SEBASTIÃO CARLOS: Antigamente se dizia que, além da esperança e do futuro, o Brasil era também o país do carnaval e do futebol. O carnaval, como todos já sabem, deixou de existir como festa de autentica participação popular, pelo menos nos grandes centros. E o futebol … bem, precisa dizer alguma coisa? Percebem-se claros sinais de desassossego e angustia nos olhos das melhores pessoas. A ladainha popular sobre o ter esperança nos diz também que ela é a última que morre. Será?

Sebastião Carlos, historiador

Sebastião Carlos, historiador

ADEUS ÀS ESPERANÇAS?

por Sebastião Carlos

Aprendemos desde crianças que devemos ser otimistas. Enfrentar a vida com a disposição resoluta de sempre ver o lado melhor, até porque vivemos no melhor país do mundo. Aqui não há terremotos, nem furacão, o sol brilha o ano todo, o povo é alegre. A formação religiosa ensina a acreditar, a ter fé na tríade teológico-cívica – Deus, Pátria, Família. Quem não ouviu tais estímulos? Ensinaram-nos, e aos nossos pais, e aos nossos avós, que era preciso ter esperança em nosso Brasil varonil. Vindos do lar e da escola tais prédicas embalaram os nossos neurônios infanto-juvenis. Um pouco mais adiante quantos de nós não decoramos como tarefa escolar a ‘Canção do Tamoio’ na qual Gonçalves Dias, celebrando nossos primitivos irmãos, ensinava: “Não chores, meu filho; / Não chores, que a vida/ É luta renhida:/ Viver é lutar./ A vida é combate,/ Que os fracos abate,/ Que os fortes, os bravos/ Só pode exaltar.” E assim temos vivido. Sob o signo de ser o país do futuro. A esperança tem sido o gênio tutelar da raça. “Amanhã há de ser outro dia”. São os ditos do povo, são as canções populares que entranharam em nossas almas. Aliás, “Brasil, país do futuro”, é expressão titulo de um dos livros do austríaco Stefan Zweig, que passou em nosso país os últimos anos de sua vida. Ironicamente, foi aqui que ele viveu seu pesadelo derradeiro, até por fim à própria vida.

Se tal, porém, parece ser ainda possível na vida pessoal, como se passa a esperança no contexto da vida pública, ou seja, da vida do país?

Quem já passou dos cinquenta atravessou algumas fases de expectativas esperançosas. O vento soprou o cheiro da liberdade quando saíamos da noite escura da ditadura. E o amanhã de que nos falavam poetas e cantores – “Faz escuro mais eu canto, porque o amanhã vai chegar”, escrevia o amazonense Thiago de Mello, enquanto Chico Buarque entoava “Amanhã há de ser / Outro dia/ Eu pergunto a você/ Onde vai se esconder/ Da enorme euforia” – parecia ter chegado com o alvorecer da Democracia. Enfim retomávamos a alegria, voltávamos a ser o país do futuro e para o futuro.

E o tempo passou e com ele vieram as decepções. A negativa das “Diretas Já”, a eleição irrealizada de Tancredo e a sua morte, o empossamento na presidência da República do homem que até ontem havia sido um dos apoiadores dos vinte e um anos de militarismo. Os seguidos fracassos dos planos e “pacotes” econômicos. A eleição de Collor só amenizada por seu impeachment. As expectativas frustradas com o governo FHC, talvez um dos maiores intelectuais a ter chegado à presidência do Brasil, mas em que a educação e a cultura não tiveram o impulso que dele se esperava. Em “compensação” ele inventou a reeleição. Aqui mesmo em Mato Grosso uma bela campanha, sob o slogan de “o passado nunca mais”, empolgou a população. Se o passado era nunca mais então é porque teríamos um belo futuro. Infelizmente, para não perder a sina do brasileiro, foi o que se viu. Todas as esperanças depositadas erodiram-se como as barrancas do Araguaia – Garças nas épocas das cheias. Mas nesse entretempo – veja novamente a esperança a nos enfeitiçar – aos poucos se gestava a grande epopeia que seria levar um operário ao poder. Quanta expectativa! Quanta luta para que o povo brasileiro afinal alcançasse o pódio. Finalmente, dizíamos, a gente simples, os idealistas, os seduzidos pela esperança colocariam o Brasil nos eixos. O futuro estava se tornando em presente, pensávamos. Afinal, um governo ético, empreendedor, sério, compromissado com as grandes causas da nação seria instaurado. Era a revolução pacífica sonhada por tantos ao longo das décadas. Ah! Ledo engano. O sonho durou pouco e logo seria apunhalado pelas costas. Muito pouco e todas as expectativas ruíram. Como fomos ludibriados, como fomos enganados. Como roubaram os nossos sonhos. Eles são hoje pesadelos.

Pior que tudo é que essa gente está matando a esperança. Aos poucos, parcelas crescentes da população, sobretudo os jovens, não mais estão vendo em quem ou, pior, em quê acreditar. Percebem-se claros sinais de desassossego e angustia nos olhos das melhores pessoas. Alguém pode ter ainda dúvida de que vivemos hoje uma maldita guerra urbana? Sequestros, com torturas, assassinatos indiscriminados em plena luz do dia, assaltos a bancos, balas perdidas, mortes seletivas de policiais, enfim, todas as características que compõem o quadro de um processo que degradará até chegar ao turbilhão incontrolável da desagregação social mais completa. Que, aliás, já estão presentes na violência gratuita que se vê entre as torcidas de futebol, nas ações de vandalismo urbano, no ressurgimento de gestos e atitudes racistas e discriminatórias, que eram muitos raros neste país e pareciam desaparecidas. A par disso, os perigosos experimentos de querer fazer a justiça com as próprias mãos. As estatísticas apontam: no cotidiano brasileiro está morrendo mais pessoas que em algumas guerras civis que acontecem no mundo hoje.

Contribuindo para esse quadro de desesperança está a inflação, o desgoverno, a corrupção endêmica. Os preços estão crescendo a galope, enquanto se realiza um verdadeiro arrocho salarial. O trabalhador e a classe média são as maiores vitimas. A saúde pública é o caos do conhecimento de todos.

Enquanto isso, quais são as noticias que nos vem, quando vem, daqueles que, nos três níveis, nos governam? Em não poucos casos tem-se a sensação de que eles vivem num mundo à parte.

A ladainha popular sobre o ter esperança nos diz também que ela é a última que morre. Será? Vivemos um tempo sombrio em que estão matando a esperança. Que caminhos temos pela frente?

Antigamente se dizia que, além da esperança e do futuro, o Brasil era também o país do carnaval e do futebol. O carnaval, como todos já sabem, deixou de existir como festa de autentica participação popular, pelo menos nos grandes centros. E o futebol … bem, precisa dizer alguma coisa?

Pessimista eu? Não. Estou pretendendo ser realista. Converse leitor com você mesmo ou com alguém sensato. Tire sua própria conclusão. Existem diferenças graduais entre o pessimismo e o otimismo. E no centro está o realismo. O teólogo irlandês William George Ward, que viveu em meados do século XIX, escreveu que “O pessimista se queixa do vento, o otimista espera que ele mude e o realista ajusta as velas.” Que ventos irão soprar as nossas velas?

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Sebastião Carlos Gomes de Carvalho é advogado, professor e historiador.

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