ONOFRE RIBEIRO: O péssimo serviço público atual será perpetuado por décadas até que se construa de novo uma máquina com pessoas que compreendam o seu papel de servidores públicos da sociedade e que eles aprendam lições como eficiência, comprometimento, qualidade, ética e isenção. Terei morrido quando isso acontecer

Serviço público sucateado

por Onofre Ribeiro

 

 
Há alguns anos conheci em Cuiabá um jovem doutorando em gestão pública. Ele mudou-se para Florianópolis e perdemos o contato. Encontrei-o novamente em Brasília, onde concluía uma pesquisa para uma ONG francesa sobre a qualidade dos recursos humanos técnicos no serviço público brasileiro. Sua conclusão era a de que os quadros técnicos da administração federal eram de excelente preparo, com muitas pós-graduações e doutorados.
Poucos anos depois, chegamos a um nível de qualidade que indica claramente o sucateamento da qualidade. A causa, segundo esse mesmo pesquisador, é o chamado “aparelhamento do Estado”, iniciado nos governos Lula e mantido no atual. Todas as funções técnicas de nível médio foram ocupadas por sindicalistas ou por filiados ao Partido dos Trabalhadores, independente de terem ou não qualificação. Cito um exemplo que pude conhecer bem de perto, através de um parente próximo. Ele e todos os gerentes de nível médio dos Correios eram concursados e altamente preparados tecnicamente. A empresa investiu pesado na formação de quadros técnicos.
O presidente Lula interferiu pessoalmente para a indicação de carteiros e de sindicalistas para ocupar todas as gerências desse nível e em todos os cargos técnicos. Resultado: os correios caíram rapidamente de qualidade e perderam a autossuficiência financeira, passando a depender do Tesouro Nacional, fora a baixa qualidade dos serviços que lhe dava o privilégio de ser o mais acreditado no país.
Isso aconteceu em todo o serviço público tanto pelos indicados do PT quanto de todos os partidos da chamada base aliada. Outro exemplo, entre tantos e tantos: o Ministério dos Transportes e seus órgãos agregados. Toda a cultura técnica acumulada ao longo da história foi jogada no lixo para dar lugar a indicados políticos dos partidos titulares do órgão. A corrupção instalou-se imediatamente na proporção direta da péssima qualidade dos serviços públicos prestados em todos os níveis do governo.
E os quadros técnicos formados? Foram jogados em posições inferiores ou na lata de lixo, porque seu conhecimento e posição apolítica não interessam ao jogo político que dirige o Brasil atualmente.
É de se imaginar que esse pessoal excluído das decisões técnicas nunca mais volte a ter um papel efetivo. O péssimo serviço público atual será perpetuado por décadas até que se construa de novo uma máquina com pessoas que compreendam o seu papel de servidores públicos da sociedade e que eles aprendam lições como eficiência, comprometimento, qualidade, ética e isenção. Terei morrido quando isso acontecer. Até lá, continuaremos pagando impostos altos e sendo escravos da indiferença do Estado com os seus cidadãos.
Ah! Nos estados aconteceu a mesma coisa. Em Mato Grosso, então…!

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Ainda o (péssimo) serviço público
por Onofre Ribeiro

 
No artigo de ontem escrevi sobre a péssima qualidade e o sucateamento do serviço público federal e, por extensão, nos estados, por conta do famoso “aparelhamento do Estado”, introduzido pelas gestões do Partido dos Trabalhadores no governo do país, e copiadas no país inteiro em governos estaduais e municipais de todos os partidos políticos.
Recebi contribuições fortes e revoltadas. A maioria, contudo, de pessoas que se sentem vítimas dos péssimos serviços públicos brasileiros, que pioram na inversão dos aumentos de impostos pagos pelos cidadãos. Pelas manifestações, não posso deixar de imaginar o terrível resultado de uma pesquisa isenta, sobre a percepção social em relação à qualidade de todos os serviços públicos prestados no Brasil inteiro.
O aparelhamento do Estado consiste em preencher todos os cargos de direção, os chamados DGA (Direção Geral e Assessoramento), com filiados comandados por partidos políticos, ou por sindicalistas cooptados pelos partidos. O sistema é conhecido como “porteira fechada”, quando um partido recebe a doação de um ministério, de uma secretaria de estado ou de uma prefeitura com direito de ocupar todos os cargos comissionados.
Citei o caso do Ministério dos Transportes, mas cabe em qualquer outro. O Brasil construiu nos anos 1950 e 1990, uma forte cultura de grandes obras de infraestrutura. Hoje, dificilmente seria capaz de repetir, mesmo com computadores que fazem todos os cálculos técnicos antes feitos à mão, e das máquinas eficientes de hoje. Falta o essencial: gente capaz. As universidades formam engenheiros incapazes e aqueles antigos que sempre ensinaram os jovens foram jogados no lixo pelo sistema de aparelhamento de todos os órgãos ligados à infraestrutura.
Recuperar a capacidade técnica dos engenheiros vai levar, no mínimo, uma década. Em 1973 começou-se em Mato Grosso a construção da rodovia Transpantaneira, um projeto do governador José Fragelli, tocado pelo agrônomo Gabriel Muller, conhecido como “o Gigante do Pantanal”, e uma equipe de jovens engenheiros recém-formados ou recém-chegados ao estado. O projeto era estratégico. A exemplo das grandes rodovias como a Transamazônica, que integrava o Norte do Brasil, a Transpantaneira pretendia ligar Cuiabá, cortando o Pantanal, chegar a Corumbá, onde se interligaria com a ferrovia Noroeste do Brasil, com a rodovia BR-262, até Vitória e com as interligações possíveis ao longo da sua extensão.
Por falta de recursos a obra foi paralisada às margens do rio Cuiabá, em Porto Jofre, na divisa com Mato Grosso do Sul e nunca mais foi retomada. Mas aqueles jovens engenheiros que conheceram o Pantanal e arranjaram soluções que não constavam de nenhum livro, foram afastados na atualidade, fora os aposentados e os que morreram.
Perdeu-se extraordinária cultura de fazer obras difíceis em lugares difíceis como a Amazônia, o Pantanal e outras regiões novas. Mas o aparelhamento elegeu muita gente para cargos parlamentares, que aumentaram essa cultura. A corrupção, o inchamento da máquina pública e a perda do sentido primordial do serviço público, ficam para outros artigos.

