Saíto, ouvindo João do Rio, se rende à alma encantadora das ruas

Saito com o escritor João do Rio

Saito com o escritor João do Rio

Academicismo

Por Gonçalo Antunes de Barros  Neto – Saíto

 

Na rua ou pela rua o roliçar de tristes subjetividades faz nascer o doce sabor do que antes se encerrava engaiolado; liberdade, ainda que tardia.

Vivemos pela rua, ninguém vive para a clausura. Ela nos dá aquilo que nenhuma outra razão poderia – o ‘a priori’ universal e necessário ungido às resenhas das conversas de botequim ou das calçadas-.

A rua tem base científica, se arrocha em enlatado se a ela acorre o barnabé da camisa de força, ou força sem camisa, que a própria ignorância não o faz necessário, apesar de universal.

Quem do arenoso de barro e alvenaria se fez criador ou mesmo criatura? Não se racionaliza aos opressores de si próprios, nunca conhecerão a rua, jamais. Que concessão havereis de dar aos ilustres domados pelo chapéu de telha ou de zinco, que ignoram o azul do dia ou as estrelas da noite?

Da geração dos HDs, os espinhos são teclados. Que saudade quando do universal era a água oxigenada dos conselhos a curar o que feriu pelo salgado das palavras, muito mais humano, necessariamente humano! Kant errou – o universal e necessário, em sendo ‘a priori’, obedece mais à ordem empírica que racional, não há equilíbrio suficiente para a representação do que ainda não é-.

A rua é soberana; nem sempre racional, mas universal e necessária para o que se apreende, representação inicial de ser infindo. Não adianta se do cheiro da naftalina acadêmica o jaleco não se libertar. O ganhar a rua como antibiótico a reagir sobre bactérias encardidas, que não prescindem do novo, com liberdade, a inspirar-lhe por renovadas inquietações.

Como bem asseverou João do Rio, ‘sem o consentimento da rua não passam os sábios, e os charlatões, que a lisonjeiam lhe resumem a banalidade, são da primeira ocasião desfeitos e soprados como bolas de sabão. A rua é a eterna imagem da ingenuidade… A rua faz as celebridades e as revoltas… É preciso ter espírito vagabundo, cheio de curiosidades malsãs e os nervos com um perpétuo desejo incompreensível… ’ (A Alma Encantadora das Ruas).

Essas engenhocas a produzir ‘Pokémon Go’ não conhecerão, ainda que nas esquinas o virtual se embola com a realidade,  a verdadeira rua. A esta se reserva o direito de seletividade. Quantos litros de cerveja e saliva a mais ter-se-ia se o virtual cedesse à liberdade? O sol e a lua, em estrelas resplandeceriam.

Tudo seria novidade, de novéis em novéis até nas universidades. Quantos cientistas se apaixonariam e deixariam de se preocupar com os exemplos de Gettier a desmascarar a tal Teoria Clássica do Conhecimento. Este seria algo mais simples que crença verdadeira justificada. Quem sabe somente ser e essência observada na dinâmica de tempo e espaço? Como a simplicidade faz falta!

E assim caminharia a humanidade, cantando, mas sem qualquer obrigação de licença a Lulu Santos e Geraldo Vandré.

É por aí…

 

GONÇALO ANTUNES DE BARROS NETO, magistrado e professor, escreve aos domingos em A Gazeta (email: [email protected]).

Sem comentários. Seja o primeiro a comentar

Assinar feed dos Comentários

Deixe seu Comentário

Seu endereço de email não será publicado.
Campos com * são obrigatórios.

um × dois =