SAÍTO confessa que, ultimamente, tem se dedicado à “esquisitice” sociológica de observar as pessoas, as linguagens, os comportamentos, à busca de um melhor entendimento sobre as conquistas e os possíves e talvez inexistentes limites da liberdade de manifestação do pensamento

saito e o grito de alerta2Olhar com profundidade

POR GONÇALO ANTUNES DE BARROS NETO -SAÍTO

Ultimamente tenho desenvolvido uma curiosa “esquisitice” sociológica, a observação. Não seria uma simples olhadela ao redor, dessas usuais por aí. Tento ficar isolado num lugar, cheio, apenas contemplando. Pode ser numa palestra, num evento cultural, reunião de qualquer tipo, sempre olhando e enxergando. Nota-se, olhar é diferente de enxergar. Dali salta conceitos, teorias sobre comportamentos, linguagens, especiais modo de ser e encarar a vida, e por aí vai… É muito interessante essa prática.
Também tenho observado as postagens nas redes sociais e comentários em sites da internet. Portanto, de “corpo presente”, enxergo a alma humana, seu modo de ser, se relacionar, encarar os desafios do dia-a-dia. E pela tela do computador, a análise da real motivação de quem tira um tempinho de seu dia para dar uma “pitada” no assunto alheio; público, mas de interesse imediato de outrem.
Assistir a uma mãe arrastar seu filho pela rua, apressada, como quem acredita ter as infantes pernas o mesmo tamanho das suas, e, quase que instantaneamente, outra a acariciar seu rebento da forma mais sublime que se possa conceber, é de um diálogo produtivo fascinante para o intérprete. Ler a manifestação anônima a propagar seu sentimento em comentários nos sites de notícias, mesclando poesia e drama, amor e ódio, elixir e veneno, construção e desconstrução, também.
O governo brasileiro propôs para discussão no Congresso Nacional um marco civil regulatório das atividades nas redes sociais. As discussões só estão começando. E promete. As coisas não estão totalmente corretas, mas também não estão erradas. A Constituição do país proíbe o anonimato; por outro norte, é firme na defesa da liberdade (cultural, artística, jornalística, de manifestação e do pensamento). Até o senso comum se aperceber do inusitado e importância da proposta, o debate já vai ter andado a mais de léguas. Obama e seus espiões apressaram-no. Enquanto isso, o pensar em nadar na correnteza, contra ou a favor! Quem sabe o politicamente correto, do qual sou inimigo declarado, nos instiga a decidir. A inimizade serve para isso, tirar a todos que têm tal sorte da zona de conforto.
Mas a internet, bem ou mal, pode ser mudada até por decreto. E o comportamento das pessoas? Daquela mãe que a tudo arrasta na sua pressa de chegar? Do anonimato que só constrói intrigas e futricas? Do canibalismo insaciável da autofagia? Das maledicências ditas às escondidas? Essas são combatidas somente com postura moral, educação, tudo aliado à força da repressão penal em sendo descobertas. É o que sobra.
Em imperdível livro, “A Era dos Escândalos”, Mário Rosa contextualiza sobre a crise de imagem produzida pela imprensa: “Destruir a reputação da mídia não a fará melhor. Muito mais importante – e produtivo – é estudar as críticas, aprender com elas. E, na medida do possível, elevar o padrão de futuras coberturas jornalísticas, em nome do interesse público”. Até essa temos teóricos a indicar o caminho. Mas e as outras, passadas de boca em boca para ouvidos sibilinos e bem atentos? As de rodapé, anônimas, dos websites?
A dor de uma injustiça é terrivelmente destruidora. Relativizaram as calúnias, injúrias e difamações. Nem a quem responder se sabe. Muito mais lógico, e perfeito do ponto de vista social, são as críticas, ainda que pesadas, dos que assinam embaixo. De certo modo são amparadas moralmente, encampam a liberdade que se goza em tempos democráticos. O debate aberto, público, é sempre salutar. Continuarei observando, enxergando e procurando nos gestos das pessoas o paradigma humanitário. É por aí…

GONÇALO ANTUNES DE BARROS NETO – SAÍTO é Juiz de Direito e escreve aos domingos em A Gazeta
e-mail: [email protected]

6 Comentários

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  1. - IP 187.5.109.196 - Responder

    Puts, que falta de assunto, deve estar faltando serviço para esse povo ficar só pensando…

  2. - IP 177.193.173.55 - Responder

    Belo artigo. A liberdade é tema pululante nas reflexões individuais e coletivas da humanidade.
    Bom que assim proceda. Para julgar, e julgar “bem”, é preciso ser cultor do comportamento humano e dos conflitos sociais.

  3. - IP 200.101.25.194 - Responder

    “O anonimato nunca é generoso, e muitas vezes é uma indígena máscara que esconde a face abjeta da infâmia e da corrupção. O anonimato é irmão do pasquim.”
    (Joaquim Manuel de Macedo).

    “Monsieur l’abbé, je déteste ce que vous écrivez, mais je donnerai ma vie pour que vous puissiez continuer à écrire”. (VOLTAIRE. Oeuvres complètes de Voltaire: correspondance générale. v. 11. Paris: Chez Th. Desoer, 1817).
    “I disapprove of what you say, but I will defend to the death your right to say it”

  4. - IP 177.4.189.130 - Responder

    A Liberdade de expressão me contagia, o texto acima nos anima a refletir… A DOR DE UMA INJUSTIÇA É TERRIVELMENTE DESTRUIDORA… O homem olha julga e condena , Deus Olha Julga e Perdoa….

  5. - IP 177.4.189.130 - Responder

    Ronei Duarte , Parabéns pelo comentário…. poucas palavras já diz tudo….

  6. - IP 187.5.109.197 - Responder

    Parabéns Saito pelo ensaio, muito profundo e reflexivo!!!

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