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MORA NA FILOSOFIA: Sartre sempre apostou numa alternativa para os impasses criados pelo poder do capital

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Sartre, a busca da liberdade e o desafio da história
Novo livro de István Mészáros, lançado no Brasil pela Boitempo, situa Jean-Paul Sartre em relação ao pensamento do século XX e aborda sua trajetória em todas as suas manifestações – como romancista, dramaturgo, filósofo e militante político. Interrogado sobre o motivo que o levou a escrever sobre Sartre, Mészáros respondeu: “Sempre senti que os marxistas deviam muito a ele, pois vivemos numa era em que o poder do capital é dominador, uma era em que a ressonante platitude dos políticos é que ’não há alternativa‘. Sartre foi um homem que sempre pregou exatamente o oposto: há uma alternativa, deve haver uma alternativa.
DA AGENCIA CARTA MAIOR
Publicado originalmente em 1979, o livro A obra de Sartre: busca da liberdade deveria ter tido um segundo volume intitulado O desafio da história, o qual analisaria a concepção sartriana de história. Devido a outros projetos, entre os quais a obra-prima Para além do capital, István Mészáros pôde retomar essa análise somente na presente edição, ampliada e atualizada, que a Boitempo disponibiliza ao leitor de língua portuguesa antes mesmo de seu lançamento em inglês. O livro situa Jean-Paul Sartre em relação ao pensamento do século XX e aborda sua trajetória em todas as suas manifestações – como romancista, dramaturgo, filósofo e militante político.
Escritor algum foi alvo de tantos ataques, de origens as mais variadas e poderosas, quanto Sartre: “Em 1948, nada menos do que o governo soviético de Stalin assume posição oficial contra o filósofo e, no mesmo ano, um decreto especial do Santo Ofício coloca no Index a totalidade de suas obras”, lembra Mészáros. Quais as razões disso? E como é possível que um indivíduo sozinho, tendo a caneta como única arma, seja tão eficiente como Sartre numa época que tende a tornar o indivíduo completamente impotente? Os escritos do filósofo marxista buscam não apenas as respostas, como também formulam novos questionamentos sobre a vida e a obra de Sartre, elucidando sua contribuição para o mundo.
Quando interrogado recentemente sobre o motivo que o levou a escrever sobre Sartre, Mészáros respondeu: “Sempre senti que os marxistas deviam muito a ele, pois vivemos numa era em que o poder do capital é dominador, uma era em que, significantemente, a ressonante platitude dos políticos é que ’não há alternativa‘. […] Sartre foi um homem que sempre pregou exatamente o oposto: há uma alternativa, deve haver uma alternativa; como indivíduos, devemos nos rebelar contra esse poder. Os marxistas, de modo geral, não conseguiram dar voz a isso”.
Ao afirmar tão categoricamente a importância de Sartre para a formação das novas gerações, Mészáros não defende sua escolha filosófica, ou seja, o existencialismo, mas compartilha plenamente de sua meta: a necessidade de uma rebelião contra o saber do “não há alternativa”. “Este livro pode ser visto como o encontro de duas atitudes que convivem num mesmo autor e o vinculam àquele que é o seu objeto de estudo: a profunda afinidade política e a enorme discordância filosófica que se podem constatar na relação entre Mészáros e Sartre. O que se eleva acima das controvérsias conceituais é a defesa de uma causa, o resgate de esperanças e expectativas maiores do que os instrumentos doutrinais que utilizamos para tentar realizá-las”, ressalta o professor de filosofia da Universidade de São Paulo Franklin Leopoldo e Silva na orelha do livro.
