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PEDOFILIA E CORRUPÇÃO: Esta semana, Papa Francisco determinou prisão domiciliar do ex-núncio apostólico na República Dominicana e ex-arcebispo de Cracóvia Józef Wesolowski, por abusos sexuais de menores e por ter material pornográfico infantil. Wesolowski pode pegar até 7 anos de prisão. O bispo da diocese de Ciudad del Este, no Paraguai, Rogelio Ricardo Plano, foi removido do cargo por acobertar casos de abusos sexuais de padres e também por desviar dinheiro da diocese. Punições atestam a possível existência de uma rede pedófila no interior da Igreja Católica que, através dos séculos, sempre contara com uma dissimulada ou descarada condescendência do Vaticano

Cruzada contra a pedofilia

Ao punir com severidade dois bispos envolvidos em acusações de abusos sexuais, papa Francisco intensifica a faxina moral que promove na Igreja Católica

Rodrigo Cardoso ([email protected]), na  revista Istoé

Papa Francisco decidiu intensificar a cruzada contra a pedofilia na Igreja Católica, iniciada no pontificado de Bento XVI. Na semana passada, em um intervalo de dois dias, o Vaticano anunciou o afastamento do paraguaio dom Rogelio Ricardo Livieres Plano das funções de bispo da diocese de Ciudad del Este, no Paraguai, e mandou para a prisão o ex-núncio apostólico, o arcebispo polonês Józef Wesolowski, que esteve à frente da diocese de Santo Domingo, na República Dominicana, entre 2008 e 2013. Os dois estão envolvidos em casos de abuso sexual de menores.

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FIRME
Francisco demonstra tolerância zero diante dos casos
de abusos sexuais praticados por padres

Até o alemão Ratzinger se tornar papa, em 2005, o Vaticano tratava os casos de pedofilia praticados por seus pares como questões internas, resolvidas dentro dos muros da Santa Sé. Bento XVI mudou isso e orientou o colegiado católico a abolir o sigilo diante dos episódios, assumindo falhas cometidas pela Igreja, e, de certa forma, prestando contas às vítimas de abusos. Desde então, eclodiram casos mundo afora, o que causou, em um primeiro momento, perplexidade e abalou a credibilidade da instituição. O fato é que Francisco assumiu a Cúria, em março de 2013, imprimindo velocidade e firmeza à luta contra essa chaga moral. “Como Jesus, vou usar o bastão contra os padres pedófilos”, disse. No final de 2013, o argentino Jorge Mario Bergoglio criou a Comissão Pontifícia para a Proteção de Menores para cuidar dos casos de abusos sexuais. E em julho se encontrou com pessoas abusadas sexualmente por padres.

Agora, pela primeira vez na história da Igreja, um caso envolvendo pedofilia praticada por um clérigo está sendo julgado dentro do Vaticano, onde Wesolowski, o ex-núncio polonês, se encontra em prisão domiciliar. Ele é acusado de pagar para manter relações sexuais com menores dominicanos e possuir material pornográfico infantil. Se condenado, pode passar até sete anos na prisão vaticana. “Com essas decisões, Francisco se adianta a uma possível perda moral, porque deixa claro que a Igreja tem suas sujeiras e trabalha para eliminá-las”, diz o sociólogo da religião Francisco Borba, da Pontifícia Universidade Católica (PUC), de São Paulo.

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SEM PERDÃO
Envolvidos em crimes sexuais, o paraguaio dom Rogelio (à esq.)
foi afastado e o polonês Wesolowski, preso

Foi essa tolerância zero do papa que precipitou o afastamento de dom Rogelio, o bispo paraguaio acusado de encobrir casos de abusos sexuais contra crianças praticados por sacerdotes da diocese de Ciudad del Este, então chefiada por ele. Seu número dois ali, o padre argentino Carlos Urrotigoity, que exercera o sacerdócio em uma paróquia da Pensilvânia, nos Estados Unidos, foi acusado de assédio sexual por um estudante, em 2002. A diocese para qual ele trabalhava o considerou “uma ameaça séria para os jovens”. A capacidade de reconhecer os próprios erros é o que mais tem fortalecido a Igreja durante os séculos. Francisco vem dando passos mais largos nesse sentido, de acordo com Borba, que coordena o Núcleo Fé e Cultura da PUC. “É reconhecendo e punindo que a Igreja se torna um modelo para a sociedade, que, mundo afora, tem procurado sinais de credibilidade em seus governantes.” 

Fotos: AFP PHOTO/GABRIEL BOUYS; Raul Gonzalez/ABC

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Papa afasta bispo paraguaio suspeito de acobertar abusos

Mons. Plano é acusado de esconder abusos sexuais de padres

Papa Francisco afasta bispo de diocese paraguaia (foto: ANSA)
Papa Francisco afasta bispo de diocese paraguaia (foto: ANSA)

(ANSA) – O papa Francisco ordenou que o bispo da diocese de Ciudad del Este, no Paraguai, mons. Rogelio Ricardo Liviere Plano, fosse removido do cargo de ‘administrador apostólico’ nesta quinta-feira (25).

O religioso é acusado, entre outras coisas, de acobertar casos de abusos sexuais de padres e também de desviar dinheiro da diocese. Para seu lugar, o Pontífice nomeou o monsenhor Ricardo Jorge Valenzuela Rios.

