PROMOTOR JORGE DAMANTE: Argumenta-se que o Brasil caminha para se tornar a nova Venezuela da América Latina. Pois bem! Que se prove, então, as teorias conspiratórias. Porque, até onde se sabe, os governantes que vêm exercendo o poder em nosso país desde 1989 foram eleitos pelo povo e exerceram seus mandatos dentro do que preconiza a Constituição Federal de 1988

Jorge Paulo Damante é promotor de Justiça no município de Canarana, em Mato Grosso

Jorge Paulo Damante Pereira é promotor de Justiça no município de Canarana, em Mato Grosso

Jorge Paulo Damante promotor de Justiça em Canarana, MTQueremos Votar

Jorge Damante Pereira

 

Há 50 anos, precisamente em 19 de março de 1964, na cidade de São Paulo, acontecia a Marcha da Família com Deus Pela Liberdade. Estima-se que cerca de 200 mil pessoas marcharam da praça da República à praça da Sé. Pediam a intervenção dos militares para a destituição, pela força, do governo constitucional do presidente João Goulart.

A classe média temia a “ameaça comunista”. O mundo vivia o auge da Guerra Fria, em que os Estados Unidos da América liderava o bloco capitalista e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas liderava o bloco comunista. Pairava no ar a ameaça de uma terceira guerra mundial, agora com as grandes potências na posse de bombas nucleares.

Essa polarização capitalismo (EUA) – comunismo (URSS) atingiu todos os países. No Brasil, dizia-se que o governo constitucional do presidente João Goulart (Jango) era de tendência comunista, daí porque os militares, atendendo aos clamores da classe média, expostos na Marcha da Família com Deus Pela Liberdade, tomaram de assalto o governo legítimo de Jango.

A partir de 1º de abril de 1964 – por ironia o dia da mentira – os militares instituíram uma ditadura militar que durou de 1964 a 1985. Redemocratizado o país, não é que ocorreu, 50 anos depois, em um contexto interno e externo muito diverso, uma nova Marcha da Família com Deus Pela Liberdade, conforme amplamente noticiado pela imprensa nacional no decorrer destes dias.

Os modernos defensores de uma nova intervenção no governo foram para as ruas em São Paulo, no domingo, dia 22 de março de 2014. Sua ideia: os militares tomam o poder, acabam com a bagunça, promovem uma faxina moral e depois saem de cena. Parece que a ideia não seduziu muito, pois foi noticiado pelas mídias que menos de 500 pessoas participaram do ato.

Quanta insanidade! Fica a impressão que a elite burguesa deste país está a assinalar sua incompetência em não encontrar uma alternativa eleitoral viável para derrotar o bolsa família nas urnas e resolveu agora fazer “terrorismo” com a sociedade brasileira, tentando vender a ideia de que, por estar o meio político corrompido, somente os militares poderão nos salvar da corrupção.

É óbvio que o Brasil precisa livrar-se da corrupção, em seu sentido amplo, isto é, tanto no poder público quanto na vida privada. Também é fora de questão que nossas instituições públicas estão corrompidas e que o povo brasileiro já está cansado de ser feito de otário pelos ocupantes dos altos cargos da República, mas ditadura militar será solução para esses problemas?

Os organizadores desta moderna Marcha da Família com Deus Pela Liberdade, que estão defendendo uma nova intervenção militar no governo e a tomada do poder político pelo uso da força dos canhões e dos tanques de guerra, não têm o direito de dizer que o povo brasileiro é incapaz de mudar a realidade política e social da pátria amada com o poder do voto.

Aliás, eles tampouco têm o direito de jogar no lixo nossas conquistas históricas.

A nosso ver, os brasileiros não querem um regime autoritário, que se imponha pela força e que torture e mate seus “inimigos”, desaparecendo com os corpos. Não querem um regime que tire do artista a voz e a palavra, calando-os a todos, e que expulse da pátria os intelectuais desafinados com a ideologia do establishment.

Argumenta-se que o Brasil caminha para se tornar a nova Venezuela da América Latina. Pois bem! Que se prove, então, as teorias conspiratórias. Porque, até onde se sabe, os governantes que vêm exercendo o poder em nosso país desde 1989 foram eleitos pelo povo e exerceram seus mandatos dentro do que preconiza a Constituição Federal de 1988.

