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Antes Arte do Nunca

MAESTRO FABRÍCIO CARVALHO: Cultura é comunicação, é educação. Não preciso grampear pra saber o que o outro pensa

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Antes Arte do Nunca


Comunicar para não grampear
POR FABRICIO CARVALHO
Tenho pensado no poder de comunicação das diferentes linguagens, nas ferramentas de que dispomos para alcançar o grande objetivo humano, que é a comunhão com nossos semelhantes.
E, na tarde da terça-feira (24 de outubro), quando participei do encontro de ideias do Grupo Coimbra de Universidades Brasileiras (GCUB), no Teatro da UFMT, tive ainda mais razões para voltar a pensar no caso.
Afinal, o tema daquele encontro, do qual participaram os professores da UFMT, Alfredo da Mota Menezes (mediador) e Celso Prudente (que falou de cinema), Rogério da Silva Lima, da UnB (que falou de literatura), e eu falando de música, foi justamente o da internacionalização da cultura no âmbito dos países do Cone Sul.
Ou, para sermos mais exatos, da internacionalização “pela cultura”. A partir da Universidade.
Mas, então, para alcançar essa tão sonhada internacionalização, é preciso definir o “como fazer”.
Universidades que têm aportes culturais desenvolvidos, progressistas, de altíssima qualidade, são as mais atrativas para pessoas que venham de outros países
Sim, a pergunta que se impõe é justamente esta: como fazer? De que modo pode a cultura contribuir com a internacionalização não só de nossas universidades como do país no seu todo, na economia, nas relações comerciais, mesmo na política, colocando-nos lado a lado com nossos hermanos?
A rigor, creio que o ponto central é encontrar a forma de comunicação mais adequada. Quem não comunica se trumbica, já dizia o Velho Guerreiro.
No caso específico do universo acadêmico, aparelhos de cultura funcionando para fixar estudantes, professores, pesquisadores vindos de fora.
Universidades que têm aportes culturais desenvolvidos, progressistas, de altíssima qualidade, são as mais atrativas para pessoas que venham de outros países.
Este é o caso, por exemplo, das universidades americanas, que oferecem bolsas para áreas do esporte. Fica a sugestão para as nossas, em especial à Unemat, IFMT e UFMT.
Agora, falando num sentido mais amplo, como podemos trocar saberes com os países da América do Sul ou mesmo da América Latina? Com o que podemos contribuir com eles, aprender com eles e vice-versa, em termos de cultura, economia, política, enfim, novos conhecimentos?
Para a comunidade internacional de pesquisadores que participou do evento, ficou evidente que a cultura é, sim, uma ferramenta muito importante.
Agora, pensando maior, para o país, talvez neste momento em que as diferenças entre pessoas, entre grupos, estão assim tão à flor da pele (o famoso “Fla-Flu” político), a cultura possa ser um elemento de equalização de diferenças porque ela é comum a todas as pessoas, a todas as nacionalidades e todos a veem com tolerância e simpatia.
O investimento em cultura e educação, neste momento em que o Governo retrai o aporte financeiro particularmente nessas áreas, talvez seja o mote para a reafirmação do sentimento de um Brasil soberano.
Cultura é comunicação. Cultura é educação. Este é o caminho. A cultura contribuindo para a integração latino-americana.
Um movimento que nasce no Brasil, sim, mas que passa necessariamente por Mato Grosso, até por nossa condição geográfica favorável, de laços fraternos, de cultura entrelaçada com os povos irmãos.
Eu não preciso grampear pra saber o que o outro pensa; se eu me comunicar melhor, se eu tiver elementos em comum com ele, se eu permitir que o outro se expresse com tranquilidade, sem intransigência, não preciso grampear.
Posso me comunicar e me fazer entender melhor.
Este é o caminho. Pela educação e cultura. E sem grampo.
FABRÍCIO CARVALHO é diretor artístico e regente titular da Orquestra Sinfônica da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). 
[email protected]

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A verdade vos libertará

LEANDRO KARNAL: Livro é um presente permanente. Ler é esperança, sempre

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Uma ponte de livros

Por Leandro Karnal

Sim! Você sobreviveu até a penúltima semana de 2020. Parabéns! Eu sei que os pessimistas estão dizendo: ainda faltam vários dias. É verdade. Seria tão injusto falhar agora! Viemos nadando com desafios desde março. A outra margem do rio está tão próxima. Sejamos otimistas: chegaremos todos a 2021.

Há uma possível pausa pela frente. Em algum momento você terá um pouco mais de folga. Chegou a hora de pensar estrategicamente: livros. Por quê? Não sei o que nos aguarda no ano próximo e novo. Sei que ele será mais bem vivido se houver mais pensamentos, maior conhecimento, mais informações. Atrás de sugestões para ter ou presentear? Farei algumas. Lembre-se sempre: um livro é um presente permanente que pode mudar a cabeça do agraciado.

Literatura? É o ano do centenário de nascimento de Clarice Lispector. A editora Rocco lançou um volume alentado e lindo com Todas as Cartas. É a correspondência da nossa maior escritora em um tomo que “fica sozinho em pé”. A leitura me trouxe um enorme prazer. Se o gênero correspondência não faz sua cabeça, mergulhe nos volumes da mesma editora com várias obras de Clarice: A Maçã no Escuro, A Legião Estrangeira, Onde Estivestes de Noite, O Lustre, Perto do Coração Selvagem, Felicidade Clandestina e A Bela e a Fera. São apenas alguns dos títulos lindos, com capas sedutoras e textos que vão alterar seu mundo.

