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CUIABÁ

Assim caminha a Humanidade

ESQUERDA, VOLVER: Que bom, a passagem da blogueira cubana pelo Brasil, ajuda o Brasil a se voltar para Cuba. Reproduzo, aqui, o duelo de Valter Pomar e Eugênio Bucci, dois petistas, sobre o tema.

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Eugênio Bucci e Válter Pomar, dois petistas em duelo em torno da revolução cubana e seu legado


A direita brasileira não se esquece de Cuba. E há anos, sempre hegemonizada culturalmente pelos gringos dos Estados Unidos, essa direita ideológica sustenta aqui no Brasil um jogo senão pesado pelo menos persistente contra Cuba e a revolução cubana. Quem para para refletir, todavia, logo percebe algumas possiveis razões para este ódio, alimentado lá do núcleo do imperialismo norte-americano: é que revolução comandada por Fidel Castro, Che Guevara e um grupo reduzido de revolucionários, animados pelas teorias do marxismo-leninismo, espalhou como que um rastilho de pólvora que virou o mundo de ponta cabeça, a partir dos anos 60. A utopia da pátria socialista se desenhou na pequena ilha do Caribe e se espalhou por corações e mentes em todo o planeta. E continua reverberando até hoje. Sim, Cuba se transformou num símbolo formidável de rebeldia, rebeldia indomável que a violenta máquina de poder dos norte-americanos jamais conseguiu dobrar. Che Guevara já se foi, mas sua forte marca de jovem libertário e integralmente idealista sobrevive a toda sorte de chincana. O filme que o cineasta Walter Salles  fez sobre ele, é belissimo. Além das ameaças militares, a guerra ideológica em torno deste referencial de transformação que é Cuba sempre se manteve muito intensa. Aqui no Brasil, muito contribuiram para forjar a solidariedade de uma grande parte dos brasileiros a Cuba, personalidades como Oscar Niemeyer, Jorge Amado, Chico Buarque, Nelson Werneck Sodré, Fernando Morais, Florestan Fernandes, etc, etc, que sempre colocaram em destaque a símbolica resistência da Ilha. Que Cuba, tão pequena, tão isolada, e tão próxima do alcance dos misseis norte-americanos, tenha sobrevivido ao tempo e continue sobrevivendo, é um daqueles gloriosos mistérios que só se explica através das contradições da História. A vida nunca se conta em linha reta. Há muito que se desvendar em Cuba. Eu mesmo já defendi e continuo a defender formas de escolha de dirigentes que evitem confundir a Ilha com a familhocracia dos Campos, em Mato Grosso, e dos Sarney, no Maranhão. Mas ninguém pode negar a importância de que se defenda Cuba e a revolução. Quem foi para as ruas do Brasil, nestes últimos dias, se manifestar contra a passagem por aqui da blogueira Yoani Sanchez, imagino que tenha procurado atuar na defesa de Cuba e da revolução, tentando calar aquela que é apontada como uma quinta coluna encravada lá dentro de Cubá para servir aos interesses do imperialismo. Bobagem, opino eu, embora o direito de manifestação seja livre em nosso glorioso país, onde a democracia está sendo reconstruida a partir da liderança de tantos brasileiros polarizados ideologicamente pelo exemplo de Cuba. A grande mídia abre espaços para a blogueira por que tenta sempre desqualicar as referências políticas e ideológicas da esquerda brasileira. Mais uns dia e imagino que ela pode até ser  inscrita para participar num futuro BBB, pela Globo. A grande midia deve ficar muito feliz quando vê gente bradando contra essa senhora, dando mais realce a suas manchetes e aos conclaves de que ela participa. Acho que os manifestantes deveriam deixar Yaoni Sánchez em paz, na sua irrelevância e criar grande mobilizações de solidariedade a Julian Assange, por exemplo. Haveria outras possibilidades. A gente não pode é entrar na pauta da direita, penso num primeiro momento. Deixa este assunto para a Adriana Vandoni que pode ter se filiado ao PDT, como o Pedro Taques, mas jamais vai deixar de ter a cabecinha dominada pelos referenciais de um lacerdismo tardio. Por outro lado, a passagem da blogueira serviu para colocar Cuba mais uma vez nas manchetes, nos debates, na tv, nos blogues, na mídia. E assim se abre mais uma oportunidade para que se perceba que o que Fidel, Guevara e os guerrilheiros de Sierra Maestra fizeram foi qualquer coisa de fenomenal. Os cineastas Oliver Stone e Steven Sodenbergh, por acaso cineastas norte-americanos de grande brilho, já mostraram isso, com produções cinematográficas que vieram de lá do coração do império. E mais não escrevo porque preciso me recuperar da virose que esquenta e enche de dores o meu corpo. Para animar o debate, reproduzo abaixo dois artigos sobre o tema, escritos por polêmistas que prezam a civilidade. Trata-se de um pequeno duelo do respeitável Valter Pomar, dirigente do PT, contra o não menos respeitável jornalista Eugênio Bucci. Confira o noticiário. (EC)
VEJA O QUE EUGENIO BUCCI ESCREVEU NO ESTADÃO:
Para Cuba, com carinho
Eugênio Bucci * – O Estado de S.Paulo
