Lúdio, candidato do PT, quer reverter privatização

Para Lúdio, só retomada da Sanecap não basta. Com ele, a prefeitura vai acabar com terceirizações na Saúde e criar empresa  de transporte coletivo

Lúdio Cabral será aclamado neste domingo, dia 10 de junho, candidato do Partido dos Trabalhadores à Prefeitura de Cuiabá, em Encontro de Delegados do PT que acontece pela manhã no Centro Cultural da UFMT.  Depois dois mandatos de vereador, ele assume a candidatura com a certeza de que ela também marca uma retomada do protagonismo político pelo partido da presidente Dilma Roussef em Mato Grossoo, já apontando para o lançamento que um candidato a governador petista em 2014. Adversário mais ferrenho das administrações de Wilson Santos e Chico Galindo, dentro da Câmara de Cuiabá, Lúdio acena com uma reviravolta completa na ação da prefeitura, a começar pela proposta de reestatização da Sanecap,  pela criação de uma empresa pública de transporte coletivo  e pelo encerramento dos contratos de terceirização atualmente vigentes no setor de Saúde.  “Com o PT no governo, a prefeitura vai retomar suas funções e garantir os serviços essenciais de que a população precisa”, anuncia Lúdio. Confira os principais trechos da entrevista.

ENOCK CAVALCANTI

CENTRO OESTE POPULAR

CENTRO OESTE POPULAR – Depois que as eleições em 2008 e 2010 aconteceram sem uma candidatura do PT, é pra valer essa candidatura que o PT anuncia, neste ano? LÚDIO CABRAL – Na verdade, a impressão que passa é que alguns partidos  não querem que o PT tenha candidato e querem aproveitar-se do patrimônio político, histórico, e eleitoral comandado pelo PT nos seus 32 anos de vida, de construção de um país com mudanças estruturais como temos observado com Lula e  Dilma. O PT, nas eleições de 2012, irá retomar o protagonismo,  a partir da nossa capital. Um partido que, em sete anos e meio, foi o único que fez oposição sistemática e propositiva ao modelo de administração que temos em Cuiabá, calçado no neoliberalismo; partido que tem a preferência de um terço do eleitorado brasileiro; partido que tem uma presidenta em Cuiabá com 88% de aprovação popular, esse partido tem todas as condições de se apresentar para a disputa com um programa propositivo de mudança da realidade, disputar as eleições e dar essa oportunidade à população para que  possa, num rol de várias candidaturas, ter uma candidatura de esquerda para escolher.

COP –  O processo de disputas internas que acontece no PT, a população muitas vezes não entende. As correntes internas estão pacificadas e compreendendo a importante desta retomada que o senhor apregoa? LÚDIO CABRAL –  Essa talvez seja outra contribuição que a presença do PT nas eleições poderá trazer,  que é a reconstrução da unidade interna do partido, a partir do fato de eu ter, hoje, apoiando a minha candidatura, correntes que representam a diversidade do PT, como a corrente O Trabalho, a Esquerda Marxista, trotskistas com conteúdo ideológico muito forte; de ter o apoio de militantes históricos que estão no coletivo Identidade Petista, de ter o apoio de militantes  em muitas comunidades, nas universidades, de ter o apoio da CNB (Construindo um Novo Brasil) que é a corrente majoritária  do PT, que dirige o PT nacionalmente; de agregar o apoio da Militância Socialista. Tudo isso nos aproxima de um cenário de repactuação da unidade interna, com reflexos  no PT todo o Estado.