Para Mészáros, a importância da mensagem intransigente de Sartre sobre a necessária alternativa é maior hoje do que já foi anteriormente. O filósofo francês não viveu para ver grande parte das pessoas engajadas daquela época se render aos poderes da repressão em nome do privatismo e do individualismo. Por esse motivo, Sartre é hoje uma lembrança terrível e ao mesmo tempo imprescindível.
Trecho do livro “A obra de Sartre cobre uma área imensa e apresenta uma variedade enorme: desde artigos ocasionais até um ciclo de romances, desde contos até sínteses filosóficas vastas, desde roteiros cinematográficos até panfletos políticos, desde peças de teatro até reflexões sobre arte e música, e desde crítica literária até psicanálise, assim como biografias monumentais, tentando captar as motivações interiores de indivíduos singulares em relação às condições sócio-históricas específicas da época que os moldou e à qual, por sua vez, ajudaram a transformar. Não se pode dizer, contudo, que as árvores ocultam o bosque, muito pelo contrário.
O que predomina é a obra global de Sartre, e não determinados elementos dela. Embora, sem dúvida, se possa pensar em obras-primas específicas dentre seus inúmeros escritos, elas não respondem por si sós pela verdadeira importância que ele tem. Pode-se até mesmo dizer que seu ’projeto fundamental‘ global, com todas as transformações e permutações multiformes que sofreu, é que define a singularidade desse autor inquieto, e não a realização sequer de sua obra mais disciplinada.
Pois é parte integrante de seu projeto que ele constantemente mude e revise suas posições anteriores; a obra multifacetada se articula mediante as transformações dela mesma, e a ’totalização‘ é atingida mediante incessante ’destotalização‘ e ’retotalização‘. Desse modo, sucesso e fracasso tornam-se termos muito relativos para Sartre: transformam-se um no outro. ’Sucesso‘ é a manifestação do fracasso, e ’fracasso‘ é a realidade do sucesso.”
Sobre o autor Autor de extensa obra, ganhador de prêmios como o Attila József, em 1951, o Deutscher Memorial Prize, em 1970, e o Premio Libertador al Pensamiento Crítico, em 2008, István Mészáros se afirma como um dos mais importantes pensadores da atualidade. Nasceu no ano de 1930, em Budapeste, Hungria, onde se graduou em filosofia e tornou-se discípulo de György Lukács no Instituto de Estética. Deixou o Leste Europeu após o levante de outubro de 1956 e exilou-se na Itália. Ministrou aulas em diversas universidades, na Europa e na América Latina e recebeu o título de Professor Emérito de Filosofia pela Universidade de Sussex em 1991. Entre seus livros, destacam-se Para além do capital – rumo a uma teoria da transição (2002), O desafio e o fardo do tempo histórico (2007) e A crise estrutural do capital (2009), publicados pela Boitempo.
 