A visita da blogueira cubana Yoani Sánchez ao Brasil, esta semana, mobilizou opiniões de todo tipo. Ainda ontem, em Brasília, parlamentares reagiram de modos antagônicos à presença dela no Congresso Nacional. Uns, como o senador petista Eduardo Suplicy, puseram-se de pé para aplaudi-la. Outros torceram o nariz. Representantes de autodenominados “movimentos sociais” esgoelavam-se para xingá-la de “agente da CIA”, etc., como já tinham feito no Recife.
Eram reações esperadas, assim como era esperado que Yoani roubasse a cena em todos os noticiários. Simpatizantes do governo cubano, mesmo os de boa-fé, dizem que tudo não passa de propaganda da imprensa burguesa contra o socialismo dos irmãos Castro. Não é bem assim. Colunista deste jornal, autora do livro De Cuba, com Carinho (Editora Contexto), uma antologia de crônicas em que descreve com acidez e delicadeza o seu cotidiano em Havana, Yoani é uma dessas pessoas que se tornam símbolo de uma causa. Está para a ditadura cubana, hoje, mais ou menos como Nelson Mandela, guardadas as proporções, esteve para o apartheid na África do Sul, tempos atrás. Conquistou notoriedade internacional e foi apontada como uma das pessoas mais influentes do mundo pela revista Time.
Os militantes que aqui a hostilizam com ares de fúria deveriam parar para refletir e considerar, ao menos considerar a hipótese de que o interesse público em torno da figura frágil dessa mulher não venha de nenhuma estratégia de propaganda engendrada pelo imperialismo ianque. Não somos todos nós, aqui, cordeiros obedientes do Tio Sam, por mais que tenhamos um dedo de simpatia por Barack Obama (por sinal, é bem pouco provável que o Tio Sam, esteja ele onde estiver, esteja preocupado com uma blogueira de Havana). Yoani Sánchez é notícia não por obra de uma conspiração internacional. Em primeiro lugar, ela é notícia, em boa parte, graças à barulheira de seus detratores, que fazem com que sua passagem por aqui vire um incidente de parar o trânsito. Em segundo lugar, e no que mais importa, ela é notícia porque, em sua saga pessoal, se escancara a grande contradição da qual Cuba nunca soube se libertar. Em Yoani vemos o significado final de mais de meio século da tirania da opinião que tomou conta da ilha. Na história dessa blogueira podemos vislumbrar o que foi feito (e desfeito) das utopias coletivistas que ainda enrijecem a fisionomia da América Latina. Sob qualquer perspectiva, Yoani é notícia. Os seus movimentos interessam a qualquer cidadão que preze a liberdade.
É certo que autocracias existem em toda parte do globo terrestre, enclausurando dissidentes (como em Cuba) e perseguindo homossexuais (os de Cuba chegaram a ser confinados). Por que, então, falar tanto de Cuba e tanto de Yoani Sánchez? Porque essa mulher é a prova viva da promessa libertária não cumprida pelos Castros, uma promessa que seduziu e envolveu, em seu início, algumas das maiores inteligências do nosso continente. Falar de Cuba – e de Yoani – é entender a nossa História.
Aí vêm as acusações conhecidas. Ela recebe fortunas do exterior. Colabora com o imperialismo. Mente. Ora, e daí? Mesmo que isso seja absolutamente verdadeiro, não muda nada. Mesmo que ela não passe de uma embusteira, isso por acaso retira dela o direito de viajar para onde bem entender?
Agora Yoani conseguiu o seu passaporte, mas não foi simples. Foram 20 tentativas frustradas. Ela era uma prisioneira, como muitos de seus conterrâneos são até hoje. O regime castrista, acuado, teve de ceder, teve de outorgar-lhe o documento como se fosse um indulto. Mas até aqui vinha prevalecendo o argumento de que, sob suspeita de ser uma agente provocadora, uma cubana não poderia sair do país. Os militantes que a hostilizam deveriam refletir um pouco: desde quando isso é democracia? Mesmo que Yoani defendesse abertamente os Estados Unidos – o que ela não faz, pois, entre outras coisas, critica o bloqueio imposto por Washington contra Cuba -, por que isso deveria retirar dela o direito de ir e vir? Com base em que princípio dos direitos humanos?
O fato é que a simples existência de Yoani Sánchez desmascara o arbítrio que se fantasia de democracia participativa. A democracia não se resume ao respeito à vontade da maioria (se é que, em Cuba, a maioria apoia mesmo o regime); a democracia exige igual respeito aos direitos da minoria, mesmo que essa minoria não passe de uma só pessoa. O socialismo que cobra seu preço em liberdade não pode ser chamado de igualitário. O socialismo que faz a História girar para trás, que volta no tempo, que adota uma ordem mais repressiva e mais primitiva que a do liberalismo político, não constitui um avanço, como se diz, mas um retrocesso (quase sempre com traços de selvageria). Quando as massas, embriagadas pela crença de que exercem o poder das multidões, marcham para silenciar os desviantes, a serviço de um governo, o que se tem é o germe do totalitarismo, nunca a libertação.