Quer reencontrar outros clássicos? A Cia das Letras lançou Ressurreição, de L. Tolstoi. A luta de um nobre para reparar um erro grave do passado é o eixo daquele que, para mim, é uma das melhores obras do russo genial. Se Tolstoi o atrai, a editora Todavia reuniu 4 obras dele (Felicidade Conjugal, A Morte de Ivan Ilitch, Sonata a Kreutzer e Padre Siérgui) em um único volume.

Você sobreviveu a uma das mais transformadoras epidemias na história. Que tal ler A História das Epidemias, de Stefan Cunha Ujvari? Saiu pela editora Contexto. Aprende-se muito com o livro, bem escrito e solidamente pesquisado. Prefere o terreno argiloso da política e da sociedade? A pesquisa de Bruno Paes Manso resultou no necessário A República das Milícias. O livro proporciona análises indispensáveis e medos incontornáveis.

Leia Também:  MIRANDA MUNIZ: Se depender do relator da Comissão Especial da Reforma Política da Câmara dos Deputados, Marcelo de Castro (PMDB-PI), a legislação político-partidária ficará pior do que a existente hoje e, se aprovada, será um verdadeiro “tapa na cara” dos milhares de manifestantes que saíram às ruas denunciando os políticos “que não me representam” e exigindo alterações radicais na atual forma de representação e no mecanismo de eleição

Você prefere algo que o anime? Pedro Salomão lançou o Valor Presente – A Estranha Capacidade de Vivermos um Dia de Cada Vez pela Best Business. Tive o privilégio de fazer o prefácio. Na mesma linha, uma coletânea com textos exemplares de Mario Sergio Cortella: Sabedorias para Partilhar, da Vozes/Nobilis.

Quer discutir amor e casamento? Não perca Amor na Vitrine – Um Olhar Sobre as Relações Amorosas Contemporâneas, de Regina Navarro Lins. A psicanalista vai mexer com suas convicções tradicionalistas e desafiar seus censores invisíveis.

Eduardo Giannetti sempre faz pensar. Li com avidez O Anel de Giges, da Cia das Letras. Tomando a lenda platônica do anel que produz invisibilidade, o que restaria da ética? Um homem invisível precisa se manter com boas regras morais ou vai acabar se entregando a seus desejos e caprichos menos nobres de espírito? Foi a leitura que mais me provocou inquietações no ano de 2020. É genial a capacidade de Gianetti de combinar densidade com linguagem leve.

Você ou o seu amigo-secreto amam viajar? Guilherme Canever lançou dois tomos pela Pulp: Destinos Invisíveis – Uma Nova Aventura pela África e Uma Viagem Pelos Países Que Não Existem. Livros densamente ilustrados, com um olhar agudo para lugares inusitados.

A Autêntica vai fundo na alma humana ao lançar uma nova edição do Além do Princípio do Prazer. O livro chegou ao centenário agora e a cuidadosa tradução de Maria Rita Salzano Moraes ajuda a valorizar a obra fundamental do dr. Freud.

Foi um ano estressante, reconheçamos. Talvez seja hora de pensar em um texto sobre ansiedade e o desafio da saúde mental. O dr. Leandro Teles, pela editora Alaúde, lançou Os Novos Desafios do Cérebro – Tudo o Que Você Precisa Saber Para Cuidar da Saúde Mental nos Tempos Modernos. Acho que a grande meta de 2021 é o desafio do equilíbrio. O livro do dr. Teles ajuda muito.

Leia Também:  NAIME MARTINS: Diga você, o artigo 5º da Constituição brasileira é realidade ou utopia?

Você ama narrativas biográficas? A obra de Adam Zamoyski (Napoleão – O Homem Por Trás do Mito – ed. Crítica) prenderá sua atenção do início ao fim. O imperador raramente encontrou um biógrafo tão denso e sem lados definidos: sem o sempre esperado “monstro corso” (contra) ou gênio militar e político (a favor). Continua interessado em narrativas biográficas e domina inglês? Hildegard of Bingen – The Woman of Her Age, de Fiona Maddocks (Image Books), foi uma descoberta muito feliz. A entrevista final com a Sister Ancilla no mesmo mosteiro onde morou a santa medieval é um recurso muito interessante para iluminar a tradição da grande doutora da Igreja.

Anseia explorar uma área nem sempre devidamente destacada? Aventure-se pela obra A Razão Africana – Breve História do Pensamento Africano Contemporâneo (Muryatan S. Barbosa – Todavia). O Racismo Estrutural, obra crítica de Silvio de Almeida (editora Jandaíra), ajuda em um tema que foi destaque em 2020. Na mesma coleção, a coordenadora da série, Djamila Ribeiro, tem texto indispensável: Lugar de Fala. Você se preocupa com o universo feminino e suas muitas abordagens? Mary del Priore escreveu Sobreviventes e Guerreiras: Uma Breve História da Mulher no Brasil de 1500 a 2000 (editora Planeta). 2021 demandará consciência social. Prepare-se!

Muitos e bons livros para todos os gostos. Ler dá perspectiva, vocabulário, ideias e companhia. Um bom texto aumenta seu mundo e o faz sair do senso comum. Embeber-se em histórias é viver de forma ampla. Já é um bom projeto para 2021. Ler é esperança, sempre.

Leandro Karnal é historiador e escritor, autor de ‘O dilema do porco-espinho’, entre outros. Artigo publicado originalmente no jornal O Estado de S Paulo

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