PAULO LEMOS: Qualquer pessoa com o mínimo de conhecimento sabe que o agronegócio, e sua consequente produção de “mercadorias” para exportação (commodities), é o grande responsável pelo desmonte do parque industriário do Brasil, bem como pelo sufocamento e estrangulamento da agricultura familiar

Paulo Lemos tem atuado como Ouvidor da Defensoria Pública de Mato Grosso

Paulo Lemos tem atuado como Ouvidor da Defensoria Pública de Mato Grosso

Novos bilionários! Justiça social?
POR PAULO LEMOS

A Revista Forbes “identificou” 4 (quatro) novos bilionários no Brasil, mais exatamente em Mato Grosso, Cuiabá e Rondonópolis, que “coincidentemente” são da mesma família (Maggi).

O montante representa quase o orçamento anual que o Estado de Mato Grosso, já somados os três Poderes, tem para promover educação, saúde, segurança, infraestrutura, cultura, desporto, lazer, justiça e cidadania, para aproximadamente 3.000.000 (três milhões) de matogrossenses.

Porém, mais da metade desses milhões de matogrossenses, segundo o IBGE, quando possuem trabalho, auxílio e/ou renda oriunda de outra fonte qualquer, e não está entre o contingente de excluídos e miseráveis, aufere apenas algo entre 1 (um) e 3 (três) salários mínimos mensalmente, para saldar todas as dívidas, garantir o próprio sustento e/ou de sua família.

Enfim, sobre o assunto, analisando concreta e friamente as bases do modelo econômico do estado de Mato Grosso, Sergio Schlesinger destacou que: “onde se produz 30% da soja brasileira, a agricultura familiar sofre sérias restrições. “Bons programas do governo federal como o de Aquisição de Alimentos (PAA) não se fazem presentes nesta região. No Brasil, a média é de 25% do território agricultável ocupado pela agricultura familiar. No Rio Grande do Sul chega a 34%. Mas no Mato Grosso a agricultura familiar ocupa apenas 10% das terras agricultáveis”, comparou ele.

E essa opção parece não ser somente dos detentores do poder político e econômico de Mato Grosso, mas, igualmente, das autoridades do Planalto Central, visto que, no site “Contra os Agrotóxicos”, em matéria intitulada “Recursos para o agronegócio superam os da agricultura familiar”, consta que “dados divulgados no final de novembro de 2013, pela presidenta Dilma Rousseff, apontam que serão disponibilizados recursos na ordem de R$ 136 bilhões para o agronegócio, enquanto a agricultura familiar receberá R$ 21 bilhões, ou seja, 15,4% do total. É um cenário discrepante e preocupante”.

Sobre isso, de acordo com Fernando Carneiro, professor e chefe do Departamento de Saúde Coletiva da Universidade de Brasília, “o setor que receberá o maior montante de investimentos destina grande parte desses recursos à agricultura para a exportação de commodities”.

A matéria também chama atenção para o fato de que “o problema é que quando a soja, o algodão, o milho e a cana são exportados, junto a essa exportação vai solo, água e trabalhadores que morrem pela ingestão de agrotóxicos. Esse custo é socializado e o lucro é capitalizado. E essa exportação não é para alimentar a população brasileira. Basicamente é para servir de ração para os animais na China (maior parceiro comercial do Brasil) e Estados Unidos”, explica o professor Fernando Carneiro, que também é coordenador do Observatório da Política Nacional de Saúde Integral das Populações do Campo e da Floresta – Teia de Ecologia de Saberes e Práticas.

E a matéria arremata desmistificando o mito de que “o agronegócio veio para alimentar a fome da população e baixar o custo da cesta básica. Até porque, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o tamanho das áreas de plantio de arroz e feijão têm diminuído, pressionados pela soja e pela cana”.

Na verdade, qualquer pessoa com o mínimo de conhecimento e de capacidade de percepção e compreensão, sabe que o agronegócio, e sua consequente produção de “mercadorias” para exportação (commodities), é o grande responsável hoje pelo desmonte do parque industriário do Brasil, bem como pelo sufocamento e estrangulamento da agricultura familiar, orgânica e vocacionada para botar comida barata e saudável na mesa dos trabalhadores e famílias brasileiras, ao invés de ter que importar hortifrutigranjeiros e ficar na mão da manipulação do preço pelo mercado estrangeiro.

Veja o caso do território de Matupá/MT, explorado agora pelo “Grupo Bom Futuro”, também de propriedade de um integrante da família Maggi – provavelmente mais um bilionário -, apesar de oferecer algumas novas vagas de emprego na região e alguma nova arrecadação (muito menos do que a indústria etc..), junto com a impressão de desenvolvimento econômico local (contudo, para poucos) -, a médio e longo prazo, o investimento de aquisição de dezenas de milhares de hectares de terra no entorno da cidade, pode se tornar um presente de grego para os munícipes, ante o aniquilamento de modelos de economia solidária e cooperativa na região, a concentração de riquezas e hegemonia da monocultura de soja e algodão, ao invés de arroz e feijão, entre outros, poluição das terras e águas, por incontáveis litros de agrotóxicos, contaminação de crianças, pelo leite materno, e idosos, pelo sopro poluído do vento.

Então, pergunto: o modelo de desenvolvimento econômico em vigor em Mato Grosso e no Brasil hodierno é socialmente justo? Ajuda a diminuir as desigualdades sociais? Privilegia as micro e pequenas empresas, ao invés de os grandes conglomerados econômicos?

Parece que ouço o saudoso cantor brasileiro e brasiliense, Renato Russo, continuar cantando do além: “que país é esse?”; o Zé Ramalho, “ô o ô, vida de gado, povo marcado e povo feliz”; e o Gabriel Pensador, “até quando vamos continuar levando porrada, porrada, rindo da própria tragédia, até quando vamos ficar sem fazer nada, muda, muda essa postura!”

Paulo Lemos é advogado em Cuiabá

1 Comentário

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  1. - IP 200.252.51.208 - Responder

    muito interessante

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