PREFEITURA SANEAMENTO

SAÍTO, às vésperas de um novo Natal, nos recorda “que não é o nascimento de Jesus Cristo que nos leva às mais profundas reflexões existenciais, mas, sim, o que fizemos com Ele, morte como castigo e ressurreição como glória”

Gonçalo Antunes de Barros Neto, juiz de Direito em Cuiabá, Mato Grosso, conhecido pelos amigos como Saíto

Gonçalo Antunes de Barros Neto, juiz de Direito em Cuiabá, Mato Grosso, conhecido pelos amigos como Saíto

Nascimento é vida?

por GONÇALO ANTUNES DE BARROS NETO – SAÍTO

 

 

As comemorações pelo nascimento de Jesus se objetivam, ou deveriam, à reflexão sobre o papel missionário de cada um neste mundo pecador. O exemplo de Cristo bate mais fundo na consciência de todos, emergindo vibrações de puro encanto e amor. Ele vive mais ainda no Natal.

Mas não seria propriamente o Natal e suas implicações para a espiritualidade a razão deste artigo. Não é o nascimento o que me inquieta neste momento, mas a morte. Sim, a morte, nada mais nada menos que o encerramento de algo, capitulado frente à certeza. E quando se fala da morte, o apetite, tão comum na festa natalina, desaparece em meio ao luxo, ao conforto e à abundância.

Então, vejamos. Não é o nascimento do Nazareno que nos leva às mais profundas reflexões existenciais, mas, sim, o que fizemos com Ele, morte como castigo e ressurreição como glória. Fomos levados a vê para crê. Como a morte nos aponta o dedo em riste!… Sensação de impotência frente ao absoluto. Com ela se exerce a mais eficaz tirania, a sua lembrança nos assombra. Alguém já dizia que se é comunista até ter dinheiro, anarquista até se chegar ao poder e ateu até o instante derradeiro.

Nada mais interessante, nada mais realista e cruento, ao menos para boa parte da religiosidade e ideologia.

A certeza com que se reveste a morte, a espetacularização de sua incidência, deixa o moribundo mais vulnerável. Pior, revolta “o espetáculo de um ser humano impondo à nossa atenção suas cicatrizes e suas úlceras morais, e arrancando aquele pudico véu com que o tempo ou a indulgência para com a fragilidade humana tinham consentido em revesti-la” (Baudelaire – Paraísos Artificiais).

Sem adentrarmos no tema da vida após a morte ou mesmo se o que morre é apenas o corpo e não o espírito, o certo é que se nasce para morrer, num pragmático jogo sem razão aparente, e também sem alívio reconfortante. O que alivia são as várias interpretações existentes sobre as palavras do Cristo – as religiões-, levando Marx a apequená-las ao resumi-las como o ópio do povo. Parece sintomático, consumidas para criar resignação e felicidade. Afinal, não são felizes os que sofrem posto ser deles o reino do céu?

A enfermeira Bronnie Ware, segundo o jornal britânico “The Guardian”, ao ouvir pessoas antes do fatídico encontro com a morte, concluiu que o mais comum é que gostariam de ter tido a coragem de viver a vida que quisessem e não a vida que os outros esperavam que vivessem. Amar sempre e viver intensamente, independentemente do que seja o politicamente correto, como necessidade da morte suave, sem trauma de consciência. O existencialismo é confirmado, fazer o que achar que deve ser feito, sem amarras ou preconceitos.

Bom, queridos leitores, desejo a todos um feliz Natal, que ali se comemore a razão e a audácia, tão necessárias contra a ilusão dos incensos e o encanto dos dogmas. O exemplo de Jesus, creiamos todos, se repete na luta dos povos contra a opressão, o fanatismo e o politicamente correto; este, de singular hipocrisia social.
GONÇALO ANTUNES DE BARROS NETO – SAÍTO é Juiz de Direito e escreve aos domingos em A Gazeta
(e-mail: [email protected]).

1 Comentário

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  1. - IP 201.3.37.21 - Responder

    Brilhante mensagem natalina! Isso sim é ser CRISTÃO

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