PROFESSOR FRANKES SIQUEIRA: Pantera Negra e a discriminação racial

Pantera Negra e a discriminação racial

Por Frankes Siqueira

Na última sexta feira, 28 de agosto, o ator Chadwick Boseman faleceu depois de uma batalha de quatro anos contra o câncer. O referido ator tornou-se notório ao representar nos cinemas o filme do Pantera Negra.

Boseman nasceu na Carolina do Sul, e desde o ensino fundamental tinha um sonho de se tornar ator, e esse sonho virou realidade quando se formou em Belas Artes na histórica Howard University. Essa informação poderia passar por alto de um leitor menos atento, mas quero lembrar que a Howard University foi uma das primeiras faculdades a aceitar negros em suas fileiras, e atualmente noventa por cento dos formandos são negros. Essa informação é relevante em um momento onde explodem os protestos por igualdade racial nas ruas das mais diversas cidades dos Estados unidos, e as manifestações atingem as mais diversas ligas esportivas do país onde atletas estão rompendo o silêncio e exigindo igualdade racial em um país cada vez mais tenso do ponto de vista racial.

Boseman além de ator era roteirista e diretor, foi um ícone em filmes interpretando outros papéis igualmente importantes do ponto de vista étnico, cito como exemplos os Filmes: James Brown e 42 – A história de Uma Lenda. James Brown era conhecido como o “Padrinho do Soul”, que também havia nascido na Carolina do Sul, onde retratou desde a infância até o estrelato do Brown um ícone de um ritmo dominantemente negro. Já em 42 – A História de Uma Lenda, conta a história de Jackie Robinson o primeiro negro a disputar a Major League. O filme trata da batalha de discriminação étnica enfrentada por Robinson nos campos de disputa, dentro da sua diretoria e das torcidas.

Além dos citados filmes o ator participou de outros filmes igualmente famosos com muito sucesso de bilheteria. Mas nenhum dos papéis representados por Boseman ficou tão marcado como o Pantera Negra estreado em 2018. O filme foi inspirado na história em quadrinhos da Marvel lançado em 1966. Agora lhe pergunto você sabe qual era o contexto do lançamento da história em quadrinhos? O contexto era a Guerra fria onde em um mundo Bipolar os Estados Unidos e a União Soviética buscavam a hegemonia global. Concomitante a isso havia uma explosão de conflitos nos Estados Unidos por igualdade racial. A fim de atenuar essa tensão surgiu o primeiro super-herói negro das histórias em quadrinhos.

Mas a Marvel lançou o herói dos quadrinhos na década de 1960, no entanto a história em quadrinhos só se tornou filme em 2018. Essa informação pode parecer apenas um comentário de um fã de histórias em quadrinhos ou de filmes de ação. Mas pelo contrário o foco deste texto não é tecer comentários sobre o assunto da sétima arte porque não sou a pessoa mais indicada sobre para tais comentários devido ao meu limitado conhecimento sobre filmes e histórias em quadrinhos. Quero sim ressaltar o aspecto étnico por trás do filme, pois se nas histórias em quadrinhos o Pantera Negra já era um sucesso, por que demorou tanto para virar filme? Bem posso lhe garantir que não era por falta de interesse do público e sim porque as produtoras de filmes são financiadas e tem em sua maioria funcionários brancos que desenvolvem enredos voltados para o público branco, tornando os negros um grupo de invisíveis na filmografia dos Estados Unidos.

A morte de Chadwick Boseman é uma perda não só para os amantes dos seus filmes, mais também é uma perda para a luta racial que não atinge só os Estados Unidos, mas também faz parte do cotidiano de cada um dos brasileiros pretos que são tratados com ações preconceituosas diariamente nas cidades brasileiras.

 

FRANKES MARCIO BATISTA SIQUEIRA é Doutor em Cultura Contemporânea e Professor em Cuiabá

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