SEBASTIÃO CARLOS EM CARTA A RONDON:  “Agora, veja, Marechal! A homenagem que espalhafatosamente lhe prometeram fazer na sua Mimoso querida, passados 15 anos e vários governantes, ah!, e claro, muitos milhões de reais depois, continua na mesma: inconclusa, desolada, perdida no ermo pantaneiro. Ironia de nossa época: foi mais rápido e aparentemente mais fácil para ti, e seguramente menos oneroso para o poder público, o teres durante anos perlustrado os ínvios sertões, vadeado rios caudalosos, cruzado picadas, trilhas e estradas inexistentes, serras, chapadas e pântanos em lombo de muares para realizar o levantamento cartográfico dessa imensa e majestática região e construído as linhas telegráficas que interligaram o Rio de Janeiro ao Amazonas do que o Governo de Mato Grosso concluir o Memorial Rondon.”

Sebastião Carlos, historiador e Cândido Rondon, indigenista, filho de Mimoso

Sebastião Carlos, historiador e Cândido Rondon, indigenista, filho de Mimoso

Carta à Rondon

por Sebastião Carlos
Meu querido Pagmejera
Deixei passar esses dias em que se fizeram algumas referencias ao seu aniversário para só então escrever-lhe esta singela carta. Sei que daí, com a sua bonomia pantaneira, olhos semicerrados, deves estar olhando para estes nossos tristes tempos. São passados cento e cinquenta anos desde que, naquele cinco de maio, nascestes na sesmaria do Morro Redondo e ao depois, com as imensas dificuldades conhecidas, conseguistes galgar os mais íngremes caminhos. Aliás, por falar em dificuldades quase intransponíveis, sua existência toda é um exemplo magnífico de desafios às asperezas que a vida se lhe apresentou. Penso, porém que, mais que todas as suas realizações que o tornaram referencia em todo o mundo, creio, meu querido conterrâneo, a sua integridade moral, a sua inteireza ética, a sua fibra cívica, os seus princípios humanistas, é o que deve ser repetidamente lembrado. Particularmente nos dias presentes em que ocorre crescente erosão dos valores que tão bem praticastes.
Desde que em 1889, como ajudante do Gal. Gomes Carneiro na Comissão encarregada da construção das Linhas Telegráficas de Cuiabá a Registro do Araguaia, até 1907, já como Chefe da Comissão de Construção das Linhas Telegráficas, em que percorrestes mais de 50.000 km2 das inóspitas e desconhecidas regiões da Amazônia brasileira, sua coragem cívica e denodo foram submetidos a provas inauditas. Tal façanha, primeiro lá fora antes que aqui, fez com que ganhastes renome internacional. Em 1911 o Congresso Universal das Raças, realizado em Londres, consignou os seus feitos como exemplo admirável a ser seguido pelos países com população indígenas em seu território e, em 1914, a Sociedade de Geografia de Nova York lhe concedeu o seu prêmio mais importante. Ao longo dos anos e, sobretudo, depois que dirigistes a expedição cientifica da qual participou o ex-presidente T. Roosevelt, governos estrangeiros e dezenas de entidades internacionais o condecoraram e o premiaram repetidas vezes. Alcançastes o ápice quando, em 1957, o Explorer’s Club de Nova York, com apoio de entidades culturais, científicas e pacifistas de vários países, o indicou ao Prêmio Nobel da Paz. Tornastes, pois, uma dessas raras figuras que atingiram em vida, no mais elevado grau, o nível de respeito e prestígio por tua obra gigantesca.

Não posso Mestre, imaginar em que morada te encontras agora. Confesso que não li o suficiente para saber o que a sua Igreja do Apostolado Positivista, a que sempre fostes fiel, seguindo as seguras lições do credo agnóstico de mestre Comte, dizia sobre o post-mortem. No entanto, presumo que estás em muito boa companhia. Lembro-me agora o que sobre ti disseram alguns dos grandes nomes que aqui ficaram quando partistes. Entre tantos, dois deles, quero recordar nesta breve carta. O amigo e grande antropólogo Roquete Pinto disse que eras “o ideal feito homem” e Paul Claudel, poeta imenso e diplomata, o definiu de modo lapidar: “Rondon dá-me a impressão de uma figura do Evangelho”.