Que agora, no Brasil, alguns jovens tenham tentado, aos berros, impedir Yoani de falar é compreensível. Talvez seja até aceitável. Apesar de deselegante, esse tipo de protesto faz parte do código gestual do embate político (este modesto escrevinhador, quando estudante, já participou de manifestações assim, tentando cassar a palavra das autoridades do governo em solenidades públicas). Mas agora a ilusão que move os manifestantes contra Yoani é mais problemática. Eles tentam suprimir a expressão de uma pessoa comum, para que nela ninguém veja o vazio insuportável do regime político que adotaram como religião.
No Jornal Nacional de terça-feira, o senador Suplicy, ao lado da visitante cubana, apareceu com o rosto transtornado, gritando, tentando acalmar os que a insultavam: “Tenham coragem de ouvir!”.
Não adiantou. Eles estavam surdos. Inabaláveis em sua fé.
* Eugênio Bucci é jornalista e professor da Eca-USP e da ESPM.
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LEIA AGORA A REPLICA DE VALTER POMAR, EM SEU BLOGUE
A fé de Eugênio Bucci
Por Valter Pomar
Sempre que posso, leio as colunas de Eugênio Bucci, jornalista filiado ao PT e colunista de Época e do jornal O Estado de S. Paulo.
Leio porque invariavelmente discordo do que ele escreve (com pelo menos uma exceção importante, o que ele disse acerca do facebook, ao qual tive que me curvar por razões, digamos, profissionais).
Aos que acham estranho, explico: considero um ótimo exercício intelectual polemizar mentalmente com adversários políticos e ideológicos.
Mas não costumo escrever o que penso, mais por falta de oportunidade. Desta vez, contudo, fiquei empolgado com um texto de Eugênio, denominado Para Cuba, com carinho (OESP, 21 de fevereiro).
Como indica o título, o texto de Bucci gira ao redor da blogueira cubana Yoani Sánchez.
Não vou repetir aqui o que penso acerca dela, bem como das manifestações que sua visita gerou – quem estiver interessado, há uma entrevista minha a respeito no www.pt.org.br
Também não vou polemizar com Bucci acerca de Cuba. Suas críticas ao socialismo cubano são absolutamente convencionais. Prefiro ler Padura!
O que me empolgou desta vez foram duas passagens, que revelam aspectos muito interessantes acerca do pensamento do petista Eugênio Bucci.
A primeira passagem é a seguinte: era esperado que Yoani roubasse a cena em todos os noticiários.
Esperado? Por qual motivo? Por quem? O que afinal justifica o espaço dado, na mídia brasileira, para a blogueira cubana?
Segundo Bucci, isto teria ocorrido porque Yoani é uma dessas pessoas que se tornam símbolo de uma causa. Está para a ditadura cubana, hoje, mais ou menos como Nelson Mandela, guardadas as proporções, esteve para o apartheid na África do Sul, tempos atrás.
Claro: guardadas as proporções, todo anão se transforma em gigante. E o gato de Alice, olhando bem, fica parecido com a Mona Lisa.
Para Bucci, no que mais importa, ela é notícia porque, em sua saga pessoal, se escancara a grande contradição da qual Cuba nunca soube se libertar. Em Yoani vemos o significado final de mais de meio século da tirania da opinião que tomou conta da ilha.
Buenas, eu tenho muita dificuldade de tomar a saga pessoal desta senhora como representativa dos problemas realmente existentes em Cuba e das dificuldades vividas pelo cubano médio, agora e ao longo das últimas décadas.
Convenhamos, o cubano médio não recebe a grana que ela recebe. Aliás, se todo cubano recebesse uma mesada da direita internacional, em troca de falar mal dos problemas existentes em seu país, isto certamente geraria divisas para o Estado cubano que compensariam parte dos problemas causados pelo bloqueio. Seria uma espécie de reparação…
Mas tudo bem: cada um de nós tende a produzir heróis a sua imagem e semelhança. Se Bucci vê Yoani como uma Mandela tropical, que se há de fazer?
Mas é exatamente aí que aparece a empolgante segunda passagem do texto de Bucci.
Segundo ele: Aí vêm as acusações conhecidas. Ela recebe fortunas do exterior. Colabora com o imperialismo. Mente. Ora, e daí? Mesmo que isso seja absolutamente verdadeiro, não muda nada. Mesmo que ela não passe de uma embusteira, isso por acaso retira dela o direito de viajar para onde bem entender?
Opa, opa, opa. Como não muda nada?
Se Mandela fosse um agente do apartheid, isto não mudaria nada???
Se tudo for absolutamente verdadeiro, se Yoani é mesmo uma mercenária, então a comparação entre ela e Mandela é puro delírio. E o fato dela ter espaço na mídia brasileira estaria mais para conspiração, do que para interesse jornalístico legítimo.
Até porque, convenhamos, ela agora tem o direito de viajar para onde bem entender. Não por uma espécie de indulto, como diz Bucci, mas porque a legislação migratória de Cuba mudou.
Yoani pode mesmo viajar o quanto quiser, pois está muito longe de ser uma pessoa comum: ela tem os recursos financeiros, obtidos já se disse como.
O ponto é: ao admitir que para ele não muda nada alguém mentir, colaborar com o imperialismo, receber fortunas do exterior e ser uma embusteira, Bucci rebaixa sua capacidade analítica à condição de fé.
E como fé não é minha praia, deixo aos que entendem responder se boa ou má.
Valter Pomar, membro do Diretório Nacional do PT