COP –  Existe a possibilidade do PT forjar uma coligação forte, nessa retomada? LUDIO CABRAL – Estamos nos preparando para todos os cenários. Hoje há um quadro  bastante indefinido em que o PT é o único partido que já tem uma candidatura. O PT tem uma democracia interna de muita radicalidade, ou seja, os filiados na base é que dão a orientação para as direções. Nós já tivemos uma eleição de delegados para qual foram convocados todos filiados, três chapas se apresentaram. No nosso caso, foram 5 coletivos unidos defendendo a candidatura própria e o meu nome a prefeito. A Militância Socialista, da ex-vereadora Enelinda Scala defendendo candidatura própria mas ainda não apontando nome. A Articulação de Esquerda, onde está a ex-senadora Serys, defendendo aliança ou candidatura própria. Obtivemos quase 75% dos votos nesse processo. Depois  fomos para um encontro em que os 185 delegados aprovaram a candidatura própria. Depois se abriu um prazo para inscrição de pré-candidaturas a prefeito. Houve um momento em que tivemos duas pré-candidaturas; caso se  mantivessem as duas teríamos nova consulta a todos os filiados e, agora, no dia 10, voltamos ao Encontro de Delegados para fazer uma avaliação do quadro político e homologar aquilo que já havia sido aprovado na consulta dos filiados, que é a candidatura própria. Em todas as cidades aonde tem segundo turno, a direção nacional do PT irá homologar o processo de decisão local, ou seja, verificar o cumprimento de todas as etapas, a obediência a todas as regras e nós já estamos numa agenda de dialogo com outros partidos, com o objetivo de compor um arco de aliança que tenha densidade programática e capacidade de ampliar nossa base eleitoral. Já fizemos uma agenda com duas reuniões com o PDT, primeiro com o senador Pedro Taques, depois com o presidente do diretório municipal, Kamil Fares;  nos reunimos com a direção do PC do B e com a direção do partido Pátria Livre , que é um partido novo que nasceu há um ano. Tudo isso com o objetivo de construir um arco de aliança que dê sustentação à proposta programática que defenderemos nessa eleição.

COP – E essa ameaça, tão propalada, de que sua candidatura tenha que ser retirada, atendendo a uma orientação do Lula, para garantir o apoio do PSB ao ex-ministro Haddad, como candidato em São Paulo? LÚDIO CABRAL – Infelizmente, sofremos uma especulação muito forte, na mídia, em torno dessa possibilidade. Existe já um posicionamento  político da direção nacional do PT em referendar aquilo que, na obediência ao calendário eleitoral, estamos cumprindo em Cuiabá que é referendar a candidatura própria e referendar o meu nome. O fato é que o PSB, por exemplo, é um dos partidos indefinidos hoje, em Cuiabá, tem um candidato que hora é candidato, hora não é. Houve uma tentativa de articulação, no inicio do ano, através de uma parcela do PT, mas que não teve desdobramento pratico porque, se essa proposta existisse internamente no PT, deveria ter sido apresentada para que os filiados analisassem, nesse processo de escolha que detalhei, e isso não aconteceu. Portanto, a oportunidade que tanto o PSB ou qualquer outro partido teria de buscar o apoio do PT foi superada durante o processo de escolha das teses pela base do partido. O caminho referendado por 100% do partido é o caminho da candidatura própria.

COP – O senhor fala numa proposta de mudança radical na gestão de Cuiabá. Como é que se manifestará esta radicalidade? LÚDIO CABRAL – O atual modelo de administração de Cuiabá é o suprassumo do neoliberalismo. É um governo que só sabe aumentar o imposto, demitir e precarizar a relação com os servidores públicos; subtrair dinheiro à população em serviços que são essenciais do município e ir vendendo patrimônio público para, supostamente, fazer caixa para o município. Esse modelo precisa ser superado e a população de Cuiabá não quer saber disso.

