Relendo uma entrevista, para manter viva a memória de Marshall Berman, um dos mais provocativos intelectuais marxistas do pós-guerra nos Estados Unidos

Marshall Berman: 1940 – 2013

[ Marshall Berman, Revista Pittacos, FSP]

Nine eleven, como os americanos gostam de designar a data mais importante da história daquele país neste curto século vinte e um, é para tantos democratas de esquerda na América Latina o dia de recordar a morte de Salvador Allende, ocorrida há quarenta anos. Ontem, nine eleven se tornou motivo para recordar a morte de outro democrata de esquerda. Faleceu ontem Marshall Berman, um dos mais provocativos intelectuais marxistas do pós-guerra nos Estados Unidos. Marshall terá obituários por todos os cantos da rede – esperamos que honrem sua biografia com palavras tão dóceis e sinceras quanto seu espírito.

Aqui, recordamos o Marshall que aprendeu a amar o Brasil, que tantas vezes visitou. Aqui, virou pop, com um livro que virou pop em todo o mundo, Tudo que é sólido desmancha no ar. Esquecido ficou outro livro seu, nunca traduzido para o português. The politics of authenticity: radical individualism and the emergence of modern society, publicado em 1970, um ano antes da publicação deJean-Jacques Rousseau: la transparence et l’obstacle (Jean Starobinski), é um livro sobre seu segundo autor predileto (depois de Marx, é claro). Propunha Marshall que fosse a autenticidade, não a transparência, a chave para abrir o pensamento de Rousseau. No lugar do interesse que move o individualismo burguês, um expressionismo ético determinado pela descoberta de si mesmo.

Era este mote que movia Marshall. E foi com esses olhos que ele encontrou, e em muitos fragmentos, interpretou o Brasil. Na entrevista re-publicada integralmente aqui, originalmente concedida à Folha de São Paulo em Agosto de 2009, Marshall interpreta paisagens urbanas, a nossa e a dele.

Os Editores da Revista Pittacos

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O urbanista das multidões

Marshall Berman comenta seu novo livro, que mostra a Times Square como modelo de convivência na cidade

Mark Lennihan – 1º.jan.1999/ Associated Press

FOLHA – Ainda acha que Brasília é um mau exemplo de modernidade?

MARSHALL BERMAN – Com certeza. Quando ouvi falar pela primeira vez da cidade, pareceu-me que havia grande coisa lá. Mas os moradores viram que era um desastre levar a vida em uma cidade cujos segmentos não interagem.
Se, ao sair do trabalho, você quisesse se reunir com alguém para tomar um café, precisaria tomar um ônibus para outra parte da cidade. Pareceu-me uma coisa perversa, pois, na maioria das vezes, as pessoas não acham que vale a pena.
Brasília é construída de modo a evitar que as pessoas se encontrem. Perde-se muito do excitante, do especial da vida moderna. Ironicamente, a América Latina começa com algo como o modelo espanhol de urbanismo, as cidades construídas ao redor da “plaza mayor”.
Em Brasília, Niemeyer [que organizou o concurso para escolha do Plano Piloto, vencido por Lucio Costa] não queria funis aonde todos confluíssem. É importante ver o que isso tem de antidemocrático.

FOLHA – Projetos “extremos”, como o de Brasília, são uma coisa do século 20 ou ainda há demanda?

BERMAN – Será que Brasília era apropriada mesmo para os tempos de ontem? Só se você aceitar o modelo de Luís 14 em Versalhes, de o governo manter distância do povo. Luís 14 era um dos heróis de Le Corbusier. Para Niemeyer, seguidor de Le Corbusier e de Stálin, esse estilo de autocracia fazia sentido. Quando as pessoas exigem democracia (e cada vez mais povos fazem isso no mundo), querem o governo a seu alcance.

FOLHA – A Times Square é o melhor exemplo de modernidade?

BERMAN – Pelo menos um exemplo muito bom. Há outros, como a Picadilly, em Londres, e o que costumava ser a Potsdamer Platz, em Berlim -exceto porque esta foi destruída por bombardeios [na Segunda Guerra Mundial] e o que se construiu depois é muito mais parecido com Brasília.
Um dos temas centrais das cidades do século 19 era a multidão. Uma forma de planejamento urbano e de teoria social foi tentar “descongestionar” as cidades ou, em vez de cidades, investir em subúrbios. Dissolver a multidão significa de certa forma separar as pessoas. Juntas, elas têm potencial de ação e de serem algo diferente do que eram; uma forma de controle é espalhar as pessoas.
Poderíamos dizer que Brasília é a cidade de ontem, enquanto Curitiba [por seu sistema de transporte público] é a cidade de amanhã. Uma das coisas que amo na Times Square é que se trata de um espaço onde todos colidem. É uma das melhores coisas que podemos ter na modernidade -alguns dos problemas crônicos da modernidade são a automatização, a solidão.

FOLHA – Em São Paulo, Rio e Brasília, as pessoas compram um carro assim que podem para deixar de depender do transporte público. Em Manhattan, as pessoas caminham ou tomam o metrô. Como isso nos afeta culturalmente?

