O sonho dos publicitários é criar situações e bordões que acabem virando gíria ou expressões repetidas pelo povo, relacionando, no começo, com o produto anunciado, mas que, ao longo dos anos, acabam por ter vida própria.

Mas pega, hein?

Por Sergio Antunes

Algumas expressões que a gente incorpora ao nosso linguajar de cada dia são frutos do fato de se estar inserido no mundo. E, neste mundo em que vivemos, não são apenas os fatos e as pessoas que formam nossas circunstâncias. Falei difícil não? Nossas circunstâncias são, também, o que ouvimos e vimos na mídia, na esquina, no jogo de futebol ou na missa.

Antigamente, quando era criança, o rádio começou a ter correspondentes em outras cidades e eles se comunicavam por intermédio de link, ou seja, várias torres de retransmissão ao longo do caminho. O primeiro link que se formou foi de São Paulo para o Rio e vice-versa. Assim, quando, numa transmissão, se ouvia uma voz chamando o locutor que transmitia o evento de São Paulo, speaker, era o termo da época, ele dizia para a voz: fala Rio.

Até hoje, quando alguém me chama, eu digo: fala, Rio. O que ninguém nem sempre entende.

O sonho dos publicitários é criar situações e bordões que acabem virando gíria ou expressões repetidas pelo povo, relacionando, no começo, com o produto anunciado, mas que, ao longo dos anos, acabam por ter vida própria. “Nós viemos aqui pra beber ou pra conversar?”. Era um comercial da Antártica. A cerveja vendeu muito, tanto que foi vendida para a Brahma. Mas a expressão ficou.

Outros exemplos. Um refrigerante, nos anos setenta, inventou de chamar de bocomoko quem não se refrescasse com seu guaraná. Virou sinônimo para qualquer situação em que alguém se mostrasse um boboca, se vestisse mal, fosse um nerd. Fulano é um bocomoko.

Ou, se alguém perguntasse ao outro: tudo bem?, o perguntado logo respondia tá tudo magiclick, que era um acendedor de fogão que dispensava o uso de fósforos.

A Exposição, uma loja que ficava na esquina da Praça do Patriarca e que, nós do interior, quando chegavam as férias, tínhamos que visitá-la para renovar o guarda-roupa com as novidades da capital, esta loja criou um slogan: “basta ser um rapaz direito para ter crédito na Exposição”. Até hoje, se me perguntam se fulano ou beltrano é boa gente, se for eu não titubeio: ele tem crédito na Exposição. A loja fechou faz muito tempo. Mas o crédito de quem é rapaz direito ainda permanece.

Aliás, o sonho dos publicitários é encaixar uma expressão dessas. “Desapega, desapega”, anuncia um site de vendas. “Sabe nada, inocente”, contesta outro. Sem falar no fato de que uma pessoa de múltiplos talentos é um Bombril e se você está numa enrascada, não custa apelar para um “upa, lelê”, igual ao comercial da televisão.

Os programas humorísticos criaram grandes expressões: Xi, lá vai barão!, se referindo às despesas que seriam pagas com a nota de cinco mil cruzeiros, que trazia o Barão do Rio Branco como esfinge. “É mentira, Terrrrta”, imortalizado por Chico Anísio, “uhm, só porque sou baixinho”, consagrado pelo tipo anão do Jô Soares. E, para quem é muito mais antigo, lembro-me da palavra Ximbica, nome da galinha do primo pobre, do programa Balança Mais Não Cai, da antiga Rádio Nacional do Rio de Janeiro, patrocínio de Eucalol, um sabonete fabricado pela Perfumaria Mirta. Agora eu fui fundo. Ximbica virou, depois, sinônimo de carro velho e, depois ainda, sinônimo de coisa velha e estragada.

Mas, antes que me embalsamem, vou contar que, na minha vida, repito todas essas expressões e mais algumas, fruto de situações que vivi e que se tornou parte do meu folclore pessoal.

Quando era adolescente, passava férias numa quitinete em São Vicente. Eu e mais uns doze, onde cabiam três. O Prata, o Guto, o Bosco e, entre outros, o Lão, que era o irmão mais novo do Caio, filho do dono da quitinete. Aí o Lão resolveu namorar a filha do zelador do prédio e, como namorado, foi passear na orla da praia. Não tinha muito o que conversar. Por isso, ocorreu a ele ler os nomes dos prédios. “Descartes”, ele leu em voz alta, caprichando na pronúncia francesa aprendida na classe do Professor Benoir. E perguntou para a namoradinha: você conhece Descartes? Ao que ela respondeu prontamente. Eu não. Só conheço Santos e São Vicente.

Sempre que eu não conheço a resposta, não deixo de dizer ao interlocutor perplexo, só conheço Santos e São Vicente.

Há quem ache que me droguei.

O Amir, aquele amigo que me contou da namorada do amigo que, de tão novinha, comemorava aniversário num quindim de padaria, contou outras.

Uma delas era a história de uma tia dele, já adiantada em anos, que morava em Piratininga, uma cidade pequena e próxima de Bauru. Às vezes ela ia passear na grande metrópole, se emperiquitava toda, punha ruge e batom, pegava a bolsa, que o Amir dizia que parecia um frango que ela carregava de baixo do braço segurando pelo pescoço, pegava o ônibus e descia na Vila Falcão, onde a amiga, outra senhora avançada na idade, a esperava. Ela só tinha coragem de enfrentar os perigos da cidade grande, Bauru, porque a amiga de confiança esperava na porta do ônibus.

Um dia a amiga não pode esperar e mandou um sobrinho, um garotão que não tinha cara de bocomoko, muito ao contrário. Quando ele avistou aquela que poderia ser a amiga da tia, perguntou: “você é a Hakme? Vim te pegar”. E a velhinha, sentindo falta da amiga, com o frango debaixo do braço, falou: mas pega, hein? E se mandou.

Assim, se alguém me diz que vai me pegar, em qualquer sentido, eu não resisto. Dá pra resistir?

Sergio Antunes é poeta e escritor
Contato: [email protected]
BLOGUE ALGO A DIZER

 

Categorias:Quebra Torto

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