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O PERSONAGEM
Jean Paul Sartre
por KATIA BARROS
 
Jean Paul Sartre  foi um filósofo francês, escritor e crítico, conhecido representante do existencialismo.  Apoiou causas políticas de esquerda com a sua vida e a sua obra.    Sua filosofia dizia que no caso humano (e só no caso humano) a existência precede a essência, pois o homem primeiro existe, depois se define, enquanto todas as outras coisas são o que são, sem se definir, e por isso sem ter uma “essência” posterior à existência.    De sua primeira infância ao fim da adolescência, Sartre vive uma vida tipicamente burguesa, cercado de mimos e proteção.Até os 10 anos foi educado em casa por seu avô e por alguns preceptores contratados.
Após aprender a ler, Jean-Paul alterna a leitura de Victor Hugo, Flaubert, Mallarmé, Corneille, Maupassant e Goethe,com os quadrinhos e romances de aventura que sua mãe comprava semanalmente às escondidas do avô. Sartre considerava serem essas suas “verdadeiras leituras”, uma vez que a leitura dos clássicos era feita por obrigação educacional.A essas influências, junta-se o cinema, que frequentava com sua mãe e que se tornaria mais tarde um de seus maiores interesses.   Apenas seu avô o desencorajava da escrita e o incentivava a seguir carreira de professor de letras. Sem enxergar nele o talento que os demais viam, mas conformado com o fato de que seu neto “tinha a bossa da literatura”, incentivou Sartre a tornar-se professor por profissão e escrever apenas como segunda atividade. Assim, Sartre atribui ao avô a consolidação de sua vocação de escritor: “Perdido, aceitei, para obedecer a Karl, a carreira de escritor menor. Em suma, ele me atirou na literatura pelo cuidado que desprendeu em desviar-me dela”.   Em 1921 retorna ao Liceu Henri IV, agora como interno. Encontra Paul Nizan e os dois tornam-se amigos inseparáveis. De 1922 a 1924, ambos estudam no curso preparatório do liceu Louis-le-Grand, onde se preparam para o concurso da École Normale Superieure. Nessa época despertou seu interesse pela filosofia. Sua primeira influência importante foi a obra de Henri Bergson.   Em 1924 ingressou na École Normale Supérieure eventos sociais, Sartre torna-se muito popular entre os colegas. Os alunos da escola se dividem em grupos de afinidades religiosas (“ateus” e “carolas”), e facções políticas: Socialistas, comunistas, reacionários, pacifistas. Sartre adere aos ateus e aos pacifistas, Sartre mantém o individualismo e o desinteresse pela política que conservaria até o fim da Segunda Guerra. No campo filosófico, além de Bergson, passou a ler Nietzsche, Kant, Descartes e Spinoza. Em 1928 presta o exame de mestrado e é reprovado. Durante o ano de preparação para a segunda tentativa,  Conhece  Simone de Beauvoir que mais tarde se tornaria sua companheira e colaboradora até o fim da vida.  Na segunda tentativa do mestrado, Sartre passa em primeiro lugar, no mesmo ano em que Beauvoir obtém a segunda colocação.[24][25]   Sartre e Beauvoir nunca formaram um casal monogâmico. Não se casaram e mantinham uma relação aberta. Sua correspondência é repleta de confidências sobre suas relações com outros parceiros. Além da relação amorosa, eles tinham uma grande afinidade intelectual. Beauvoir colaborou com a obra filosófica de Sartre, revisava seus livros e também se tornou uma das principais filósofas do movimento existencialista.
Em 1938 publica o romance La Nausée (A náusea) e a coletânea de contos Le mur (O muro). A náusea apresenta, em forma de ficção, o tema da contingência e torna-se seu primeiro sucesso literário, o que contribui para o início da influência de Sartre na cultura francesa e no surgimento da moda existencialista que dominou Paris na década de 1940.   Em 1943 publica seu mais famoso livro filosófico, L’Être et le Néant (O Ser e o Nada) , que condensa todos os conceitos importantes da primeira fase de seu sistema filosófico.   Em 1964 vence o Prêmio Nobel de literatura, que ele recusa pois segundo ele “nenhum escritor pode ser transformado em instituição”. Morre em 15 de abril de 1980 no Hospital Broussais (em Paris). Seu funeral foi acompanhado por mais de 50 000 pessoas. Está enterrado no Cemitério de Montparnasse em Paris. No mesmo túmulo jaz Simone de Beauvoir.   Sartre defende que o homem é livre e responsável por tudo que está à sua volta. Somos inteiramente responsáveis por nosso passado, nosso presente e nosso futuro. Em Sartre, temos a idéia de liberdade como uma pena, por assim dizer. “O homem está condenado a ser livre”. Se, como Nietzsche afirmava, já não havia a existência de um Deus que pudesse justificar os acontecimentos, a idéia de destino, tal como descrita pelo cristianismo, passava a ser inconcebível, sendo então o homem o único responsável por seus atos e escolhas. Para Sartre, nossas escolhas são direcionadas por aquilo que nos aparenta ser o bem, mais especificamente por um engajamento naquilo que aparenta ser o bem e assim tendo consciência de si mesmo. Somos o que queremos ser, o que escolhemos ser; e sempre poderemos mudar o que somos.
Nesse sentido, o existencialismo sartriano concede importante relevo a responsabilidade: cada escolha carrega consigo a obrigação de responder pelos próprios atos, um encargo que torna o homem o único responsável pelas conseqüências de suas decisões. E cada uma dessas escolhas provoca mudanças que não podem ser desfeitas, de forma a modelar o mundo de acordo com seu projeto pessoal. Assim, perante suas escolhas, o homem não apenas torna-se responsável por si, mas também por toda a humanidade.   Sartre nega, ainda, a suposição de que haja um propósito universal, um plano ou destino maior, onde seríamos apenas atores de um roteiro definido.

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JOSÉ ORLANDO MURARO: Vou sair e tomar  umas cervejas….um tempo fresco ameaçando chuva…… qual é o futuro de um País que esquece os seus heróis?

