SAÍTO se sente desafiado em meio a uma sociedade de risco. “O mundo passou a ser dos audaciosos na prática do sofrimento próprio ou de terceiro. O sucesso cria inimigos, o conhecimento traz aborrecimentos. Os sádicos estão a postos, gostam da miséria alheia, zombam da inveja” – escreve o magistrado

Gonçalo Antunes de Barros Neto, juiz de Direito em Cuiabá, Mato Grosso, conhecido pelos amigos como Saíto

Gonçalo Antunes de Barros Neto, juiz de Direito em Cuiabá, Mato Grosso, conhecido pelos amigos como Saíto

Sociedade de risco

GONÇALO ANTUNES DE BARROS NETO – SAÍTO

No lugar comum das vaidades humanas, o recato sempre teve seu destaque. A honra e o ambiente recluso, familiar, são preocupações constantes aos que se preservam do avanço da crítica infundada. Seja no Direito ou na vida social, a importância dada aos assaques das injurias, calunias, e difamações se fizeram caros, com a criação de mecanismos legais ou morais de anteparo.

Acontece que tudo mudou. Não há mais honra que se preserve imaculada e nem ambiente que persevere na paz dos esquecidos. O direito ao esquecimento é coisa do passado. Uma nota, um apontamento, é suficiente para ganhar o mundo nos arquivos digitais. A idiotice é acreditar na indiferença do tempo. Estamos todos amarrados a uma mesma sementeira, a de frutos duvidosos, dos boatos, das injustiças e dos farisaicos e autoritários comentários dos que se arrotam no dever da língua felina.

Segundo Jeremy Bentham, a natureza colocou a espécie humana sob o domínio de dois senhores soberanos: a dor e o prazer. E acrescentaria eu – a dor dos masoquistas e o prazer dos sádicos. Parece que há uma tendência a isso. A história está sendo desenhada por essas figuras. O medo (dor) das críticas está sendo elevado a patamares nunca vistos. A ninguém é dado a aventura, arriscar-se pelo sonho. Somente os masoquistas o fazem. O prazer, também, tem seu viés na tragédia humana. Se sentir realizado e feliz causa espécie e pode naufragar diante de uma calúnia. O sucesso cria inimigos, o conhecimento traz aborrecimentos. Os sádicos estão a postos, gostam da miséria alheia, zombam da inveja. Exemplifiquemos.

Uma determinada categoria profissional se sente mais realizada com a sua vitória ou com a derrota de outra? O amigo se sente feliz com o crescimento do outro, por lhe ter acompanhado e desfrutar de sua proximidade, ou se infelicita pela própria estagnação? O programa policial que exibe a desgraça alheia tem considerável audiência por nos ensinar como não proceder ou por nos colocar como expectador da derrocada de outrem, esquecendo a nossa? O vizinho está mais a se preocupar com a sua sorte ou com a do lado? No homicídio, o que atrai mais a atenção, o corpo inerte ou o homicida algemado? Na diligência policial, a ação dos agentes do Estado ou o resultado? A fotografia ou os fatos?

Senhores e senhoras, a sociedade atual é de risco. A qualquer momento e em qualquer instante o recato e a simplicidade de sua vida pode mudar, sem dó e piedade. Somos apenas números numa comunhão de estatísticas. Transformaram-nos em sádicos e masoquistas no espaço da felicidade. O simplório, recatado, que se preserva por medo a um vilipêndio moral, está fadado à estagnação. O mundo passou a ser dos audaciosos na prática do sofrimento próprio ou de terceiro. Há um preço a ser pago, a desonra ou a imersão.

Isso tudo me faz lembrar Kant, que dizia: “Não ensino para gênios, pois sendo estes tão bem dotados abrirão seu caminho por conta própria; nem para estúpidos, porque não valem a pena; mas ensino em benefício daqueles que se encontram entre essas duas classes e querem estar preparados para seu futuro…”. O mundo vai tendo sua lógica, e, aqui na planície, a nossa. É por aí…

 

GONÇALO ANTUNES DE BARROS NETO – SAÍTO é Juiz de Direito e escreve aos domingos em A Gazeta (e-mail: [email protected]).

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