seguramente maior que a de março. Estamos indo às ruas, em proporções cada vez maiores, mas para quê?

No artigo anterior, considerando a convocação dos militares como uma coisa de desmiolados e irresponsáveis, me manifestei contra a possibilidade do impeachment, pelo menos não neste momento. Afinal, nessa hipótese, quem ficaria no seu lugar? O vice Temer.

Mas, se por qualquer razão este também for “impichado”, o sucessor imediato será o presidente da Câmara, Eduardo Cunha. Ambos do PMDB. Não precisa dizer mais nada.

A verdade é que se não começarmos a fazer uma reflexão mais profunda sobre essa movimentação, provavelmente toda essa energia, até agora movida pela indignação, será inócua, será perdida, como as antecessoras.

Então o que buscar? A sociedade civil organizada, através das entidades de representação de classe, deve “arrancar” do Congresso Nacional as reformas necessárias para o avanço político e que reestruturem a economia, aliviando a pesadíssima carga tributária.

Exigir que os crimes de corrupção sejam punidos com celeridade. E corrupção não é apenas esta escabrosa da Petrobras e a que, novamente, está sendo denunciada ter atingido os Correios, mas também corrupção eleitoral que leva um deputado, um vereador, um senador, a gastar milhões para ser eleito, sabendo-se que, por maior que sejam os seus ganhos, eles jamais cobriram o que gastou na campanha.

Por fim, não tem qualquer sentido estar esbravejando apenas contra Dilma. Conhecem aquela estória do jabuti em cima da árvore?

Todos sabem que ele não sobe em árvore, então se está num galho é porque alguém lá o colocou. Dilma não foi eleita por ela mesma. Então é preciso que as ruas gritem claramente contra aqueles que lá a colocaram. Seus aliados.

Quais e quem foram os aliados do PT nestes anos todos, quem lhes deu apoio e poder? Ou eles são identificados, mostrados com toda a clareza e objetividade como também responsáveis por esta situação contra a qual estamos protestando, ou as coisas nunca mudarão.

É preciso igualmente indagarmos sobre aqueles que foram omissos, e, assim, ainda que indiretamente, contribuíram pra que as coisas chegassem aonde chegaram.

Daqui a algum tempo estaremos voltando novamente às ruas para dizer as mesmas coisas e alguém, no futuro, escreverá que também nós não passamos de bestificados.

Temos então que aprender com a história para que estas jornadas sejam pedagógicas e não estejamos sempre caminhando sem sair do lugar.

SEBASTIÃO CARLOS é historiador e escritor em Cuiabá. Este artigo foi escrito antes das manifestações de domingo, 12 de abril.

 

 

 

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