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Os heróis das minhas camisetas

por José Orlando Muraro

 

Eu estava muito, muito feliz mesmo. Naquele ano de 1964 eu, finalmente, iria para a escola primária.

 

Logo no início daquele ano perguntei para a minha mãe quando começariam as aulas. Ela ficou em silêncio,  mordeu os lábios e se abaixou, ficando da minha pouca altura.

 

-Você não pode ir para a escola este ano ainda…só no ano que vem, quando estiver com sete anos completos.

 

Tentou explicar que a lei exigia sete anos completos e, como eu havia nascido em outubro, só poderia ir para a escola no outro ano.

 

-Mas eu só quero aprender a ler…… para ler todos estes livros que tem aqui em casa.

 

Comecei a chorar e saí correndo. Subi na árvore e fiquei lá. Era uma Acácia Imperial, que muitos chamam de Brinco da Princesa, com seus imensos cachos de flores amarelas…

 

Sensação muito ruim. Sentia-me azarado, amaldiçoado mesmo.

 

Na hora do almoço meu pai chegou. Vinha na bicicleta Royal inglesa, que havia comprado do meu avô. Olhou para a árvore e não falou nada. Entrou em casa.

 

Depois voltou, estendeu os braços e me tirou lá de cima.

 

-Eu e sua mãe achamos um jeito de resolver teu problema…..a gente vai ensinar você a ler…

 

Passei a tarde  angustiado. Ansioso. Quando eles chegaram, minha mãe vinha na garupa da bicicleta. Trazia cartolinas e um saco com outras coisas.

 

Em casa, meu pai pegou uma régua e foi traçando quadrados na cartolina. Minha mãe cortava os quadrados com a tesoura de costura.

 

Do saco de papel ela retirou dois pincéis atômicos. Nunca entendi este nome. Primeiro não é um pincel…é uma caneta…e depois…porque atômico?

 

Deixa para lá.

 

Ela foi escrevendo as letras, e meu pai separando em duas pilhas.

 

-São letras de forma, letra de livros e de jornais. Aqui estão as maiúsculas e aqui as minúsculas.

 

Pegou jornal e uma caneta esferográfica vermelha.

 

-Este  é o a maiúsculo e este o a minúsculo. Você vai procurar estas duas letras aqui no jornal. Vinte de cada uma. E toda vez que você as encontrar você terá que dizer  em voz alta: a maiúsculo ou a minúsculo. E todo dia você vai procurar uma letra diferente e sempre falando em voz alta, para você não esquecer.

 

Logo aprendi a ler. No outro ano, quando finalmente fui para a escola, pense num garoto orelhudo e com dentes de rato, mas firme nas botinas de orelhas, como eram conhecidas. Eu sabia ler ….somente eu….ninguém mais naquela turma….

 

Uma grande lição de vida para um garoto de apenas seis anos de idade. Em todo revés, em todos os contratempos da vida, sempre é possível virar a mesa e sair no lucro. Sempre você tem que ter um Plano B, e muitas vezes, um Plano C……

 

Aqui entra a questão dos heróis das minhas camisetas. Meu pai e minha mãe têm lugar garantido nelas.

 

E isto tem a ver com ARQUÉTIPOS……este substantivo tem mais de dez sinônimos. Ê um modelo, um exemplo, alguém em quem você tenta se espelhar, aprender e retirar boas e seguras lições para a vida em geral.

 

E às vezes, os exemplos vêm dos piores lugares.

 

Na casa dos meus pais o que tinha em demasia eram livros. E  não havia censura. Eu podia ler o que queria…até mesmo Memórias de um Libertino…..

 

Mas tinha um livro que meu pai lia , ou digeria, bem devagar. Lia umas folhas e o guardava, deitado sobre outros livros, bem no fundo da estante.

 

A curiosidade matou o gato. Imagine um garoto com 13 anos.

Quando meu pai saía para o trabalho, eu ia na estante e retirava o livro. Lia algumas páginas e o colocava no lugar, bem lá no  fundo, sobre os outros.

 

CELA 2455- O CORREDOR DA MORTE!