COP – O senhor confirma que pretende reestatizar a Sanecap, caso eleito? LUDIO CABRAL – Essa é uma posição já aprovada no PT, que constará do nosso programa de governo e debateremos abertamente ao longo da campanha, dizendo, claramente, que, a população nos dando essa oportunidade de governar Cuiabá, o primeiro ato da nossa administração será a retomada dos serviços de saneamento.  Faremos isso porque já basta todo o prejuízo que a nossa cidade tomou e hoje ainda sofre com uma precariedade sem precedentes, sofre com todos os desmandos que tivemos de aparelhamento político- partidário da empresa, de loteamento de todos os cargos de comando da companhia, do prejuízo com a perda dos recursos do PAC, mais de 300 milhões que poderiam ser investidos em saneamento desde 2007. A maioria  dos problemas que estamos tendo estariam superados com esses recursos e com a possibilidade de obter outros investimentos do Governo Federal. O próprio faturamento com os serviços de abastecimento de água e de esgoto, em Cuiabá,  em 2011, movimentaram R$ 100 milhões e tem potencial para dobrar, se houver gestão competente, sem que aja aumento de um real na fatura paga pela população. A Sanecap tem de ser um patrimônio coletivo da cidade, uma grande empresa na área de saneamento para competir com as grandes empresas, todas estatais, que existem em nosso país, a exemplo da CAESB do Distrito Federal, da companhia de Minas Gerais, da Sabesp, que são estatais e oferecem uma alta qualidade de serviços.

COP – Exatamente hoje, terça-feira, 5 de junho, a maioria dos vereadores parece que passou a dar razão ao senhor e divulgou nota de repúdio à CAB Ambiental. LUDIO CABRAL – Eu apresentei um requerimento convocando a direção da CAB e da agencia reguladora para que, no plenário, prestassem depoimento sobre os problemas que se agravaram depois que  assumiram os serviços de água. Bairros onde nunca faltou água, tá faltando água hoje, fora o aumento absurdo de taxas, com a religação aumentando de 30  para mais de 300 reais, a cobrança até da emissão de reaviso de conta, o aumento de taxas sem respaldo legal. A maioria dos vereadores que dão sustentação ao prefeito optou por convidar a direção da CAB a ir à sala da presidência da Câmara para um encontro reservado de que fiz questão de não participar e me impressionei com o resultado desse encontro porque o diretor da CAB disse explicitamente, que teria comprado,  pagado e faria o que quisesse do saneamento em Cuiabá. Houve uma reação dos vereadores que sustentam o prefeito, já percebendo o que pode estar diante de nós, que é um cenário aonde a ganância e a busca do lucro financeiro sacrifique de forma pesada a população.

COP – Além da Sanecap, o seu governo avançaria para estabelecer o controle da prefeitura em que outros setores? LUDIO CABRAL – Na área do transporte, a proposta é criar uma empresa municipal para operar até o final de 2013, 20% das linhas de ônibus, para estabelecer uma regulação e  competição com as concessionárias privadas  da mesma forma como foi feito em Porto Alegre, no final da década de 80, quando Olívio Dutra assumiu a prefeitura. Você cria a empresa,  oferece serviços de qualidade nas linhas que a empresa opera e tem condição de medir a quantidade de pessoas que utilizam o transporte, os custos desse serviço, pressiona a concessionária privada para oferecer serviços com a mesma qualidade e cria condições de regular todas as concessões.. O que vemos em Cuiabá, hoje, é que apenas três empresas estão operando sem contrato, sem licitação e fazendo o que querem,  sem nenhum controle publico. Tentaram retirar os micro-onibus, já tiraram a maioria dos cobradores, apesar de haver lei municipal que impede isso.

COP – Em 2004, o PT se destacou pelo poderio econômico, com suspeitas de Caixa 2, que acabaram até gerando problemas para o Alexandre César. Como é que a campanha do PT se sustentará em 2012? LÚDIO CABRAL – O modelo de campanha que defendemos e pretendemos realizar é mais um dos elementos a nos diferenciar. O PT irá disputar a eleição com mega empresários, com campanhas milionárias. Vamos fazer o oposto, uma campanha militante, de mobilização da cidadania e de conscientização da importância que o voto tem, dizendo claramente que a raiz de muitos dos problemas que a população vivencia  nascem nas campanhas porque os milhões que são derramados para eleger um prefeito, são milhões que depois aprisionam esses governos e esses mandatos tornando-os reféns do poder econômico, dos interesses privados. Pretendemos adotar um modelo de campanha que enfrente o poder do dinheiro.

 

Categorias:Jogo do Poder

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