RAFAEL LEAL, ESTUDANTE: A sua esquerda morreu, filósofo Safatle

Vladimir Safatle, filósofo da USP

A sua esquerda morreu, Safatle

Por Rafael Leal

 
Seria de uma pretensão muito grande um mero estudante de ciências sociais e militante político questionar um renomado filósofo da USP? Seria e de fato é. Porém
o artigo que Safatle escreveu para o jornal El Pais, intitulado “Como a esquerda brasileira morreu”, é de um desastre teórico e, principalmente, político, que todo e qualquer sujeito imerso na luta política atual, identificado com a esquerda e com a luta anti-imperialista deveria apresentar contrapontos. Seguindo essa premissa, apresentarei os meus.

Em resumo Safatle chega a conclusão que a esquerda morreu, seguindo o seguinte raciocínio. Para ele a esquerda brasileira só sabe operar na chave do que ele chama de “populismo de esquerda”. Como finalmente a direita conseguiu produzir um líder capaz de incorporar o povo, a esquerda ficou atordoada por ver sua tática política central ser ocupada pela direita.

É trivial a afirmar que a categoria de “populismo” sempre foi utilizada pela sociologia dominante no Brasil para designar pejorativamente qualquer experiência de governos populares e de esquerda no mundo. Isso o Jessé de Souza já analisa com brilhantismo. Safatle repercute essa mesma visão quase preconceituosa da sociologia dominante, e consequentemente das classe dominantes, sobre o “populismo”. Porém, o foco deste texto é dialogar com sua crítica mais contundente ao que ele vai chamar de caráter nacionalista do populismo de esquerda. Em um momento ele diz:

“No entanto, o caráter nacionalista do populismo permite também a inclusão de setores descontentes da oligarquia, grupos da burguesia nacional dispostos a ter um papel “mais ativo” nas dinâmicas de globalização. Assim, o “povo”, neste caso, nasce como uma monstruosa entidade meio burguesia, meio proletariado. Uma mistura de JBS Friboi com MST.”

Diferente das intuições de Marx, as grandes revoluções transformadoras do século XX aconteceram nos países em que as forças produtivas eram pouco desenvolvidas, e tinham a questão nacional ocupando espaço central na agenda revolucionária. Foi assim na revolução Chinesa, Revolução Cubana, Vietnamita, Coreana, nas revoluções de libertação da África e Oriente Médio, na própria revolução Russa e em todos os processos progressistas da América Latina no século XXI. Todas elas mobilizaram o povo, através da figura de um líder, em batalhas de libertação nacional heroicas.

Não se pretende discutir os resultados de cada experiência, mas sim evidenciar que na periferia do capitalismo, – que sofreu com a colonização e hoje sofre com a tentativa de neo-colonização imperialista- não há luta mais central do que a luta pela afirmação da soberania nacional. Esta é a grande contradição dos países da periferia do capitalismo, a exploração imperialista. E para enfrentá-la não há outro caminho senão o de uma luta por libertação nacional que pressupõe mobilizar amplos setores em torno de uma agenda nacional. É preciso utilizar todas as armas contra o inimigo imperialista, inclusive as contradições que a burguesia nacional tenha com ele, mesmo que essas alianças sejam provisórias. É o próprio curso da luta política que irá nos impor as alianças táticas com o que o Safatle chama de oligarquias locais, foi assim em todos processos revolucionários.

Pode-se abrir um grande flanco de discussão se existem outras táticas possíveis à esquerda. Porém, os exemplos históricos, um estudo profundo da Formação Social e econômica do Brasil e uma leitura apurada de conjuntura, apontam na direção da impossibilidade de na periferia do capitalismo surgirem processos transformadores que não tenham como centro a questão nacional e anticolonial.

Não se pode também confundir a falta de visão estratégica na condução política destes processos que alguns setores tiveram nas experiências recentes da América Latina, com a falência desta tática. A revolução de libertação nacional da China elevou um país semifeudal à segunda potência mundial capaz de enfrentar de igual para igual o imperialismo ocidental. Sobre a liderança do partido comunista a China segue fazendo exatamente o que Safatle desqualifica, como sendo a “criação” de “uma entidade meio burguesa, meio proletária”, mobilizando a nação em torno da soberania e desenvolvimento.