 

Autor: Caril Chessman, que foi condenado á morte em 1948 e executado na  câmara de gás em 1960 .

 

Eu não entendia porque meu pai estava lendo aquele livro.  O sujeito foi condenado por roubo, raptos  e estupros. Lutou 12 anos contra sua condenação, até ser executado.

 

Por que meu pai estava lendo aquele tipo de livro?

 

Certo dia estava tão absorto lendo e pensando, e não vi meu pai chegar.

 

Flagrante delito. Pego com a mão na botija.

 

Passou pela mesa, olhou o que estava lendo e foi para a cozinha. Passou um café  da hora e voltou. Me avançou um copo com café.

 

-Este não é um livro para um garoto da sua idade…..

 

Tinha que me defender. Atacando

 

-E porque o senhor está lendo este livro? Este cara não era um sujeito direito…

 

Tomou o café.

 

-Não…não era mesmo. Mas veja bem….ele está condenado e no corredor da morte….e o que ele fez? Estudou Direito por correspondência, para sustentar sua própria defesa,  escreveu quatro ou cinco livros contestando o seu julgamento, a forma como as provas foram obtidas, a ata que foi reescrita depois do julgamento….e uma série de outros fatos. Ele conseguiu colocar em xeque-mate o sistema judicial americano. Quando ele estava ainda vivo, em 1955 fizeram um filme baseado neste livro…

 

Acabou o café e  colocou a mão sobre o meu braço.

 

-Ouça garoto…na vida, por pior que seja a situação, sempre tem espaço para você lutar, não se abater e nem se dar por vencido.Leio este livro para nunca esquecer desta lição….não esmorecer, continuar lutando…

Bom, minha família passava por momentos difíceis. Meu pai tinha apoiado um candidato a prefeito em Ourinhos. Domingos Camerlingo Caló, que perdeu a eleição e morreu logo em seguida. O prefeito eleito, um tal de Rossi tinha sido cassado, porque em 1960 tinha escrito uma carta para Fidel Castro, parabenizando a Revolução Cubana.

 

Assumiu Mithuo Minami e começou a perseguição política contra meu pai.

 

Dava para entender o que ele estava dizendo. Não esmorecer, não se dar por vencido….

 

-È…ele estava no corredor da morte…mas continuou lutando..

 

-Sabe garoto. A verdade é que todos nós já nascemos no corredor da morte…só não sabemos quando a sentença será executada….mas todos nascemos no corredor da morte…..acabe de ler o livro…

 

-Não pai…..acho que o que eu precisava saber o senhor já me explicou.

 

Levantei e guardei aquele livro…..

 

Não sei….mas acredito que Caril Chessman poderia, sob determinadas condições, ser um herói da minha camiseta….ou não….muitos livros, filmes e texto foram publicados sobre ele…e sempre ficou a dúvida se realmente foi ele quem praticou os raptos e os estupros….62 anos depois da sua morte…..sei não…

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Mas houve outra lição de vida.

 

O herói da camiseta do meu pai, com certeza, era o boxeador Cassius Clay, depois que saiu da cadeia, Muhammad Ali.

 

Era um dançarino no ringue. Campeão mundial dos pesos pesados….

 

E se recusou a lutar no Vietnã, contra os vietcongs comunistas.

 

-Esta é uma guerra de brancos contra os vermelhos e querem que os pretos vão lá para matar amarelos. Eu não vou, disse ele.

 

Ficou três anos preso e teve o seu registro e o título mundial cassados. Quando voltou a lutar, perdeu duas vezes…..salvo engano, para Joe Frazier e Ken Norton….

 

Este era, sem dúvida alguma, o arquétipo para o meu pai.

 

Em dezembro de 1974 voltei para Ourinhos. Férias escolares. Estava estudando na Escola Técnica Everardo Passos, em São José dos Campos.

 

Liguei e avisei que chegaria de manhã bem cedo. Como sempre , fui de trem,. Estrada de Ferro Sorocabana.

 

Minha mãe abriu a porta, conversamos pouca  coisa e fui para o quarto, onde meu pai estava com a minha menor, de apenas dois anos.