Assim, ainda que se demore mais 30, 60 ou 90 anos para aprendermos selecionar melhor nossos representantes políticos, extirpando da vida pública os vigaristas e aproveitadores, que sobrevivem politicamente do populismo e da demagogia, de uma coisa o povo brasileiro parece estar bem convicto: ditadura nunca mais, nem de esquerda nem de direita, queremos é votar.

Estamos, neste ponto, afinados com o discurso do estadista britânico Winston Churchil: “A democracia é a pior forma de governo, salvo todas as demais formas que têm sido experimentadas de tempos em tempos”. Portanto, para os que pretendem alcançar o poder em nosso país, é melhor que encontrem um discurso mais criativo, pois golpe de estado, realmente…

É essa nossa modesta opinião sobre as novas ideias golpistas.

 

Jorge Damante Pereira é promotor de Justiça de Canarana

4 Comentários

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  1. - IP 177.221.96.140 - Responder

    Está certíssimo o Promotor em repudiar as soluções golpistas implantadas por militares ou civis.

    Mas o Promotor, a bem da história, não deveria ter esquecido de dizer que o presidente derrubado pelos golpistas ameaçou, em 13 de março de 1964, no comício da Central do Brasil, com todas as letras, implantar reformas “na lei ou na marra”.

    Ou seja, eram os golpistas contra o autogolpista.

    Não havia ninguem para defender a democracia.

    De um lado e de outro só se falava em democracia, mas um lado era golpista e o outro era autogolpista.

    Quando se fala no risco do Brasil se tornar uma nova Venezuela, está se referindo ao controle da mídia e à obsessão da esquerdotralha em restringir o acesso dos setores de oposição à imprensa, IGUAL AO QUE ACONTECE NA VENEZUELA.

    Assim, PROMOTOR que ignora os fatos históricos e os atuais corre o risco, para dar palpites em assuntos políticos corre o risco de se tornar PROMOTER.

    Que tempos esquisitos (“O têmpora! o mores!”)

    • - IP 177.65.149.181 - Responder

      Indignado
      Controle da Midea nao tem nada a ver com ditadura ou com censura.
      Todos os paises civilizados, como a Inglaterra, por exemplo, tem marco regulatorio para a Imprensa.
      No mais, quem vai controlar a midea nao e o governo, mas sim a POPULACAO, o que ‘e mais do que justo, ja que a Imprensa ‘e uma Concessao publica e deve ser controlada pelo POVO, que ‘e quem fez tal concessao.
      Sera que voce nao percebeu que todo esse pavor todo que a Grande Imprensa (as 8 familias) tem do Controle da Midea ‘e puro medo de perder poder, de perder a oportunidade de continuar manipulando pessoas assim, como voce, tao desinformadas e sem senso critico?
      Ora, a Imprensa que for etica, que cumprir sua funcao social, como deve ser, nao tem que ter medo de marco regulatorio.
      So tem medo quem faz jornalismo anti-etico, que manipula, quem mente, quem calunia.
      isso tudo tem que acabar.
      Ninguem quer jornalismo chapa branca.
      Queremos so um jornalismo honesto e imparcial.
      So isso.

  2. - IP 189.31.57.192 - Responder

    Só não domina completamente a história republicana brasileira, por um lapso de memória o promotor, não mencionou quando FHC aviltando a CF/88 conseguiu a reeleição, sendo que o correto era a nova regra só valer para o próximo pleito eleitoral, no mais muitos acerto, mas como dito houve um lapso nas reminiscências.

  3. - IP 177.65.149.181 - Responder

    Engracado.
    Os reacionarios dizem que a Venezuela seria uma ditadura, mas la e o pais em que o presidente e eleito e e onde mais vezes a populacao vai as ruas, atraves de blebiscitos.
    Enquanto esses mesmos reacionarios de direita nao quiseram um plebiscito proposto pela presidente Dilma para se criar uma reforma politica no Brasil, a Venezuela, que para eles seria uma ditadura, consulta regularmente seu povo atraves de plebiscitos.

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