PREFEITURA SANEAMENTO

PROFESSORA DE LITERATURA OLGA CASTRILON: Ivens Cuiabano Scaff, (en)cantador de palavras

Ivens

IVENS (EN)CANTADOR DE PALAVRAS

 Por Olga Castrilon

Ivens me chegou tremulando nas brochuras de suas Mil Mangueiras (1992). Um delicado “caderninho” de campo repleto de novidades, com versos que cantam,marioquintanamente, cajá, assim: “a cada dia que passa/ a cada dia que passo/ os cajás meninos ficam mais gordinhos/verdemente inchando-se de seu destino/ até que um dia feito madrugada/enchem o cajazeiro de sóis dependurados”; canta também o “noturno cuiabano”nas levianas/variadas formações de nuvens/ descubro que posso ser/ belo e mutável/ e me torno eternocanta ainda o rio, o “djeito antigo” do povo mato-grossense, e muitas outras cantorias.

Dessa forma foi que nos prendeu, a mim e aos meus alunos/leitores, entre suas “Perguntaiada”: quem despertará os cajueiros/ se se atrasar a chuva do caju?/ […]; ficou com rabo vermelho a piraputanga/ de tanto comer pitanga? […]; queixam-se de dor nas costas as nuvens/ quando rola por cima o trovão? […]; quem consolará a solidão das piúvasE por aí segue, perguntando ao tempo, ao vento, ao mundo…

Assimpor muito tempo, para mim, Ivens era o poeta de um único livro. Prendia-me a elemal sabendo eu que essa veia poética estaria presente no conjunto de sua obra que, dizem, é destinada às crianças, mas os adultos são os primeiros a serem tragados por ela. Caso contrário, não a levaríamos para nossas salas de aula. Não é mesmo?!

Depois dessas Mil mangueiras, me veio o Ivens de Kuyaverá. AhKuiyaverá!! Mas as Mil Mangueiras ainda estavam por lá ampliadas, tipo revisão de rabiscos que se organizaram por temas. Madurez de um “menino-verseiro-do-porto”, como diz, com o olhar, devotadamente, voltado para sua terra. Daí para o encantamento dos seus contos foi um pulo de menino arteiro. E foram tantos, tantos, os meninos que se deliciaram com as histórias que viraram temas de aulas e de pesquisas na graduaçãona pós-graduação e em outros desvãos. Vejam: 

A fábula do Quase Frito, de 1996 e 1997, constrói imagens e palavras em diálogo, traduzindo a frustração da personagem que vive uma crise de identidade em meio ao universo mítico pantaneiroEm Uma maneira simples de voar, de 1997 e 2006tem muitas cores e uma s’meninaperguntadera (de novo as Mil Mangueiras). O papagaio besteirento e a velha cabulosa, de 1999, dialoga com a Fábula do Quase Frito, num universo que não é circular, mas verticaliza, pela contação, o mito Bororo, para quem a ave é um dos emblemas mais significativos. O menino órfão e o menino rei, de 2008, traz intertextos com o teatro e a tradição medieval. A Mamãe das cavernas e a Mamãe Lobade 2012recria a origem da relação do homem com o lobo, ancestral do cachorro. Tudo muito mítico, pura essência popular, puro encantamento de palavras e de histórias!

Este é um pouco do que me chega do procedimento da escrita de Ivens, que Ezra Pound chama de “dança do intelecto entre as palavras”. Os seus textos, portanto, pairam em forma de melodia que ressoa placidamente na memória. 

Agora, Ivens retorna às origens da sua criação e à essência do humano com a Poiétika de Ícaroversos de enamoramento e seus antônimosComo assim? Vai tratar, então, de merencórios amores e desamores; de sabores de cadeiras na calçada, retornos e magias, sinônimos e seus contrários; ritmos se dissolvendo entre lampejos do pulsar de almas

Que seja, Ivens, com novos namoros verbais, enamorado da vida, (en)cantador de palavras! Que seu Ícaro sobrevoa com novas asas, mas que não deixe de sobrevoar nossa existência, dominando-nos com o signo, com as imagens, com o tempo cósmico, com gestos, olhares e sons que sugerem metáforas, respondem às infinitas sensações despírito e orquestram a vida.

Então, boas leituras, galera! Boas relações sensoriais nas asas de todos os ícaros de Ivens!   

 

Olga Maria Castrillon-Mendes

Professora de Literatura da UNEMAT; do IHGC e da AML.

Em Cáceres-MT, 2017.

Encontro com escritores mato-grossenses.

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