Despojado das vaidades e das glorias vãs deste mundo, certamente não deves estar tão entristecido com a pouca lembrança que os seus conterrâneos lhe dedicam. Suponho, porém, que estejas olhando para esta tua terra com outra espécie de tristeza. Não certamente a melancólica, mas aquela que se mescla à fina ironia tão característica dos sábios. Imagino que quando por aí te encontras com Villa-Lobos, que já em 1938 havia composto em sua homenagem o hino “Herói do Brasil”, o maestro deve se mostrar, com a exuberância que lhe era característica, toda a indignação por estarmos lembrando tão pouco de sua glória. Sim, existe com o seu nome, um Estado, sendo o único brasileiro que recebeu tal homenagem; aqui, em Mato Grosso, um pujante município e, pelo Brasil afora, alguns outros, além do justo titulo de Patrono das Comunicações. Mas veja, por exemplo, em sua Cuiabá. O que temos? uma pequena rua no centro, o menor dos bustos da praça Alencastro e outro pequeno no jardim da antiga residência dos governadores e, vale constatar uma triste curiosidade: a estátua do general Garrastazu Médici é muito maior que a sua. Que mais? Ah! Existe a Sociedade Amigos de Rondon, fundada pelo Ramis Bucair e hoje dirigida pelo Ivan Pedrosa, que a duras penas, de modo modesto e sem qualquer apoio, abnegadamente celebra cada cinco de maio.
Agora, veja, Marechal! A homenagem que espalhafatosamente lhe prometeram fazer na sua Mimoso querida, passados 15 anos e vários governantes, ah!, e claro, muitos milhões de reais depois, continua na mesma: inconclusa, desolada, perdida no ermo pantaneiro. Ironia de nossa época: foi mais rápido e aparentemente mais fácil para ti, e seguramente menos oneroso para o poder público, o teres durante anos perlustrado os ínvios sertões, vadeado rios caudalosos, cruzado picadas, trilhas e estradas inexistentes, serras, chapadas e pântanos em lombo de muares para realizar o levantamento cartográfico dessa imensa e majestática região e construído as linhas telegráficas que interligaram o Rio de Janeiro ao Amazonas do que o Governo de Mato Grosso concluir o Memorial Rondon. Cumpristes todos os prazos que lhe propuseram, alcançastes todas as metas. Que comparação com os tempos que correm, heim?
Imagino o que devem ter comentado sobre a desmemoria dos contemporâneos, e de seus conterrâneos, aqueles que estiveram ao teu lado. Teus amigos positivistas como os generais Jaguaribe de Mattos e Horta Barbosa, ou os sertanistas Pimentel Barbosa, irmãos Villas Bôas e Francisco Meirelles, os etnógrafos Curt Unkel Nimuendaju e Hans Foerthman, o médico Noel Nutels, todos e tantos, devem estar lamentado este pouco caso, e Darcy Ribeiro, dínamo de criatividade e de ação, deve estar esbravejando com murros na mesa.
Imagino que se a Pátria, tal como na Igreja Católica, canonizasse os seus santos, Rondon seria certamente um desses eleitos. Teria ele um lugar privilegiado na hagiologia cívica.
Grande herói brasileiro, ícone para a Pátria, o seu dia era para ser um feriado nacional, não destes de se ficar ocioso ou sem se ir às aulas, mas aquele em que deveríamos estar todos irmanados numa celebração cívica, no trabalho, no sindicato, no quartel e na escola, no fórum e na fábrica ouvindo palestras e meditando sobre a sua figura de humanista raro, sobre o exemplo magnífico do ser humano que fostes. Para um bom início dessas atividades sugiro que elas tivessem como mote para reflexão as palavras que Roosevelt fez gravar para sempre: “Rondon, como homem, tinha todas as virtudes de um sacerdote: era um puritano de uma perfeição inimaginável na época moderna; como profissional, era tão grande cientista, tão vasto era o conjunto de seus conhecimentos, que se podia considerá-lo um sábio”.
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Sebastião Carlos Gomes de Carvalho é professor. Membro do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso e do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás. Publicou, entre outros, “Perfis Matogrossenses”.

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