 

Veja bem como era meu pai. Quando passei pela cozinha, na cadeira dele, na cabeceira da mesa, estava um engradado com 20 garrafas de cervejas. E ele  não bebia. Abri a geladeira e conferi: 4 cervejas geladas!!!

 

O dia  transcorreu com muita conversa, dormi depois do almoço e acordei com meu pai mexendo na cozinha. Fazendo o café da tarde.

 

Sentei na cadeira  na mesa da sala, e ele trouxe os dois copos. Levantou-se, foi até a estante e de um dos livros da coleção do Bartolomeu de Las Casas,  retirou uma página de jornal dobrado em quatro.

 

-Leia pra mim, em voz alta….já li várias vezes, mas quero que você leia.

 

BATALHA NA SELVA…..texto de um inglês, correspondente de um dos jornais de lá e que o Estadão de São Paulo tinha reproduzido.

 

Uma foto: Muhammad Ali em pé , e no primeiro plano, um outro lutador desabando, indo de cara no tablado do ringue.

 

O texto contava a história desta luta pelo título de campeão mundial dos pesos pesados. George Foreman e Muhammad Ali!

 

A luta aconteceu no Zaire, hoje República Democrática do Congo. O então presidente teria pago uma fortuna, tanto para Don King, o gerenciador, quanto para os dois lutadores. Queria divulgar seu país.

 

O texto seguia narrando o embate, round após round. E ele ressaltava que Ali apanhou seis rounds seguidos. Só nas cordas, se defendendo, e provocando Foreman.

 

-É só isto? Você não sabe bater mais forte?

 

Ou então: minha mãe bate mais forte do que você…

 

Seis rounds nas cordas. Apanhando , se esquivando, se defendendo.E provocando Foreman…..um verdadeiro bate-estaca  de músculo e força…

 

No sétimo assalto, Foreman está esgotado. Vem para o centro do ringue sem conseguir levantar os pesados braços. Muhammad Ali dança e redor dele e ataca. Um direto no rosto de Foreman. Ele desaba, sem dobrar as pernas. Cai literalmente de cara no tablado. Nocaute. Ali é  novamente campeão mundial dos pesos pesados.

 

Mas o texto não pára ai. Logo depois Ali explicou porque tinha apanhado durante seis assaltos.

 

Foreman era mais novo (25 anos contra 32) era mais alto, mais forte e com a envergadura dos braços bem mais comprida do que Ali. Estes eram os pontos de vantagem do Foreman.

 

Mas Ali narrou os pontos negativos: todas as lutas de Foreman não tinham ido além do segundo round.  E Ali explicou que estabeleceu a estratégia de segurar a luta até o último assalto. Teria que cansar o Foreman. Só assim teria espaço para entrar e acertá-lo. Apanhou seis assaltos, provocando o adversário. E depois o derrubou….

 

Fim do texto.  Dobrou e guardou no livro.

 

No outro dia fomos pescar. Sempre odiei pescarias e caçadas. Ser almoço de mutucas nunca foi do meu agrado. Mas eu ia para fazer companhia. Coloquei três garrafas de cervejas dentro da caixa de isopor. Repelente, disse eu.

 

Lá pelas tantas, quando o sol do meio dia bateu duro, meu pai veio e sentou na sombra da árvore onde eu estava. Sacou um sanduíche de pão e mortadela de um saco de papel e me ofereceu ou outro. Disse que não, ainda tinha cervejas para beber.

 

-Sabe  aquele texto da luta? Eu o guardei para que você o lesse. Ali tem duas lições de vida, e que você tem que aprender. Eu espero e torço para que sua vida seja longa…..

 

-Lição de vida…em uma luta de boxe?

 

A primeira lição: conheça teu inimigo. Estude-o. Nunca entre numa esparrela sem estudar a situação, sem saber com quem você está lutando ou demandando.. Foreman era mais novo, mais alto e mais forte. Eram pontos de vantagem…mas depois do segundo round Foreman ia colocar a língua para fora. Nunca se esqueça desta lição: conheça seu inimigo. Estude-o e elabore uma estratégia para derrotá-lo….Capiche?

 

Mastigou um pedaço do sanduíche.