A “mudança” à frente da diocese foi anunciada por uma nota do gabinete de imprensa do Vaticano. O comunicado afirmou que a decisão foi tomada “após a apuração dos exames de conclusão das visitas apostólicas feitas ao bispo, às dioceses e aos seminários de Ciudad del Este, por parte da Congregação dos Bispos e da Congregação pelo Clero”. Após a conclusão, o “Santo Padre providenciou a saída do bispo”.

A nota afirma ainda que a decisão da Santa Sé é “grave” e “inspirada no bem maior da unidade da Igreja, na cidade, e na comunhão episcopal do Paraguai”. Também pede “a todo o clero e a todo o povo de Deus” para “acolher a decisão da Santa Sé com espírito de obediência, docilidade e alma desarmada, guiada por sua fé”. O comunicado ainda convida todo o Paraguai a “um sério processo de reconciliação e superação de qualquer partidarismo e discórdia”.

Na terça-feira (23), a Santa Sé anunciou a prisão domiciliar do ex-núncio apostólico na República Dominicana e ex-arcebispo de Cracóvia Józef Wesolowski, de 66 anos. Ele está respondendo acusações por abusos sexuais de menores e por ter material pornográfico infantil. Wesolowski pode pegar até 7 anos de prisão. As duas medidas fazem parte da postura de Francisco de combater a pedofilia na Igreja Católica. (ANSA)

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TEMA tabu ainda há poucos anos, a pedofilia é o escândalo que assombrou a Igreja Católica neste início do século XXI, afastando milhares de fiéis dos altares e deixando o Vaticano sob o holofote das suspeitas.

Há casos denunciados em dezenas de países, em todos os continentes. O Vaticano foi acusado de “cumplicidade”, mas a complacência para com a pedofilia na Igreja parece ter os dias contados por acção do Papa Francisco.

O Papa argentino prometeu tolerância zero para crimes de pedofilia na Igreja e comparou-os a “missas satânicas”. Em Julho de 2013, quatro meses após ser eleito Papa, Jorge Mario Bergoglio assinou um decreto reforçando as punições contra crimes de pedofilia na Igreja Católica, referindo-se-lhes como “abomináveis delitos”.

No início deste ano, porém, o Comité dos Direitos da Criança da ONU lamentava a “passividade” do Vaticano, mostrando-se “profundamente preocupado” por este “não reconhecer a extensão dos crimes cometidos e não tomar as medidas necessárias para tratar de casos de abusos sexuais de crianças e proteger estas crianças, não aplicando políticas e práticas que levam ao julgamento e punição destes abusos”.

Em Julho último, um ano após a assinatura do tal decreto, o Papa pediu publicamente “perdão” às vítimas de abusos sexuais por parte de membros da Igreja. Mas ficou a faltar o que lhe tinha sido pedido pelo comité da ONU: levar a julgamento os religiosos pedófilos.

Esse passo foi dado na terça-feira desta semana, dia 22, quando o Papa Francisco ordenou a prisão domiciliária de Jozef Wesolowski, 66 anos, ex-núncio na República Dominicana que, depois de afastado do sacerdócio e condenado por um tribunal canónico, será julgado num tribunal criminal fora do Vaticano.

Ainda esta semana, dois dias depois da prisão do ex-núncio apostólico, o Papa afastou o bispo de Ciudad del Este, no Paraguai, acusando-o de má administração e de encobrimento de um padre acusado de pedofilia nos Estados Unidos.

FIM DA “PROTECÇÃO” A PADRES PEDÓFILOS?

Se existe, como há muito se assegura, uma rede pedófila no interior da Igreja Católica que contava com uma dissimulada ou descarada condescendência do Vaticano, os seus dias podem estar contados, a julgar pelos passos agora dados pelo Papa Francisco.

A decisão Vaticano de colocar em prisão domiciliar e julgar o ex-representante diplomático permanente da Santa Sé do Papa núncio na República Dominicana e o afastamento do bispo Rogelio Livieres Plano pode acabar com o período em que a Igreja protegia os padres pedófilos. Esta é a opinião do cardeal Walter Kasper, ligado ao Papa Francisco.

“Estamos diante de uma mudança de paradigma. Houve um tempo em que os padres estavam protegidos. Agora, as coisas são vistas pelo lado da vítima”, declarou ao jornal italiano Corriere della Sera o cardeal e teólogo alemão.

“A linha do Papa é clara, não podemos parar agora, ainda mais quando se trata de um bispo. Devemos ser claros”, disse o cardeal Kasper.

De acordo com Valesio de Paolis, que recebeu a missão do Papa de renovar a congregação conservadora dos Legionários de Cristo após um escândalo de pedofilia, “até então a Igreja não julgava o crime de pedofilia do ponto de vista sexual, e sim do ponto de vista disciplinar”.

“A detenção do arcebispo Wesolowski é uma importante decisão política e sem ambiguidade por parte de Francisco”, afirmou ao também diário italiano La Stampa.

O ex-porta-voz do Papa João Paulo II Joaquín Navarro-Valls declarou ao jornal La Repubblica que a decisão do Papa Francisco era “a consequência lógica e coerente de uma posição adoptada plenamente e compartilhada completamente por seus predecessores”.

O Vaticano anunciou em Maio que os tribunais eclesiásticos puniram pelo menos 3420 padres e religiosos nos últimos 10 anos.

(Com informações do Público e AFP)

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