PAULO NOGUEIRA: Quem conhece os bastidores do jornalismo sabe que quando um repórter da Globo, vai para a Venezuela a pauta já está pronta. Chávez e Globo têm um história de beligerância explícita. Ambos defendem interesses antagônicos com paixão, com ênfase, com clareza. Lamento se isso desilude os ingênuos que acreditam em objetividade jornalística brasileira, mas a vida é o que é.

A mortalidade infantil diminuiu, a expectativa de vida aumentou, o número de universitários cresceu e as crianças venezuelanas estão indo à escola numa quantidade sem paralelo na história do país. A Globo, claro, não fala destes números conquistados sob o governo de Chavez

O que está por trás da maneira como as Organizações Globo cobrem o caso Chávez

Paulo Nogueira
Diário do Centro do Mundo

http://www.diariodocentrodomundo.com.br/a-globo-contra-os-venezuelanos/

Noto, nas redes sociais, revolta contra a maneira como a Globo vem cobrindo o caso Chávez. Estaria havendo um golpe na Venezuela, segundo a Globo.

Entrevista coletiva

Não existe razão para surpresa. Inimaginável seria a Globo apoiar qualquer tipo de causa popular. Acaba de sair uma pesquisa segundo a qual quase 70% dos venezuelanos aprovam a postergação do juramento de Chávez, e mais de 60% estão satisfeitos com o grau de informação oficial sobre seu estado clínico.

Mas esse tipo de coisa você não saberá em nenhum veículo da Globo, e muito menos em seus colunistas. Chávez e Globo têm um história de beligerância explícita. Ambos defendem interesses antagônicos com paixão, com ênfase, com clareza.

Se estivéssemos na França de 1789, a Globo defenderia a Bastilha e Chávez seria um jacobino. Em vez de recitar Bolívar, ele repetiria Rousseau.

Chávez cometeu um crime mortal para a Globo: não renovou a concessão de uma emissora que tramara sua queda. Veja: um grupo empresarial usara algo que ganhara do Estado — a concessão para um canal de tevê — para tentar derrubar o presidente que o povo elegera. Chávez fez o que tinha que fazer. E o que ele fez é o maior pesadelo das Organizações Globo: a ruptura da concessão.

CENA CLÁSSICA

Há uma cena clássica que registra a hostilidade entre Chávez e a Globo. Foi, felizmente, registrada pelas câmaras. É um documento histórico.

Chávez está dando uma coletiva, e um repórter ganha a palavra para uma pergunta. É um brasileiro, e trabalha na Globo. Fala num espanhol decente, e depois de se apresentar interroga Chávez sobre supostas agressões à liberdade de expressão. Toca, especificamente, numa multa aplicada a um jornalista pela justiça venezuelana.

Chávez ouve pacientemente. No meio da longa questão, ele indaga se o jornalista já concluiu a pergunta. E depois diz: “Sei que você veio aqui com uma missão e, se não a cumprir, vai ser demitido. Não adianta eu sugerir a você que visite determinados lugares ou fale com certas pessoas, porque você vai ter que fazer o que esperam que você faça.”

Quem conhece os bastidores do jornalismo sabe que quando um repórter da Globo, vai para a Venezuela a pauta já está pronta. É só preencher os brancos. Não existe uma genuína investigação. A condenação da reportagem já está estabelecida antes que a pauta seja passada ao repórter.

Lamento se isso desilude os ingênuos que acreditam em objetividade jornalística brasileira, mas a vida é o que é. Na BBC, o repórter poderia de fato narrar o que viu. Na Globo, vai confirmar o que o seu chefe lhe disse. É uma viagem, a rigor, inútil: serve apenas para chancelar, aspas, a paulada que será dada.

“Como cidadão latino-americano, você é bem-vindo”, diz Chávez ao repórter da Globo. “Como representante da Globo, não.”

COISAS ÓBVIAS

Chávez lembrou coisas óbvias: o quanto a Globo esteve envolvida em coisas nocivas ao povo brasileiro, como a derrubada de João Goulart e a instalação de uma ditadura militar em 1964.

