Saito, inspirado em Sócrates, brada pela verdade da Justiça

Sócrates, o filósofo, e Saito, o magistrado

Sócrates, o filósofo, e Saito, o magistrado

Ainda que tardia

Por Gonçalo Antunes de Barros Neto – SAITO

Um poeta, sim, aquele a quem a natureza das coisas privilegiou por encampar a sensibilidade e o sonhar com intuição, e mais aliados ocasionais, acusa a um homem por perverter a outros, tão somente por ousar pensar e arguir.

Por não reconhecer os deuses do Estado, introduzir novas divindades e, especialmente, por ‘corromper a juventude’, Sócrates se fez soberano ao optar por se matar que aceitar tais acusações de Meleto, Anitos e Licão.

O relato do julgamento feito por Platão (428-348 a.C.), a Apologia de Sócrates, retrata um dos mais marcantes momentos da trágica comédia em que homens e mulheres se tornam ao misturar honra e retórica, verdade e mentira, realidade e sonho, ilusão e erro. Sócrates preferiu a glória.

Proclama Sócrates aos julgadores: ‘Não tenho outra ocupação senão a de vos persuadir a todos, tanto velhos como novos, de que cuideis menos de vossos corpos e de vossos bens do que da perfeição de vossas almas, e a vos dizer que a virtude não provém da riqueza, mas sim que é a virtude que traz a riqueza ou qualquer outra coisa útil aos homens, quer na vida pública quer na vida privada. Se, dizendo isso, eu estou a corromper a juventude, tanto pior; mas, se alguém afirmar que digo outra coisa, mente’ (Sócrates, Os Pensadores, Nova Cultural, 1996).

Não bajula e nem pede misericórdia, serenamente justifica-se: ‘Parece-me não ser justo rogar ao juiz e fazer-me absorver por meio de súplicas; é preciso esclarecê-lo e convencê-lo’.

Para Nelson Rodrigues, ‘Como é antigo o passado recente!’, e como é recente o passado antigo, completo. É uma sina perecer abraçado na própria ansiedade somada à dor da inquietação?

Se o inferno é os outros (Sartre), ou não, a dúvida reside tão somente naquele que compara.

Não se pode condenar à morte quem com vida, sublimou. Ainda que se tente, a história absolve. ‘Não morre aquele que deixou na terra a melodia de seu cântico na música de seus versos’ (Cora Coralina).

Quando é que o sistema de Justiça do país avançará para exigir de si próprio o elementar? E elementar é a verdade, e a verdade nem sempre está com a maioria, ainda que formada por propósitos intelectualmente e juridicamente honestos.

O Direito é uma ciência e, como tal, tem premissas objetivas e comprovadas por métodos aceitáveis. Não há argumento possível frente à injustiça, pois, esta é irmã gêmea do erro e da ignorância.

Ao ser lembrado por um amigo que morrerá no outro dia, sendo-lhe oferecida a hipótese de fuga, Sócrates respondeu: ‘a única coisa que importa é viver honestamente, sem cometer injustiças, nem mesmo em retribuição a uma injustiça recebida’.

É por aí…

 

GONÇALO ANTUNES DE BARROS NETO, professor e magistrado, escreve aos domingos em A Gazeta (email: [email protected]).

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