RUDÁ RICCI: Temos que retomar o papel constitucional das forças militarizadas do país.

Ricci

 

Ameaça e poder paralelo armada

Por Rudá Ricci

Os anos 1980 foram marcados por greves de policiais militares em vários Estados. Emergiram lideranças que se lançaram na política e se elegeram deputados.

Foi uma década importante para a reação militar, embora tenhamos nos nossos registros que tenha sido o período de ascensão do poder civil no país.

Em 1987, Bolsonaro admitiu ter cometido atos de indisciplina e deslealdade para com os seus superiores no Exército. Quase foi expulso da corporação e amargou a rejeição de oficiais até sua candidatura à Presidência da República. Bolsonaro parece ter se tornado um dos personagens desta viragem de ideário. Em 1986, na seção ‘Ponto de Vista’ da revista Veja, publicou carta-queixa onde denunciava os baixos salários dos praças. No ano seguinte, a revista revelava plano para provocar explosões em quartéis.

Durante a década de 1990 que tivemos uma explosão de greves e motins nas PMS: Minas Gerais (1997), Pernambuco (1998), Alagoas (2000), Pernambuco-Tocantins-Bahia (2001), Ceará (2007), São Paulo (2008), Espírito Santo (2017) e, agora, Ceará. Tivemos dois levantes nacionais recentes: 2004 e 2012. Em 2017, uma lei sancionada pelo então presidente Michel Temer anistiou integrantes da segurança pública de diversos estados que realizaram paralisações.

É muito estranho como as forças militares brasileiras se fecharam num ideário meramente corporativo. Pensar que tivemos movimentos importantes como o tenentismo para chegar nisso.

Tivemos o famoso movimento tenentista, na década de 1920, que gerou uma pauta nacionalista desenvolvimentista (pela primeira vez, a reforma agrária surgia como agenda nacional) e catapultou Prestes.

Em agosto de 1961, após a renúncia do Presidente Jânio Quadros, sargentos da Aeronáutica (de Canoas) se levantaram para impedir seus comandantes de cumprirem as ordens superiores. Sabotaram aviões e postaram metralhadoras antiaéreas na pista, se alinhando à liderança de Brizola.

Nos anos 1960, tivemos levantes e movimentos de militares nacionalistas, mas, de fato, já esboçavam forte pauta corporativa. Lutavam, por exemplo, pelo direito a voto, ao ingresso na política. Talvez, esta tenha sido a senha da mudança.

Alguns podem argumentar que o Golpe Militar de 1964 alterou esta lógica. Contudo, 7,5 mil membros das Forças Armadas e bombeiros foram presos e torturados ou expulsos de suas corporações por oposição ao golpe.

Minha tese é que há relação entre o abandono de projetos estratégicos pelo corporativismo tacanho a partir dos anos 1980 e o aumento da truculência militar. Sinteticamente: a emergência do corporativismo militar se confunde com sua truculência e a formação da bancada de 304 parlamentares da Frente da Segurança Pública.

O avanço desta Frente vem sustentando propostas de aumento de poder dessas forças militarizadas. No Senado, foi aprovada a urgência do projeto que concede anistia aos policiais militares do Espírito Santo, Ceará e Minas Gerais que participaram de motins em 2011 e 2018. A expectativa é de que o texto seja votado depois do carnaval.

Este poder militarizado avança perigosamente no terreno da representação política, tendo o parlamento como seu bunker. Mais que isso: se insinuou, com Bolsonaro, para um terreno movediço, sem autocontrole, boquirroto.

Temos que retomar o papel constitucional das forças militarizadas do país. Nossos jovens não podem se formar num clima de ameaças. Nenhuma civilização perdurou sem diálogo ou sob tiranias.

Rudá Ricci é sociólogo

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