Essa ditadura, patrocinada pela Globo, tornou o Brasil um dos campeões mundiais em iniquidade social. Conquistas trabalhistas foram pilhadas, como a estabilidade no emprego, e os trabalhadores ficaram impedidos de reagir porque foi proibida pelos ditadores sua única arma – a greve.

Não vou falar na destruição do ensino público de qualidade pela ditadura, uma obra que ceifou uma das mais eficientes escadas de mobilidade social. Também não vou falar nas torturas e assassinatos dos que se insurgiram contra o golpe.

Chávez, na coletiva, acusou a Globo de servir aos interesses americanos. Aí tenho para mim que ele errou parcialmente. A Globo, ao longo de sua história, colocou sempre à frente não os interesses americanos – mas os seus próprios, confundidos, na retórica, com o interesse público, aspas. Tem sido bem sucedida nisso.

O Brasil tem milhões de favelados, milhões de pessoas atiradas na pobreza porque lhes foi negado ensino digno, milhões de crianças nascidas e crescidas sem coisas como água encanada.

Mas a família Marinho, antes com Roberto Marinho e agora com seus três filhos, está no topo da lista de bilionários do Brasil. Roberto Marinho se dizia “condenado ao sucesso”. O que ele não disse é que para que isso ocorresse uma quantidade vergonhosa de brasileiros seria condenada à miséria.

Paulo Nogueira é jornalista e está vivendo em Londres. Foi editor assistente da Veja, editor da Veja São Paulo, diretor de redação da Exame, diretor superintendente de uma unidade de negócios da Editora Abril e diretor editorial da Editora Globo.

6 Comentários

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  1. - IP 177.3.52.160 - Responder

    Quem gosta de ditadores sempre apoiará Chaves, Fidel, Raul e Outros.

  2. - IP 177.3.52.160 - Responder

    Como é que ainda existe “gente bobó” que acredita que os esquerdotralhas algumas vez estiveram interessados na implantação de uma democracia no Brasil.

    Eles sempre lutaram é pela implantação de uma ditadura comunista.

    Até o Jornalista Hélio Gaspari já escreveu muitos textos em que fala dos propósitos ditatoriais da esquerdotralha, ou seja lutavam contra uma ditadura, mas implantar uma outra… ditadura.

  3. - IP 201.40.30.213 - Responder

    O UOL repercutiu uma “notícia” de algum jornal europeu, se não me engano, espanhol. Anunciaram que os aparelhos que estavam ligados à Chavez seriam desligados em questão de dias ou horas, estavam decidindo, ou seja, um grande veículo de comunicação como o UOL se prestou a esse papel ridículo, sem comentários.

    Tenho uma montanha de críticas ao chavismo, ao bolivarianismo, aquilo não é socialismo nem aqui e muito menos na China, onde reina o capitalismo de Estado. Mas o que o UOL fez deve ter causado um tremendo arrependimento nos calhordas em pagar um mico tão feio assim. Uma pena que parece que ninguém viu isso e o mico não virou notícia escandalosa nacional. Quem sabe o ENOCK resolve dedicar uma matéria à irresponsabilidade da mídia oficial, burguesa.

  4. - IP 189.10.9.201 - Responder

    Oque me deixa sem rumo , é ver gente que sofreu perseguições da ditadura militar brasileira ; viu o mal que a falta de liberdade e de eleições causa; defender um homem que quer se perpetuar no poder , mesmo semi-morto( pois se estivesse bem já teria aparecido) . Como podem esses caras defenderem ditaduras como a dos irmàos castro de Cuba ? Ou esse Chapolim venezuelano? É algo embaraçoso.

    • - IP 189.79.24.248 - Responder

      Ocorrem eleições anuais na Venezuela e Chávez é eleito pela maioria esmagadora.

  5. - IP 189.60.100.154 - Responder

    “Na BBC, o repórter poderia de fato narrar o que viu. Na Globo, vai confirmar o que o seu chefe lhe disse. É uma viagem, a rigor, inútil: serve apenas para chancelar, aspas, a paulada que será dada.”

    Quer dizer que na BBC há jornalismo de verdade? Onde é que o Paulo Nogueira está mesmo? Em Londres não é?

    É incompreensível a falta de conhecimento das mentiras e propaganda que a BBC faz.
    Não é nada diferente da CNN e todas a mídia corporativa.
    Muito estranha esta miopia.

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