As reflexões de SAÍTO, magistrado e cronista cuiabano, que propõe que se discuta, e com profundidade, o espírito burguês, citando os poetas Cazuza e Baudelaire

Gonçalo Antunes de Barros Neto, o Saíto (à esquerda), magistrado e cronista cuiabano, com o poeta brasileiro Cazuza e o poeta francês Charles Baudelaire (a partir da direita)

Gonçalo Antunes de Barros Neto, o Saíto (à direita), magistrado e cronista cuiabano, com o poeta brasileiro Cazuza e o poeta francês Charles Baudelaire (a partir da esquerda)

A burguesia cheirosa

Por GONÇALO ANTUNES DE BARROS NETO – SAÍTO

 

Não se nega o talento. Não se discute as diferenças naturais que nos fazem merecedores e nos diferenciam. E muito menos a riqueza. Nada disso. O que se deve discutir, e com profundidade, é o espírito burguês.

A objetividade com que alguns levam a vida causa desconforto. Não há espaço para a contemplação e nem para a reflexão. Se estiver certo na minha preferencial, por que dá lugar a pedestres? Se o meu salário é suficiente, por que preocupar com os miseráveis? Se tiver saúde e recursos para pagar por um atendimento médico de excelência, por que me preocupar com o SUS?

O espírito burguês age com objetividade, praticidade. Se tiver, posso. Se pensar dessa forma, existo; então, sou. Descartes é de outro mundo; com ele não sou, não existo, somente vegeto. O pensamento reflexivo seria algo como panaceia para eruditos, não para o pragmatismo de quem é somente na forma, e não em essência.

A burguesia não repara, não solidariza. ‘A burguesia fede. A burguesia quer ficar rica. Enquanto houver burguesia, não vai haver poesia’. Cazuza, em versos cantados, satiriza, e vaticina – vamos acabar com a burguesia-. Recria o ‘bom’ burguês, na esmola do vintém. A burguesia dá ‘dindim’, o que basta, se se ganha o reino dos céus. E assim caminha em colossais vestes cheiradas a jasmim, como anjos em roupas regadas a sabão em pó, e muito sabão em pó por uma brancura redentora. Senão, não.

É um tanto engraçado a cena cotidiana, basta observar. Homens e mulheres, bem vestidos, ornados por cabelereiros dos mais caros, que faz da cabeça uma boa base a expor sua arte, e da base nada se engraxa, como a ferramenta enferrujada e facilmente descartável, num intrigante momento de arrotos críticos – nada vai bem no Brasil, a segurança está falida, o bolsa família é destinado para quem não quer trabalhar, os impostos são absurdos etc-. A criminalidade alta, a de sonegação, ninguém fala, aliás, para ela se tem até uma causa especial de extinção de punibilidade pelo pagamento. O mover-se pela boca não é acompanhado pelo corpo, seria, por assim dizer, democraticamente sadio discutir esses assuntos, em mobilizações e passeatas, mas é preciso ação, e, nesta, o espírito burguês não se aventura, prefere o ‘status quo’.

Como afirmou Baudelare, em sintomática autoanálise, ‘Aquele que puder recorrer a um veneno para pensar, em breve não poderá mais pensar sem veneno’. O pensamento deve ser regado com boas ideias, para que a prática, como efeito, seja boa. Se as premissas que carrego como verdadeiras não passarem por uma maior análise, equidistante dos valores até então aceitos como válidos, nada se resolverá. Estar-se-ia a caminhar sem compromisso moral com a solidariedade.

A ninguém é dado o privilégio de ser enterrado na vertical. Aqui somos todos iguais e com o mesmo destino. Façamos da horizontalidade do corpo inerte o símbolo que nos apoquenta, e que também iguala. Que o espírito burguês, que distingue entre havaianas e sândalos, entre pedras e esmeraldas, não tenha vazão em nossos sentimentos. A beleza e a riqueza estão na essência e não na forma. Afinal, estamos todos nus e descalços. É por aí…

 

GONÇALO ANTUNES DE BARROS NETO – SAÍTO, magistrado e professor,  escreve aos domingos em A Gazeta (email: [email protected]).

 

 

 

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