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ROBERTO BOAVENTURA e o conluio dos mediocres na Educação brasileira

Roberto Boaventura é professor de Literatura da UFMT, em Cuiabá

Conluio dos medíocres
por ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ    

Sempre que vejo a mídia expondo a falta de qualidade na educação, tento encontrar elemento novo para ajudar na explicação desse velho problema.

Encontrei!

Trata-se de uma ação que alia muita preguiça acadêmica e boa dose de mau caráter. Espero que meu “achado” sirva como denúncia. Mas antes de explicar isso, resumirei o conteúdo de duas matérias que mais uma vez recolocaram o problema do ensino no país.

Em 01/04, a Folha de SP destacou o resultado de uma pesquisa da ONG Todos pela Educação, mostrando que o “desempenho em matemática piora entre o 5º e o 9º ano… O percentual de estudantes com rendimento adequado cai de 22% para 12%”… O ensino da língua portuguesa também recua; todavia, menos: de 26% para 23%”.

O que o MEC disse sobre isso?

Que não é bem assim; que as “perspectivas são positivas”. Para essa afirmação lunática, o governo minimiza a importância daquela pesquisa e diz ter outras formas de avaliação.

Também no dia 01/04, o JN/Globo mostrou a dificuldade que empresas continuam tendo para encontrar estagiários universitários. Há casos em que vagas ficam ociosas por mais de ano. Erros grosseiros de ortografia – alguns expostos – expelem a maioria dos concorrentes.

Assim, resumidamente e com “pratos quentes”, a dimensão do problema está recolocada ao país.

De minha parte, em artigos anteriores, pontuei os problemas que já nos são conhecidos: baixos salários, condições precárias de trabalho e má formação acadêmica, advinda de práticas pedagógicas equivocadas.

Acontece que, também nesta semana, descobri (tardiamente) outro problema. Trata-se de um novo tipo de golpe contra a qualidade do ensino. Pasmem, mas esse golpe é aplicado por pessoas do povo contra as universidades públicas; claro que não sem o conhecimento e a conivência dessas.

Para falar desse golpe, apresentarei um exemplo.

Nos dois últimos períodos letivos, tive um acadêmico – aprovado pelo Enem 2009 (!) – visivelmente preguiçoso. O jovem sempre chegava atrasado às aulas e logo desistia da disciplina.

Nas avaliações que fez, nunca obteve mais do que a nota “um”. Seu desempenho em língua portuguesa assemelha-se ao de um péssimo aluno do 8º ano do fundamental, embora, em certa ocasião – para meu espanto – o acadêmico declarasse ser professor substituto de Língua Portuguesa em uma escola estadual em Cuiabá (!).

Assim, diante de sua atitude acadêmica, a “Reprovação por Média e Falta” era ato obrigatório.

Pois bem. Estranhamente, seu nome não consta em meu diário deste ano letivo (2012 ainda); e deveria. Fui verificar o motivo. Soube que o jovem periodicamente vem solicitando, junto à Coordenação do Curso, “Aproveitamento de Estudos” de várias disciplinas. Explico: ele também faz o curso de Letras, na modalidade “a distância”, desde 2008, em uma “universidade” do Paraná.

De posse da documentação do acadêmico, verifiquei um quadro interessante. Ele, eu repito, por preguiça acadêmica, não consegue ser aprovado em quase nenhuma das disciplinas de Língua Portuguesa e Literatura ofertadas por docentes da UFMT. Todavia, é aprovado em tudo o que “faz” – a distância – na instituição particular. Melhor: suas notas são de matar de ódio quem estuda de verdade na Federal.

Detalhe: esse acadêmico, tão medíocre quanto mau caráter, não é o único que vem fazendo isso. A UFMT, em tais casos, apenas chancela um diploma.

É desolador trabalhar assim, caro leitor.

De sua parte, a sociedade – carente de bons professores, base para as outras profissões – precisa tomar consciência de que, de golpe em golpe, ainda tomará o golpe fatal.

*ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ – dr. Jornalismo/USP; prof. de Literatura/UFMT. Este artigo foi publicado, originalmente, no Diário de Cuiabá.

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