SAÍTO tenta responder à pergunta: “Justiça, o que será?” E chega a outra pergunta: “As pessoas aparentemente justas o são por medo do Estado e de represária social, ou por acreditar na boa alma humana e sua formatação num universo de virtudes?”

Gonçalo Antunes de Barros Neto, juiz de Direito em Mato Grosso, conhecido pelos amigos como Saíto

Gonçalo Antunes de Barros Neto, juiz de Direito em Mato Grosso, conhecido pelos amigos como Saíto

Justiça, o que será?

por GONÇALO ANTUNES DE BARROS NETO – SAÍTO

Uma aula em vídeo muito interessante é a do professor Clóvis de Barros Filho, sob o título – “Ética, conceitos de justiça”. Em sua reflexão, trabalha este filósofo com a concepção de justiça, citando, com mais profundidade e propriedade, as passagens que a seguir compartilho, recheadas, claro, com a nossa particular ironia. Ainda que pressinta o quão perigoso seja a ironia, pois, com ela se sustenta algo para afirmar o seu contrário, e nem todo leitor entende o significado, podendo, nas palavras de Sérgio Rodrigues da Veja, tomar o texto pelo valor de face, deixando de captar seu sarcasmo, arrisco.

Na tragédia grega de Sófocles – Antígona -, escrita por volta de 442 a.C., trabalha-se com a perspectiva de dois tipos de justiça: a da lei, portanto, do Estado, e a de Antígona, sobrinha de Creonte, rei de Tebas, a da justiça divina. Diante da altercação entre Etéocles e Polinice, irmãos de Antígona, em que ambos vieram a falecer na disputa pelo trono de Tebas, Creonte mandou que o corpo do primeiro fosse enterrado com todo o cerimonial previsto aos mortos e deuses. Polinice, ao contrário, não receberia sepultura e seu corpo deveria ficar exposto aos cães e aves de rapina, servindo como lição a todos que intentassem tomar o poder. Antígona, crendo injusta a determinação do soberano, mandou dar sepultura ao irmão Polinice, em atenção à lei divina, e por isso foi morta por ter sido insubmissa às leis humanas.

Na obra “A República”, de Platão, em seu livro II, Glauco escreve sobre a justiça. Vale ressaltar que Glauco era considerado irmão de Platão. Conta Glauco a lenda do Anel de Gyges, que se tornou um marco do pensamento filosófico. Nesta, Gyges, um pastor, ao levar as ovelhas para o campo, olhando uma fenda aberta no chão, deparou-se com um cadáver que não tinha mais nada, a não ser um anel. Pegou-o. Ao se reunir com os demais pastores em uma espécie de assembleia anual para prestar contas ao rei, deu por acaso uma volta ao engaste do anel para dentro, em direção à parte interna da mão, e, ao fazer isso, tornou-se invisível para os que estavam ao lado. Tomado pela percepção do poder imenso que tinha na mão, atacou o soberano e tomou-lhe o poder, em tudo ajudado pela rainha por ele seduzida. Qual a lógica disso? Glauco se torna o portavoz do fato de que somos, todos, profundamente injustos, e que somente não agimos em atenção aos mais terríveis impulsos por medo e coerção dos outros. Aqui temos justiça na perpectiva do binômio: coerção e medo. Isso revolucionou o pensamento filosófico que até então se apoiava em Platão na sua tese de que justiça é a somatória de todas as virtudes. Não é preciso nem ressaltar de que a partir do século XV, Glauco nos aproxima muito mais da concepção de justiça do que Platão.

Mas qual a reflexão a ser feita disso tudo? As pessoas aparentemente justas o são por medo do Estado e/ou de represária social, ou, em quadra oposta, por acreditar na boa alma humana e sua formatação num universo de virtudes? Estamos com o uso da autoridade por Creonte e da metáfora do Anel de Gyges, ou, em lado mais sublime, diria até mais confortante à hipocrisia do politicamente correto, do exemplo de Antígona e da concepção de justiça de Platão?

Ao que parece, Glauco entende justiça como mera convenção social, com perspectiva coercitiva, despertando medo. Vejamos como o medo pode assombrar uma assembleia de honoráveis homens, pelo menos deveriam ter honorabilidade. Duas forças se digladiam – uma, puxada pela vaidade de seu dono, tem vontade de dominar os outros e ser como poderosa do circo, e avança sobre os pares numa espécie de rolo compressor. Outra, articulada, mas não menos emblemática que a primeira, esbanja simpatia, liderança, agrada a patuleia, e, em seu discurso sofista, promete o que nem Maria Antonieta ousaria pensar. E qual o resultado? Após brincarem com os seus soldadinhos, de egos saciados e conjuntamente brindados num churrascão, formalizam nova paz até a próxima aventura. E os bons? Ah…, esses, se acaso existirem, estão querendo mais diversão. O medo lhes traz benefícios. Afinal, a festa não tá boa?

GONÇALO ANTUNES DE BARROS NETO, o Saíto, é juiz de direito, membro das Academias de Magistrados e de Direito Constitucional de Mato Grosso, e escreve aos domingos em A Gazeta. E-mail: [email protected]

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CONFIRA A AULA CITADA POR SAÍTO, COM O PROFESSOR CLÓVIS DE BARROS FILHO

7 Comentários

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  1. - IP 200.17.60.247 - Responder

    Que abordagem fantástica! Genial!

  2. - IP 177.4.189.130 - Responder

    Irônico. Muito bom. Tenho a impressão que a carapuça vai servir.

  3. - IP 177.147.134.143 - Responder

    É verdade issobai. Leiam o homem em seu estado natural e entenderam o q disse o autor

  4. - IP 200.103.91.142 - Responder

    A minha diminuta visão acerca do que é o homem e o seu sentido de justiça, resume-se, conforme os ensinamentos da Biologia: o homem é um vírus! Com extrema capacidade de mutação, adaptação e habilidade de convergir o meio em que se encontra de modo a atender as suas necessidades, o homem e o seu sentido de justiça, é apenas um vírus! Só que, diferentemente de proteínas – como almeja o vírus, no caso do homem é a vaidade. Tudo desagua na vaidade, como disse o “pensador”. A principal matriz energética das sevicias, qualidade, vícios e virtudes é a vaidade.Tudo vaidade, nada além disso. As togas, becas, justeza, maldade, bondade, é, enfim, tudo vaidade. Assim, se é o medo ou a coerção, as virtudes ou a boa alma humana, que dão sentido a ideia de justiça e humanidade, não sei, mas, por enquanto, fico com a ideia do vírus aliada a boa lição dada neste artigo, que, diga-se de passagem, altamente rico e questionador!

  5. - IP 201.22.173.151 - Responder

    Excelente e oportuna reflexão, parabéns pela coragem na apresentação sincera do artigo e pela erudição que sobra, e aí: ‘o bem é tímido’.

  6. - IP 201.10.175.200 - Responder

    Não gostei do texto. Nem consegui acabar de ler.

  7. - IP 179.83.214.169 - Responder

    Parabéns Saito, excelente texto, muito refinado!!!!!

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