 

-A segunda lição: se você souber o que quer, qual é seu objetivo, você se agüenta e agüenta apanhar. O objetivo de Ali era cansar o Foreman e só tinha um jeito de o fazer. Apanhando nas cordas….se defendendo, se esquivando dos golpes…..

 

-É muito louco….o cara decide apanhar de um sujeito mais forte do que ele…até cansá-lo…. tem que ter muita firmeza de pensamento.

 

-Você é jovem….mas saiba…..em muitos momentos você terá que ter clareza do que quer, aonde você quer chegar….passar fome e frio, dormir em banco de rodoviária…..você aguenta tudo isto desde que você saiba os motivos pelo qual está passando pelos perrengues…..

 

Por estas lições eu coloco Muhammad Ali na minha camiseta….

 

Mas a minha vida seguiu adiante. E as pancadas vieram….choveram nos meus lombos, para ser mais exato. E eu me agüentando…..

 

Muitos que me conhecem pensam que meu arquétipo favorito é o argentino Ernesto Guevara de La Sierna, o CHE…..errado, nada mais longe das minhas camisetas.

 

Uma história de vida que sempre me cativou, e eu a estudei foi a do general português NUNO ALVARES PEREIRA.

 

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É uma bela história de vida.

 

Nuno era filho bastardo do prior, chefe maior da Ordem dos Hospitalários em Portugal.

 

Aos 16 anos decide ser monge, mas seu  pai não aceita esta decisão e o casa com uma viúva,  mais velha do que ele, mas que tinha algumas posses. Tentava garantir um futuro para Nuno.

 

Em 1383 surge uma questão muito séria envolvendo Portugal e o reino de Castela. Morre Dom Fernando e deixa uma filha casada com o rei de Castela.

 

A burguesia portuguesa e os judeus apóiam Dom João, mestre  de Avis. É o início  da guerra. Todos são convocados.

 

Devido ao peso econômico e político dos Hospitalários, NUNO foi indicado para ser cavaleiro, e não pajem ou serviçal. Só tem um problema: ele não possuía uma armadura !!

 

Dom João, o futuro rei, lhe empresta a sua e o jovem é consagrado como cavaleiro.

 

Com um pequeno grupo, vai espionar o exército castelhano, que marchava para Lisboa. Relata ao mestre de Avis que era um exército imenso, mas mal dirigido e que poderia ser derrotado.

 

Em 1384, com apenas 24 anos, NUNO liderou o ataque aos castelhanos, na Batalha dos Atoleiross. Pela primeira vez, a cavalaria pesada foi derrotada por soldados a pé.

 

Em todas as batalhas que se envolveu, com número bem menor de soldados, Nuno Alvares sempre derrotou os castelhanos. Em 1385, com os castelhanos derrotados, as Cortes de Portugal confirmam Dom João como rei de Portugal, o primeiro da Casa de Avis.

 

Nuno Alvares foi nomeado CONDESTÁVEL , posto militar da mais alta graduação, abaixo apenas do rei.

 

Recebeu tantos títulos e mercês em terras, que era dono da METADE de Portugal. Mandou construir um mosteiro, do Carmo e após a morte da sua esposa, repassou terras para seus soldados e foi viver como monge carmelita. Com ele só ficou um grande caldeirão de ferro dos tempos de guerra, em que ele cozinhava para os pobres.

 

Decide ir pedir esmolas nas ruas para manter a comida para os pobres. O rei entra em parafuso: o maior general português, que tinha garantido a coroa e as terras portuguesas livres dos castelhanos….um  monge mendicante…..

 

O rei manda um emissário e implora para que NUNO não esmolasse pelas ruas de Lisboa. E o rei se compromete a mandar toda esmola que ele precisasse….

 

Porque colocaria NUNO ALVARES na minha camiseta?

 

Tem muitas histórias e lendas sobre ele….. mas o que me chama a atenção é que ele não  abandonou o seu sonho de juventude. Conseguiu todos os títulos, terras e imensas  honrarias…… mas abre mão de tudo, para ser um monge mendicante… seu desejo de jovem…..