BERMAN – Há uma tremenda pressão para se evitar a multidão, a ponto de fazer as cidades menos democráticas. Na Times Square, as pessoas podem “conferir” umas as outras.
Já nas cidades do “cinturão do sol” é assim: o centro é vazio ou praticamente não existe. Houston [Texas] tem uma demografia bem complicada, nada diferente de Nova York, só que em Nova York ela está na rua, você a vê na rua. Em Houston, as vizinhanças são segregadas, só vemos quão multicultural é a cidade ao vermos as pessoas em seus carros na rodovia.
Pensamos “que fascinante! Filipinos!” ou “Olha, coreanos”. Mas não há lugar onde essas pessoas se reúnam. Alguns pensam que isso é um triunfo do planejamento urbano. Estive lá nos anos 90 e vi anúncios de novos edifícios de escritórios que diziam: “Você não precisará mais pôr os pés em Houston”. Iria do seu subúrbio para uma rodovia, para uma garagem subterrânea, fazer compras num shopping.

FOLHA – Em São Paulo, os cartazes gigantes foram banidos como poluição visual, mas houve quem dissesse que perdemos uma forma de arte. Qual é sua opinião?

BERMAN – Não vi isso, mas sinto que seja um desastre. Os cartazes gigantes e a publicidade do século 20 criaram uma atmosfera de “pop art” que, em muitas partes do mundo, é magnífica. Pessoas vão à Times Square só para ver luzes. Banir isso parece uma reviravolta: as ideologias modernas vêm da cidade e se voltam contra ela.
Entendo a ideia de ter um zoneamento para os cartazes gigantes, diferentemente de bani-los completamente, o que é um ferimento autoinfligido -afeta uma razão para querermos estar na cidade. Mas não conheço muito sua cidade.

FOLHA – É uma cidade frequentemente comparada a Nova York…

BERMAN – O Rio tem muito em comum com Nova York, no sentido de que o sistema de ruas é decifrável, dá para viver lá sem um carro. Nesse sentido, Nova York também é mais europeia que qualquer outra cidade norte-americana.

FOLHA – Como chamaria a oposição entre a Manhattan “romântica” do livro e os subúrbios compartimentados dos EUA? Paradoxo, contradição ou complementaridade?

BERMAN – Acho que são coisas complementares, sim, mas isso não foi adequadamente compreendido até os anos 1970, numa época em que Nova York estava em dificuldades financeiras. Depois da Segunda Guerra Mundial, as cidades dependiam de dinheiro federal. Quando o governo Nixon [1969-74] “puxou a tomada”, foi um desastre para Nova York.
As pessoas começaram a se perguntar: “o que esta cidade tem a oferecer?” Uma das coisas era que oferecia espaço para todos -a Times Square é o arquétipo do “espaço para todos”.
Um dos primeiros grandes sucessos da gravadora Motown foi “Dancing in the Street” [Dançando na Rua]. Fizeram um vídeo meio primitivo, com pessoas dançando no centro de cidades americanas. Só que era difícil achar centros -o sistema federal de rodovias os havia destruído. Nova York era notável por ter mantido seu centro mais ou menos intacto.

FOLHA – E em que a Times Square é diferente da própria Nova York?

BERMAN – É uma supercidade: toma características que existem por toda a cidade e as concentra, mistura, criando um enorme espetáculo.
Durante a crise fiscal, houve anos de abuso contra Nova York, a mídia contra ela. A cidade já era um centro de “showbiz”, mas precisava de ajuda federal para manter a infraestrutura e os serviços públicos.
O clímax foi quando Gerald Ford, o presidente que sucedeu Nixon, disse que vetaria um empréstimo porque o destino da cidade não era do interesse do povo norte-americano. Mas as pessoas acabaram entendendo que as atrações de Nova York não eram só interessantes, mas também economicamente vitais; que as luzes brilhantes traziam dinheiro.

FOLHA – A Times Square virou um símbolo do triunfo do capitalismo?

BERMAN – Um símbolo de como o capitalismo pode criar um espaço divertido e excitante, que pode ser aproveitado mesmo sem capital -milhares de pessoas todos os dias apenas pegam o metrô e vão até lá. Meus pais faziam isso. As pessoas apenas querem ir lá e se deixar levar pelas luzes.

FOLHA – O que a crise econômica ensina sobre o capitalismo moderno e espetáculos caros como a Times Square?

BERMAN – Não acho que a Times Square seja cara -usa transporte público e a energia usada lá não é nada comparada ao que gastamos em nossos elaborados sistemas de computador. E não se destina aos super-ricos -eles não querem estar com milhões de pessoas.

FOLHA – O sr. lista dois princípios: o do “direito à cidade” e o de que “cidades são vulneráveis”. O sr. se importa com a vida em comunidade…

BERMAN – Jane Jacobs [1916-2006], autora de “Morte e Vida de Grandes Cidades”, descreve os acontecimentos da vida comum, como num romance realista. Foi muito influente, mas só falou da vizinhança comum. Não há lugares como a Times Square -não que ela os condene. Tentei no livro algo como a literatura dela, mostrar que esse espetáculo é interessante como as comunidades dela.

FOLHA – Então a solidão é seu pior inimigo?

BERMAN – Não sei. Talvez o concreto seja meu pior inimigo.

[N.E] link original da entrevistahttp://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs0208200921.htm

Abaixo alguns links de textos seus recentes publicados pela Dissent Magazine (no original em Inglês)

In Poland, Followed by Shadows (June 18, 2012)

Tearing Away the Veils: The Communist Manifesto (May 6, 2011)

Orhan Pamuk and Modernist Liberalism (Fall 2009)

A Times Square for the New Millennium: Life on the Cleaned-up Boulevard (Fall 2006)

Blue Jay Way (Winter 2000)

Ruins and Reform: New York Yesterday and Today (Fall 1987)

http://www.dissentmagazine.org/blog/marshall-berman-1940-2013?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=marshall-berman-1940-2013

bnrBerman

fonte REVISTA PITTACOS
Categorias:Quebra Torto

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