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JUACY SILVA: A grande maioria das cidades mundo afora, inclusive no Brasil, mais se parecem com áreas segregadas

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CIDADES VERDES E SUSTENTÁVEIS

JUACY DA SILVA

Todas as pessoas, com raríssimas excessões, gostariam de viver em cidades limpas, sem esgoto correndo a céu aberto, com ruas, avenidas, praças, parques e quintais totalmente arborizados; com inúmeros parques, áreas verdes, margens de córregos e rios cobertos de vegetação e com águas limpas; cidades sem poluição oriunda das chaminés das fábricas ou de imensas frotas de veiculos que lançam diariamente milhões de toneladas de gases tóxicos na atmosfera; sem favelas e habitações que não atendem aos requisitos da dignidade humana, com sistema público de transporte, eficiente, seguro, movidos por fontes de energia limpa e renovável; com calçadas que permitam que idosos, crianças, pessoas com deficiência ou mulheres empurrando os carrinhos de seus filhos possam se locomover com segurança; sem lixões onde amontoam dezenas ou centenas de milhares de pessoas buscando no lixo seu sustento e sua comida do dia-a-dia, misturando-se com urubus, ratos, cobras e outros animais peçonhentos ou rejeitos tóxicos, onde a educação ambiental seja parte dos curriculos escolares em todos os niveis, para que as criancas, adolescentes, jovens e adultos possam despertar para a consciência ecológica/ambiental e melhor cuidarem do planeta.

Enfim, isto e muitos outros aspectos é o que fazem das cidades lugares aprazíveis para se viver, com qualidade de vida, com segurança e com saúde ou o que podemos denominar do BEM VIVER. Cidades assim são denominadas de CIDADES VERDES ou então CIDADES SUSTENTÁVEIS. Este deve ser o sonho de consumo de milhões e bilhões de pessoas que jazem `a margem da sociedade, excluidas econômica, social, ambiental e politicamente.