 

Sem pestanejar, pelo pouco que narrei aqui e pelo muito que li sobre ele, eu o coloco na minha camiseta. Um herói, com certeza.

 

Deixando o medievo lusitano lá para trás, e vindo para tempos mais próximos, quero encerrar este texto escrevendo sobre DOIS heróis.

 

O mineiro  João  Guimarães Rosa é aclamado como um dos maiores escritores do Brasil. Não sei quantas vezes eu li Grandes Sertões:veredas…onde ele  narra a saga do cangaceiro Riobaldo Tartarana de fogo em  busca de vingança contra o Hermógenes, o coisa ruim, o tranca ruas.Belíssimo texto….e tem um pormenor: Tartarana se apaixona por  Diadorim, um outro cangaceiro…. querem saber o final desta questão? É só baixar na internet…..

 

Mas poucas pessoas, no Brasil, ouviram falar de sua esposa: Aracy Guimarães Rosa, com outros sobrenomes pelo meio do caminho.

 

Poucos brasileiros sabem sobre ela. Mas os judeus a apelidaram de O ANJO DE HAMBURGO….seu nome está inscrito em uma imensa lápide na porta do Museu do holocausto, em Israel.Os justos da terra.

 

O nome dela está em uma lista junto com Schindler e muitos outros….o anjo de Hamburgo.

 

Mas o que ela fez para  merecer tamanha homenagem em Israel?  E silencio total no Brasil…

 

Segunda Guerra Mundial. Na Alemanha os nazistas massacram, roubam, fuzilam e matam judeus em fornos e câmaras de gás nos campos de concentração.

 

João era cônsul do Brasil em Hamburgo, Cidade portuária no Norte da Alemanha.Ele tinha imunidade diplomática.

 

Aracy era simples funcionária e não tinha imunidade diplomática. Era poliglota e responsável por emitir vistos de viagem para o Brasil.

 

Eis a questão: vistos de judeus tinham que ter no canto um jota em vermelho. No porto de Hamburgo havia duas filas de embarque. Uma para os portadores de visto com o jota em vermelho e era a fila controlada pelo exército nazista.

 

A outra fila era para vistos de não-judeus e era controlada por um burocrata de plantão, que mal perdia seu tempo em verificar a documentação apresentada.

 

Consta que Aracy deixou de carimbar o jota vermelhoe em centenas de vistos, permitindo que famílias e mais famílias de judeus chegassem ao Brasil.

 

Só por isso já vale a estampa na camiseta.

 

Mas tem mais coisas. Ela desafiava tanto o poderio nazista como o próprio governo brasileiro, já que o ditador Getúlio Vargas tinha proibido a emissão de vistos para judeus!

 

Tem um documentário, com este mesmo nome, sobre o Anjo de Hamburgo…magistral. Uma mulher frágil, delicada, cm uma voz suave, colocava a própria vida em risco para salvar famílias de judeus. Dá para baixar o documentário pela internet.

 

O Anjo de Hamburgo é lembrada e homenageada em Israel…No Brasil, só silêncio. Nas aulas  de história, somos obrigados a decorar nome de traidores como o de Joaquim Silvério do Reis, da Inconfidência Mineira….mas nem uma linha de rodapé sobre esta mulher, heroína em Israel e esquecida em seu próprio País.

 

Outro brasileiro que consta deste imenso mural é o do embaixador Souza Dantas. Era embaixador na França ocupada pelos nazistas. E  ele fazia a mesma coisa que a Aracy….emitia vistos para centenas de famílias, sem os identificar como judeus!

 

Merecem uma estampa nas minhas camisetas….. dois brasileiros que colocaram as próprias vidas em risco e que não constam dos nossos livros de história…

 

Chega por hoje…..Vou sair e tomar  umas cervejas….um tempo fresco ameaçando chuva…… qual é o futuro de um País que esquece os seus heróis?

 

Chapada dos Guimarães, 15 de agosto de 2022.

 

Jose Orlando Muraro Silva, Escritor e jornalista, de Chapada dos Guimarães, MT. Fundador do jornal Pluriverso Chapadense

Portador da Síndrome de Asperger

 

Muraro, em foto de Hegla Oleiniczak

 

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