Penso que o grande problema foi justamente o contrário, que isto é o abandono da questão nacional pela esquerda brasileira. Quando passamos a adotar uma tática política de ressaltar identidades difusas e não realizar uma disputa simbólica do sentido da questão nacional sobre o que é povo brasileiro, entregamos a bandeira do nacionalismo na mão da extrema-direita. Em outro texto escrevemos sobre como o filme Bacurau é uma crítica a esta tática de anular a questão nacional da nossa agenda e apostar em agendas dispersas.

Efetuamos um Ctrl c v em teorias e táticas de movimentos sociais norte-americanos acriticamente. Veja, por exemplo, uma dimensão extremamente importante na formação do povo brasileiro: a questão racial. É pertinente a crítica ao processo de miscigenação no Brasil, que foi violento, autoritário, patriarcal e colonial. Mas resultou, contraditoriamente, no nascimento de um povo com características únicas e potencialidades enormes. Sem levar isso em consideração acabamos criando uma imagem negativa do nosso próprio povo, pois ficamos presos na antítese e esquecemos a síntese. Nós paramos na denúncia e incorporamos táticas e teorias do movimento negro norte-americano para uma terra de profunda miscigenação étnica e cultural. O resultado foi a ausência de uma síntese capaz de disputar uma nova identidade nacional abrindo caminho para a direita impor sua visão patriarcal, colonial e autoritária sobre o povo brasileiro.

Muitos de nós consumimos autores norte-americanos e nem sequer lemos os nossos, como disse a própria Angela Davis em palestra no Brasil. Somos colonizados culturalmente, e o texto de Safatle dá mais uma prova disso. Um texto colonizado pela “esquerda ausente” como cunhou brilhantemente Domenico Losurdo se referindo à esquerda ausente da questão nacional e anti-imperialista. Se existe uma esquerda que morreu, foi essa. Mas prefiro dizer como Losurdo, que ela simplesmente se encontra ausente, isso para não cair nos mesmo erros de alguns que, após a queda do muro de Berlim, chegaram a dizer que a história tinha acabado, e viram o século XXI e a própria história dar conta de colocar na lata de lixo essas teorias.

No mais, a nossa esquerda continua viva. Enfrentamos um processo de profunda defensiva tática e estratégica, mas estamos vivos e temos motivo para ter esperança. A China, conduzida pelo Partido Comunista, se desponta como grande potência tirando milhões de homens e mulheres da miséria e ameaçando a hegemonia imperialista. Vencemos as difíceis eleições na Argentina e no México e vemos a brava resistência do povo cubano, venezuelano e boliviano. Semana passada estivemos numa reunião com Evo Morales e ele é exatamente um tipo de líder que Safatle chama da esquerda falecida. Com muito entusiasmo e uma capacidade enorme de liderar e mobilizar seu povo, Evo e seu partido podem reverter o golpe imperialista e fascista e voltar ao poder. Será que vai ser chamado de populista de esquerda pelos filósofos acadêmicos de plantão?

Quando Safatle diz que “houve época que a esquerda, mesmo governando apenas municípios, conseguia obrigar o país a discutir pautas sobre políticas sociais inovadoras, partilha de poder e modificação de processos produtivos. Não há sequer sobre disto agora”, acredito que ele só esteja olhando para o sul e sudeste. Aqui no Brasil, Flávio Dino governa o Maranhão e apresenta uma agenda política, social e econômica para o país, inovadora e com políticas sociais, tendo como centro a educação e a todo momento polarizando com Bolsonaro. A pequena revolução que os comunistas levam pra lá trata de colocar por terra mais este argumento de Safatle.

Além disso, Dino se desponta no cenário geral como uma liderança capaz de apresentar uma agenda nacional e mobilizar amplos setores contra a barbárie fascista, entreguista e antipovo de Bolsonaro. De fato passamos por uma defensiva tática e estratégica, mas se a esquerda não se ausentar da luta anti-imperialista e nacional podemos reverter este cenário. Talvez a esquerda de Safatle tenha morrido, mas tenho certeza que a esquerda que liderou os grandes processos de transformação social continua viva.

Rafael Leal é estudante de Ciências Sociais da PUC – Minas e diretor de Formação Política e Relações Internacionais da UJS-Brasil. Artigo publicado originalmente na Carta Maior

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