SEBASTIÃO CARLOS: A indignação deve ser canalizada para que o país seja realmente passado a limpo e não somente que uma dada situação política seja removida. Grita-se contra Brasília, mas o que vemos em nosso redor aqui mesmo em Mato Grosso? Quais foram os responsáveis pelos escândalos, que antes de aparecerem na imprensa e no judiciário, já eram motivo de conversas que pipocavam nos bares e nas ruas?

Sebastião Carlos, historiador

Sebastião Carlos, historiador

AS ÁGUAS DE MARÇO
Sebastião Carlos

E então vieram as já históricas manifestações do 15 de março. E me ocorreram os versos secos e diretos da poesia musical de Tom Jobim: “São as águas de março / Fechando o verão / É uma prata brilhando / É a luz da manhã / É o tijolo chegando”. Tão precisos e belos que podem até ser o hino de um país que se dá as mãos para fechar uma época ruim, para ver a luz da manhã brilhando, para juntar os tijolos na construção de um novo tempo.

Poucas vezes nas últimas décadas o país viu tanta gente reunida em torno de um só sentimento. Sim, mais que política, no estrito significado do termo, o que fez as pessoas irem às ruas foi a necessidade de por para fora a voz engasgada na indignação a explodir na garganta. No mais, não houve um sentido único nas marchas alegres e cantantes, como devem ser as das boas rebeldias. Alguns mais apressados pedem o impeachment já, e existem também aqueles, felizmente poucos, que, desmiolados e deslocados no tempo, clamam por uma improvável rentrée dos militares. Todavia, seguramente a maioria quer a manutenção da ordem democrática, do livre funcionamento das instituições, da continuidade do Estado de Direito. Daí que o motor destas manifestações, e da próxima já agendada para abril, é mais o da indignação coletiva para dar um basta contra a insensibilidade dos poderes – digo, de todos os poderes da República – para com a vida cotidiana do cidadão. Sim, querido Tom, a constatação é única: “É o fundo do poço / É o fim do caminho / No rosto, o desgosto”. Até quando?

É claro que do chão quente desse sentimento coletivo é preciso fazer brotar um novo horizonte, de onde deverá surgir um país mais moderno e justo. Se isto não se concretizar, pelo menos em médio prazo, estas serão, como algumas o foram no passado, marchas que se esgotarão em si mesmas. E assim erodirá um capital humano imenso, representado pela esperança e pela energia generosa do povo. Torna-se necessário então que haja um esforço coletivo para deslocar a emoção, representada pela indignação, para o campo criativo da política.

Digo isto, porque entendo que um dos elementos essenciais nos acontecimentos históricos é o da imensa possibilidade do aprendizado que cada um deles nos pode deixar. No entanto, para traduzir os fatos em experiência, impõe-se que tenhamos capacidade para lê-los. O povo, a duras penas, está aprendendo a fazer a sua leitura dos fatos. É preciso se estar atento para que não nos percamos nos desvãos da áspera caminhada. Que será longa. Com efeito, entendo que as inúmeras palavras de ordem levantadas contra a presidente e o seu partido são meramente pontuais, circunstanciais. Portanto, ao longo do tempo perderão o efeito necessário para as mudanças, tanto nas instituições como nas pessoas que as encarnam se o foco estiver apenas em Dilma e em seu governo. Se assim continuar, esgotaremos, de maneira improdutiva, as energias e com elas as esperanças. Parece-me óbvio: após a saída da presidente, que mudança poderá vir na vida publica? Nos quadros da política? Se o povo não disser claramente o que pretende, continuamos a ter, tal qual no passado recente, o mais do mesmo. É preciso, pois, dirigir o foco para um ambiente mais amplo. E mais próximo … . Ou seja, nos voltarmos tanto para aqueles que são os seus aliados, como igualmente para aqueles que, até por omissão, são responsáveis por esse estado de coisas que hoje o país unanimemente rechaça.

A indignação deve ser canalizada para que o país seja realmente passado a limpo e não somente que uma dada situação política seja removida. Grita-se contra Brasília, mas o que vemos em nosso redor aqui mesmo em Mato Grosso? Quais e quem foram os aliados do PT nestes anos todos, quem lhes deu apoio e poder? Quais foram os responsáveis pelos escândalos, que antes de aparecerem na imprensa e no judiciário, já eram motivo de conversas que pipocavam nos bares e nas ruas? As súbitas riquezas, os inesperados poder de mando, as regalias acintosas que eram, ou são, vistas a luz solar? Quem apoiou? Quem se omitiu?

Que lista imensa é a do rol dos escândalos dos últimos anos, até se encerrar com essa novela escabrosa que certamente entrará para a história do Estado com a singela denominação de “as obras da Copa”? Como na música do Tom: “É o carro enguiçado / É a lama, é a lama”. Quem são os responsáveis? Quem pagará por isso? E quando? E se … . Então já é hora de juntá-los como farinha do mesmo saco. E aí, como na canção, “É o queira não queira / É o vento ventando / É o fim da ladeira”.

Em compensação também poderá ser “o fim da canseira / “a promessa de vida no teu coração / Festa da cumeeira.” Serão as águas de março?


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Sebastião Carlos Gomes de Carvalho é advogado e historiador.

1 Comentário

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  1. - IP 189.59.69.195 - Responder

    Sim Sebastião Carlos muita gente se omitiu neste estado há décadas de corrupção aí na nossa cara.

    E o que dizer de quem tinha o poder/dever de tentar frear essa pouca vergonha. Falo do TCE/MT e MPE. estas duas instituições estão em débito com a sociedade.

    O Tribunal de Contas, se fosse fechado não faria fala alguma. Aliás iria sobrar mais de 200 milhões por ano para a Saúde, a Educação e a Segurança.

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