A grande maioria das cidades mundo afora, inclusive no Brasil, mais se parecem com áreas segregadas, verdadeiros apartheids sociais e econômicos,  onde convivem, as vezes lado a lado, uns poucos bairros ou residenciais de alto luxo, com características de uma cidade verde ou sustentável, e a maior parte do espaço urbano com as características que bem conhecemos e, as vezes, principalmente os governantes, fingem não perceberem que mais de 80% da população de algumas cidades vivem na mais precária e degradante situação e condição de vida.

Diante de tantos desastres e degradação ambiental que vem ocorrendo em diversas países, em todos os continentes, inclusive no Brasil, em todos os Estados e municipios, diante da constatação de que as mudanças climáticas estão se tornando uma ameaça `a vida no planeta e a própria sobrevivência da humanidade, parece que, a duras penas o nível de consciência ambiental vem ganhando espaço paulatinamente, mas, em minha opinião, ainda de forma muito vagarosa. Parece que ainda não acordamos deste sono letárgico, desta alienação que, de forma passiva nos impõe um olhar desvirtuado desta triste e cruel realidade.

Todavia, além desses aspectos, outro fator que também tem contribuido para este despertar vagaroso da consciância quanto `a gravidade da situação ambiental é que a população mundial, em praticamente todos os países está cada vez mais concentrada no meio urbano, onde é gerada a maior fatia do PIB mundial e também onde são produzidos os maiores volumes de gases de efeito estufa, oriundos, basicamente, dos diversas tipos de poluição, principalmente da poluição do ar e que são os maiores causadores do aquecimento do planeta e a maior causa das mudanças climáticas.

Diante do avanço da urbanização que tem ocorrido, principalmente nos paises do chamado terceiro mundo e também dos países emergentes, que, por ironia são os mais populosos, a preocupação com o desenvolvimento sustentável e com a presença do verde, tem se tornado um elemento crucial no que concerne ao planejamento estratégico e sustentável das cidades. Daí, o surgimento do conceito de cidades sustentáveis e de cidades verdes.

No contexto da sustentabilidade e, principalmente, das cidades sustentáveis, o verde é condição necessária, mas não suficiente, para que as cidades possam, de fato, serem consideradas sustentáveis. No entanto, podemos afirmar, sem sombra de dúvida , de que sem o verde, abundante, sem arborização dos espaços públicos e privados, sem áreas verdes, sem áreas de proteção ambiental, sem quintais verdes, sem florestas urbanas, uma cidade, mesmo que tente atender `as demais dimensões da sustentabilidade, jamais poderá ser considerada uma cidade sustentável.

O verde é essencial para proteger as nascentes, as margens de córregos, dos rios e lagos, para sequestrar carbono e outros  gases tóxicos que são lançados diariamente e se acumulam na atmosfera, para embelezar a cidade, para dar sombra e frutos, para propiciar a existência da biodiversidade, para manter o regime das chuvas, para a valorização dos imóveis, para garantir saúde para todos e para melhorar ou garantir uma boa qualidade de vida.

O conceito de sustentabilidade como é conhecido e utilizado atualmente, surgiu em 1987, quando da apresentação do Relatório “NOSSO FUTURO COMUM”, produzido, a pedido da ONU, pela Comissão Brundtland, quando a idéia de desenvolvimento sustentável passou a ser uma preocupação e um dos mais importantes pressupostos do planejamento urbano e, também de cientistas e líderes mundiais.

Por decisão da Asssembléia Geral da ONU aquela Comissão tinha como missão e objetivo analisar os impactos que as atividades humanas tem ou tinham sobre os recursos naturais do planeta, ou seja, sobre o meio ambiente.

No entanto, mesmo antes do Relatório da Comissão Brundtland, nos EUA, em 1969, quando da aprovação da primeira legislação nacional de proteção ao meio ambiente, o conceito de desenvolvimento sustentável foi formulado/definido como sendo o desenvolvimento econômico que beneficie a atual geração (daquela época ou de cada época considerada) e também  sem prejudicar as futuras gerações e, ao mesmo tempo, sem causar danos (degradação ambiental) aos recursos do planeta, incluindo seus recursos biológicos/biodiversidade, as águas, o solo e o ar.