 

Onofre Ribeiro é jornalista em Mato Grosso.

http://www.onofreribeiro.com.br/site/index.php

Categorias:Plantão

5 Comentários

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  1. - IP 186.218.194.196 - Responder

    Quem excluiu os bons prestadores de serviço público em Cuiabá e MT…?
    Depois que o Magginário entrou no governo ‘choveu’ de paranaense pilantra nos órgãos públicos em geral…
    Com o atual ladrão dos cofres do palácio a coisa só aumentou…
    Na Assembleia tem centenas desses sulistas especialistas em dar o nó e fazer esquemas de desvios do erário…
    Na época do julinho ladrão eram os paulistas…Cuiabá lotou de vagabundo vindo de Presidente Prudente…
    O resto é conversa fiada;;;

  2. - IP 179.179.93.148 - Responder

    Concordo em gênero número e grau e ainda acrescento que o mesmo fenômeno atinge as grandes empresas (Bancos, Telefônicas, etc) cujos funcionários são desqualificados para o relacionamento sério com os clientes

  3. - IP 200.96.142.120 - Responder

    Foi o PT que inventou o aparelhamento, sr. Onofre Ribeiro? Achei que o livro do Raymundo Faoro tinha sido escrito na década de 1950 já se referisse àquela época em que a sociedade brasileira – de 1500 até a Era Vargas – já praticasse aquilo que o seu conceito central: patrimonialismo. Acho que o sr., com pouca leitura acadêmica (as mais importantes ao que parece) (o que é contraditório para um jornalista), quer imputar a um único partido uma prática nacional de todos os governos que já se passaram por esta terra tropical… Mas o ano é eleitoral, né?

    Só para lembrar a extraordinária capacidade de fazer obras difíceis em lugares difíceis, vamos mencionar a Transamazônica (US$ 1 bilhão enterrados em nada); vamos mencionar o Hospital Regional (não sei se o nome é este mesmo, mas tem o esqueleto dele lá no CPA, eu acho) aqui de Cuiabá (nunca concluído)… Seletividade é tudo no jornalismo aqui de MT.

    Dica de hoje: “Os donos do poder” de Raymundo Faoro. De quebra pode ler o “Raízes do Brasil” de Sérgio Buarque de Holanda.

  4. - IP 95.211.226.37 - Responder

    O PT pode não ter inventado o aparelhamento, mas o adotou como prática e a generalizou na administração pública brasileira. Nos Correios, para ficar num exemplo, o aparelhamento atingiu toda a escala de funções, contaminando completamente uma empresa que já foi referência mundial e hoje só piora a cada dia que passa, com os trabalhadores que realmente querem fazer seu trabalho cada vez mais desmotivados porque não enxergam futuro. A situação é muito grave e seu ônus recairá sobre as novas gerações que herdarão instituições contaminadas por essa praga que joga por terra a chance de haver boas instituições públicas. Sem boas práticas, que valorizem o mérito, empresas e órgãos públicos como os Correios estão perdendo sua razão de existir e se transformando em imensos e caros cabides de empregos para os “amigos do poder”. Ou o Brasil acaba com essa praga do aparelhamento político-partidário de estatais e órgãos públicos ou essa praga acabará certamente (e muito rápido) com o Brasil.

  5. - IP 177.201.96.88 - Responder

    Onofre é a ignorância eloquente. É responsável por tudo o que ataca. Quando o TJ de MT passava por escândalos foi contratado para “mudar” a imagem da instituição. Naquele trabalho nunca questionou as causas da imagem deteriorada… Agora vem com esse discurso? Quer enganar a quem, Onofre, desta vez?

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