PREFEITURA SANEAMENTO

PAULO LEMOS: Hoje, em muitos lares, inclusive cristãos, ao invés de relembrarem o nascimento de Cristo, as crianças e mesmo os adultos, mal controlam a ansiedade para ver o saco do Papai Noel sendo aberto e os presentes entregues, numa espécie de culto ao materialismo-egoístico ao invés de à caridade-altruística.

Para o advogado Paulo Lemos, esse período do ano que exortava à caridade foi se “convertendo” em uma temporada de “compras de Natal”, não mais necessariamente para estender a mão aos mais necessitados (crianças, idosos, viúvas, enfermos, detentos, sem-terras, moradores de rua etc.), mas, sim, para suprir o ímpeto do consumo desregrado

Fé ou marcha à ré?
POR PAULO LEMOS

No próximo dia vinte e cinco de dezembro todos celebraremos o Natal, assim como a comunidade predominantemente ocidental e cristã tem feito há dezoito séculos, desde o século III D.C., quando a Igreja Católica adaptou o dia em que anteriormente se cultuava o Deus do Sol, no solstício de inverno, a fim de converter os povos pagãos que estavam sob o jugo do Império Romano, após Constantino ter decretado o cristianismo como religião oficial de Roma.
A princípio, o objetivo-mor do dia natalino era comemorar o nascimento do menino Jesus, em Belém, provavelmente ocorrido entre o ano sete e cinco A.C., já que teria se concebido antes da morte do Rei Herodes, o Grande, que, por sua vez, segundo os estudiosos, morreu no ano quatro A.C..
A partir disso, muitos usos e costumes passaram a compor o cenário natalino em todos os lugares que celebram a data, tais como as músicas natalinas, o presépio, o pisca-pisca, a árvore de natal, o amigo-secreto e, principalmente, o Papai Noel.
Há muitas versões para o advento de cada um desses símbolos natalinos, sendo que, quanto ao “bom velhinho”, a tradição aponta como uma das raízes mais prováveis a conduta do bispo de Mira, São Nicolau, na atual Turquia, no século IV, que, usando vestes episcopais, andava pelas ruas abordando crianças carentes, indagando-as sobre seus comportamentos e lhes doando presentes, a fim de concretizar o mandamento de amor ao próximo, na perspectiva de que fora da caridade não há salvação.
Ocorre que, de lá para cá, esse período do ano que exortava à caridade foi se “convertendo” em uma temporada de “compras de Natal”, não mais necessariamente para estender a mão aos mais necessitados (crianças, idosos, viúvas, enfermos, detentos, sem-terras, moradores de rua etc.), mas, sim, para suprir o ímpeto do consumo desregrado, imposto a partir do século XVIII, com o surgimento do “Espírito Santo do Capitalismo”, que de santo tem pouca coisa ou nada, em oposição ao “Espírito de Comunhão e de Cooperação Mútua”.
Para se ter uma idéia, nos Estados Unidos, no Canadá, no Reino Unido e na Irlanda, a temporada de caça aos bens de consumo começa já no mês de outubro, mediante fortes campanhas publicitárias, patrocinadas especialmente pelas empresas multinacionais. Nos Estados Unidos, estudos apontam para o fato de que um quarto dos gastos pessoais dos americanos é realizado durante o período de compras de Natal (Gwen Outen. “ECONOMICS REPORT – Holiday Shopping Season in the U.S.”, Voice Of America, 2004-12-03).
Hoje, em muitos lares, inclusive cristãos, ao invés de relembrarem o marco inicial do dia de Natal (nascimento de Cristo), as crianças, e mesmo os adultos, mal controlam a ansiedade para ver o saco do Papai Noel sendo aberto e os presentes entregues, numa espécie de culto ao materialismo-egoístico, ao invés de à caridade-altruística. Não que o Papai Noel e a troca de presentes mereçam ser demonizados e/ou extintos, no entanto, quando esses usos e costumes corrompem o verdadeiro sentido do Natal (caridade) e se sobrepõem a ele, significa que “há algo de podre na Dinamarca” (adágio popular).
O que será que Jesus Cristo pensava sobre o materialismo-egoístico?     Bom, sem citar capítulos e versículos, basta se lembrar de algumas passagens dos Evangelhos, para responder a questão posta.
A primeira é a do jovem rico, que, apesar de supostamente cumprir todos os mandamentos da Lei Mosaica, não se dispôs a atender o chamado de Cristo para, além de segui-Lo, vender tudo o que tinha e doar aos pobres, para daí tornar-se perfeito. A segunda é a do velho rico que tinha no ajunte de seus bens materiais, num depósito destinado para tanto, a segurança de sua vida; enquanto não sabia que de nada adiantaria aquilo quando a morte chegasse, como um ladrão, sem avisar e a qualquer momento. A terceira é a exclamação de Cristo de que não há como servir a dois senhores ao mesmo tempo, a Deus e a Mamon (é um termo, derivado da Bíblia, para descrever riqueza e cobiça material). A quarta e última é a passagem onde Jesus Cristo diz categoricamente que mais adianta juntar tesouros nos céus (amor, fé, esperança, justiça, misericórdia etc.), do que na Terra, onde as traças e a ferrugem tudo consomem e os ladrões minam e roubam. Pois, onde estiver o seu tesouro, ali estará também o seu coração.
Por fim, importa dizer que não só o cristianismo professa o amor a Deus acima de todas as coisas e ao próximo assim como a você mesmo, mas, também, outras religiões e filosofias de vida, sendo que cada qual a sua maneira, com seus símbolos e códigos e, portanto, suas linguagens específicas. Assim como, boa parte delas comunga com o pensamento de que um dos maiores obstáculos encontrado entre o ser-humano e Deus, Allah, Braman, Mawu, Olorun, Zambi, Guaraci, Jahbulon, Jah, Oxalá, entre outros nomes atribuídos ao Criador do universo, é o egoísmo e a cobiça, que servem como insubstituíveis ingredientes a toda forma de corrupção humana, em total paradoxo à fé e a toda forma de amor, fazendo com que ao invés do projeto humano estar no período espiritual de peixes e progredindo para o de aquários, como alegam alguns espiritualistas místicos, dê marcha à ré e fique patinando no período de caranguejo.

Paulo Lemos, advogado e ouvidor geral da Defensoria Pública de Mato Grosso

Paulo Lemos é Ouvidor-Geral da Defensoria Pública do Estado de Mato Grosso e advogado.

1 Comentário

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  1. - IP 177.3.254.100 - Responder

    LA VEM ESSE PAPAGAIO DE PIRATA COM ESSA CONVERSINHA DE INTELECTUAL DE MEIA TIGELA….SO VOCES PARA DAREM ESPACO A ESSE PUSILANIME………

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