Daí surge a certeza, baseada em estudos, pesquisas e constatações científicas, de que os recursos naturais não são infinitos, mas sim limitados e não podem ser explorados de forma predatória, mas com parcimônia e no contexto do bem comum e da justiça ambiental.

Desde meados da década de 1960, com ênfase nos anos seguintes e com mais vigor na atualidade, em todos os centros de estudos, pesquisas e universidades a questão da sustentabilidade passou a ser objeto de análise em diversas disciplinas acadêmicas e, aos poucos surgiu a certeza de que apenas na interdisciplinariedade, em uma perspectiva holística, podemos pensar, planejar e gerir as cidades, tendo como foco central o que hoje conhecemos como CIDADES SUSTENTÁVEIS, CIDADES VERDES ou sustentabilidade urbana. Isto está muito próximo do que o Papa Francisco tem enfatizado na Encíclica “Laudato SI”, quando fala de ECOLOGIA INTEGRAL.

O ano de 2015 é um marco significativo para as relações da humanidade e a natureza. Naquele ano o Papa Francisco apresentou ao mundo a Encíclica LAUDATO SI (a chamada Encícilica Verde), enfatizando as idéias e conceitos de que tudo neste planeta terra, que é a nossa CASA COMUM, está interligado nesta teia de relações, de que os recursos naturais devem ser usados para o bem comum e a melhoria da qualidade de vida da população inteira e não apenas como um bem privado ou de apenas alguns países ou grupos dominantes, que visam única e exclusivamente a exploração irracional dos recursos naturais e o lucro, que é o motor de uma economia insana e desumana, razão pela qual o Santo Padre tem também insistido quando fala da NOVA ECONOMIA ou a ECONOMIA DE FRANCISCO.

Foi também em 2015 que a ONU, ao se encerrar o periodo do que eram considerados os OBJETIVOS DO MILÊNIO, foram substituidos pelos 17 OBJETIVOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENÁVEL e suas 161 metas, como forma de balizar o desenvolvimento dos países até o ano de 2030, a chamada AGENDA 2030.

Mais de 190 países firmaram o compromisso de atingir tais objetivos e metas até o ano 2030 em diversas áreas, a quase totalidade delas que tem uma estreita relação com o meio urbano, com as cidades, onde a cada ano uma maior proporção de pessoas fazem seu local de residância/moradia e trabalho.

Apesar de já terem se passado cinco anos desses marcos internacionais, muitos paises ainda ignoram, inclusive o Brasil, os Estados e municípios a importância desses objetivos e suas metas como bússulas para planejarem, definirem politicas, estratégias e ações para que os mesmos sejam conquistados.

De forma semelhante, apesar da ênfase contida na Encíclica Laudato Si e das constantes exortações do Papa Francisco, a grande maioria dos católicos, incluindo fiéis, sacerdotes ou mesmo membros da alta hierarquia da Igreja em diversas países, inclusive no Brasil, simplesmente continuam ignorando o conteúdo da Encíclica Verde, as exortações e apelos do PAPA e pouco ou quase nada existe em termos de atuação nas paróquias, dioceses e arquidioceses que demonstram que existe um empenho real da Igreja na defesa e cuidado com o meio ambiente.

Mesmo que praticamente todos os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável direta ou indiretamente estejam relacionados com o meio ambiente e com as cidades, onde vivem os maiores contingentes populacionais, alguns tem um significado maior para a sustentabilidade urbana.

Alguns estudiosos, tentam classificar ou agrupar os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) em quatro grupos, a saber: Dimensão social: 1) erradicação da pobreza; 2) fome zero e agricultura sustentável; 3) saúde e bem estar; 4) educação de qualidade; 5) igualdade de gênero e 10) redução das desigualdades; Dimensão ambiental: 6) água potável e saneamento básico; 7) energia limpa e acessível; 12) consumo e produção responsável; 13) ação contra as mudança global do clima; 14) vida na água; 15) vida Terrestre; Dimensão econômica: 8) trabalho decente e crescimento econômico; 9) indústria, inovação e infra-estrutura e 11) cidades e comunidades sustentáveis e, finalmente, Dimensão institucional: 16) paz, justiça e instituições eficazes e, 17) parcerias e meios de implementação.

Como em todas as classificações, não existem limites rígidos entre os grupos de objetivos, muitos ou todos estão inter-relacionados e os efeitos das ações ou omissões em relação aos mesmos também tem caráter holístico.

Por exemplo o Objetivo número 11 estabelece: “Tornar as cidades e os assentamentos humanos inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis”,  está intimamente relacionado com os seguintes objetivos:15 “Proteger, recuperar e promover o uso sustentável dos ecossistemas terrestres, gerir de forma sustentável as florestas, combater a desertificação, deter e reverter a degradação da terra e deter a perda de biodiversidade”, bem como o Objetivo 13. “Tomar medidas urgentes para combater a mudança climática e seus impactos” e tambem os demais objetivos inseridos no contexto da dimensão ambiental e, intimamente interligados com o de numero 2. “fome zero e agricultura sustentável”, principalmente com a agricultura urbana e periurbana e também com o objetivo 12. “consumo e produção responsável”, que se assim não acontecer estaremos produzindo a cada dia e a cada ano um volume muito maior de residuos sólidos/lixo, principalmente plásticos, que irão aumentar a poluição das águas (córregos, rios, lagos/lagoas e os oceanos).

Também é importante destacar que na elaboração e aprovação dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável é feita uma referência explícita ao Acordo de Paris, que estabeleceu uma série de compromissos de todos os países com medidas e ações que consigam reduzir as emissões de gases de efeito estufa de tal maneira que a temperatura média do planeta fique entre 1,5 e 2,0 graus centigrados a mais, considerando o marco temporal dos niveis pré-industriais.

Com certeza, o terceiro marco importante na questão ambiental foi, sem dúvida, a aprovação do ACORDO DE PARIS, também em 2015, estabelecendo que “Reconhecemos que a UNFCCC [Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima] é o principal fórum internacional e intergovernamental para negociar a resposta global à mudança climática. Estamos determinados a enfrentar decisivamente a ameaça representada pela mudança climática e pela degradação ambiental.”

Apesar deste compromisso solene, alguns paises, como os EUA deixaram o Acordo e outros, como o Brasil, pouco fazem para de fato, cumprirem integralmente os compromissos assumidos naquele Forum Ambiental Internacional.

Em 2018, o IPEA publicou um documento bem extenso (546 página) intitulado “AGENDA 2030 ODS – Metas Nacionais dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável”,  detalhando cada objetivo, suas metas e indicadores e quais são os compromissos firmados pelo Brasil para que em 2030, passamos dar a nossa contribuição para um mundo melhor, com melhor qualidade de vida, economicamente menos injusto, socialmente mais solidário,  ambientalmente mais sustentável e democraticamente mais transparente e participativo. Estamos muito longe de atingirmos aqueles objetivos e metas, apesar dos discursos falaciosos de nossas autoridades.

O que seria razoável é que tanto o Governo Federal quanto os governos estaduais e municipais incluissem, de forma explícita, tais objetivos, metas e indicadores em seus respectivos planos, politicas, estratégias e ações de governo, visando, de fato, um desenvolvimento sustentável, integrado, articulado, enfim, uma agenda cujo horizonte deve ser o ano de 2030, de acordo com a ONU e todos os paises, inclusive o Brasil, que se comprometeram com a AGENDA 2030.

No entanto, todas essas instâncias governamentais não conseguem sequer planejar os períodos de seus mandatos/gestões e nunca, ou praticamente quase nunca, uma adminstração/gestão governamental consegue dar continuidade `as ações de seus antecessores, acarretando paralização de obras e serviços públicos, desperdício de recursos humanos, materiais, financeiros e tecnológicos escassos, o que significa um verdadeiro crime contra a administração pública, a população e o país.

Quando falamos em cidades e comunidades sustentáveis, não podemos perder de vista que a primazia das ações deve ser dos poderes/organismos públicos, afinal, a população está a cada dia mais sujeita, no caso do Brasil, a uma das maiores cargas tributárias do mundo e pouco ou quase nada recebe em retorno na forma de obras e serviços públicos essenciais e de qualidade, incluindo servicos ambientais.

Todavia, existe um grande espaço para a ação voluntária, em todas as áreas relacionados com os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) onde participam cada vez mais as pessoas, as organização não governamentais (ONGs), os clubes de serviços e entidades sindicais representativas dos trabalhadores e do empresariado e, também, alguas Igrejas de diferentes credos e denominações.

Se houver conjugação de ações, tendo os ODS como referenciais, com certeza, poderemos contribuir sobremaneira para que as CIDADES VERDES E SUSTENTÁVEIS, sejam, de fato, uma nova face da sustentabilidade urbana. Sem isso, continuaremos vivendo em cidades que representam um verdadeiro caos, onde a violência, a exclusão social e econômica, a corrupcao, a marginalização social e a degradação ambiental estão presentes no dia-a-dia de milhões de brasileiros.

Na tentativa de identificar as características de uma CIDADE SUSTENTÁVEL OU CIDADE VERDE, mencionadas em diversas estudos e pesquisas disponíveis ao grande público e também aos gestores públicos e empresários, podemos mencionar alguns desses requisitos, a saber: 1) promover a agricultura orgânica urbana e peri-urbana (agroecologia, hortas domésticas, escolares e comunitárias); 2) encorajar dietas alimentares saudáveis, através da educação alimentar, com preferência para consumir alimentos orgânicos produzidos localmente; 3) reduzir o consumo e o desperdício de água, de energia e de alimentos, contribuindo para a redução da geração de lixo; 4) promover o re-uso, a RECICLAGEM e a economia circular; 5) estimular o VERDE, através de amplos programas de arborização dos espaços públicos e privados, estimular a criação de QUINTAIS e moradias VERDES; 6) recuperar e preservar nascentes e cursos d’água (córregos, rios etc) arborizando essas áreas; 7) estimular o cultivo de plantas medicinais e árvores frutíferas e promares  principalmente em áreas urbanas e peri-urbanas desocupadas (incluindo verdadeiros latifúndios urbanos); 8) reconectar a cidade (área urbana) com seu entorno (áreas rurais), estimular os cinturões verdes; 9) criar corredores ecológicos dentro das cidades e entre cidades de uma mesma região fortalecendo a biodiversidade; 10) criar, ampliar e manter ciclovias, estimulando a substituição do transporte motorizado individual e coletivo, uma das maiores fontes de poluição urbana; 11) estimular e incentivar o uso de fontes alternativas de energia limpa, como a energia solar e eólica abundantes no Brasil; 12) construir e manter calçadas verdes e ecológicas, que favorecem o escoamento das águas de chuva e o deslocamento seguro de pedrestres, pessoas com deficiência e mulheres com criancas de colo; 13) universalizar o abastecimento de água potável e esgotamento sanitário para todos os moradores, contribuindo sobremaneira para a melhoria da saúde pública e a qualidade de vida urbana; 14) promover a universalização da coleta e tratamento adequado dos resíduos sólidos/lixo; 15) promover a reciclagem de forma ampla, reduzindo signficativamente o volume de lixo que não tem destinação correta e contribui para aumentar os niveis de poluição urbana; 16) reduzir e controlar os niveis de poluição urbana (poluição do ar, das águas e do solo); 17) estimular a redução do consumo de energia e estimular a eficiência energética em todos os setores e atividades urbanas; 18) estimular práticas sustentáveis na indústria, no comércio, nos serviços públicos e privados, na agropecuária e silvicultura, que conduzam a uma economia verde, uma economia circular de baixo carbono; 19) estimular e promover sistemas de transportes urbanos sustentáveis, facilitando a mobilidade urbana, reduzindo os niveis de poluição urbana e as mudancas climáticas; 20) universalizar e garantir moradia dígna para todos os moradores das cidades, reduzindo drasticamente as habitações sub-humanas (favelas, casas de cômodo, palafitas e congêneres).

Com certeza, todos esses aspectos devem estar presentes no que poderiamos denominar de uma NOVA URBANIZAÇAO e em uma AGENDA URBANA SUSTENTÁVEL, sem o que se falar em cidades verdes e sustentáveis pode soar como apenas um reforço de discursos demagógico por parte das autoridades e gestores públicos.

Oxalá todos os municipios possam construir uma AGENDA URBANA SUSTENTÁVEL, para que até o ano de 2030 possamos ter milhares de CIDADES VERDES E SUSTENTÁVEIS em nosso país.

Este desafio é de cada pessoa e de todos os brasileiros, é uma verdadeira cruzada da cidadania em prol da SUSTENTABILIDADE URBANA, ningém pode se omitir, nem durante as eleições e muito menos após a posse dos novos eleitos. A cidade pertence, não aos seus governantes, que são transitórios, mas sim a todas as pessoas que nela vivem, lutam, trabalham, reclamam de suas mazelas e sonham com dias melhores!

JUACY DA SILVA, professor universitário, fundador, titular e aposentado UFMT, sociólogo, mestre em sociologia.

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