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LUCINEIA SOARES: As 300 mil mortes no Brasil não são obras de Deus

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As 300 mil mortes no Brasil não são obras de Deus

POR LUCINEIA SOARES

 

Alguns irão dizer que: – Que blasfêmia esse artigo. Porém, asseguro para os crédulos que todas estas mortes podem até ter sido permitidas por ele (Deus), mas não são obras suas.

A frase “não cai uma folha da árvore se Deus não permitir” nestes momentos difíceis em que estamos perdendo familiares, amigos, amores, nos traz consolo, acalenta nossos corações, acalma as nossas dores.

Entretanto, essa mesma família que utilizará da fé para seguir, sabe o que viveu.

A impossibilidade de ficar em casa, em isolamento, a dificuldade para fazer o teste, em realizar os exames para fechar o diagnóstico, de conseguir todas as medicações necessárias, um leito no hospital e no agravamento do quadro, a busca dolorosa e angustiante por uma UTI e em algumas situações como no estado do Amazonas, nem o oxigênio, item essencial para garantir a vida.

Todo esse caos não é natural, assim como a pobreza, a desigualdade social, a violência contra as minorias (negros, mulheres, crianças, idosos, LGBTQIA+ etc.).

Naturalizar tudo isso, transferir a responsabilidade para outros, nesse caso, para uma questão espiritual, é uma estratégia utilizada há muito tempo para impedir que o povo questione.

Por que tantas mortes? Por que a vacinação está tão devagar? Por que faltou oxigênio? Por que as pessoas não respeitam o distanciamento, o isolamento, o uso das máscaras?

E a resposta não é porque Deus assim o quis.

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Quando a sociedade instituiu um ente denominado Estado e aqui vamos entendê-lo enquanto governos federal, estaduais, municipais, Poder Judiciário, Legislativo, Ministério Público, Defensoria Pública, que autorizaram por meio de um contrato social, que ele, o Estado, garantisse a vida, a propriedade privada e a liberdade, ainda que restrita, segundo os clássicos.

Aqui no Brasil o nosso atual Contrato Social é a Constituição Federal de 1988 e lá está garantido, entre tantos direitos, o direito à saúde enquanto um dever do Estado, garantido por meio de políticas sociais e econômicas.

E, para que o contrato seja cumprido, é preciso tomar decisões, definir prioridades, elaborar ações, executar e prestar contas à sociedade.

Então, se temos aproximadamente 300 mil mortes, além dos órfãos da pandemia, os que precisarão de reabilitação, alguém deixou de cumprir sua parte no Contrato Social.

E não foi Deus.

Algumas pistas podem nos mostrar quem falhou, quem foi omisso ou negligente.

O Tribunal de Contas da União apresentou no quinto relatório de Acompanhamento da atuação do governo federal no combate à COVID-19 vários questionamentos sobre a relação direta das ações com os objetivos, a falta de ação coordenada entre os Ministérios e a necessidade de estabelecer ações de impactos para questões importantes.

Em um momento de pactuação mundial, o governo brasileiro assumiu posições frente a outros países, como China e Índia, que podem ter trazido prejuízos no avanço da vacinação no Brasil, a demora em receber os insumos necessários para a fabricação da vacina pelas instituições brasileiras ou a demora em fechar acordos para a compra direta junto aos laboratórios fabricantes das vacinas.

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O auxílio emergencial destinado à população em situação de vulnerabilidade, a princípio, com uma proposta de R$ 200, só aumentou para R$ 600 em virtude de pressão da Câmara dos Deputados. Hoje a proposta do governo são R$ 150, em um cenário de alta dos preços. Como sobreviver?

O exemplo dado à população pelas autoridades máximas do governo federal ao não usar máscara, não manter o distanciamento ou isolamento, ao criticar as iniciativas estaduais e municipais de fechamentos e restrições, contribuiu para um comportamento quase suicida por parte da população.

Se de um lado a corda já arrebentou faz tempo, do outro, o Estado continua garantido os privilégios, o pagamento da dívida pública que consumiu em 2020 1 trilhão de reais, o que equivalente a 920 vezes o prémio do Big Brother, e garante a riqueza de uma elite, assim como outros setores que recebem incentivos fiscais, pagam menos impostos, aumentando assim seus lucros. Aos pequenos e médios empresários, restam as dificuldades de chegar ao crédito anunciado pelo governo federal.

Portanto, “a César o que é de Cesar”, que o Estado cumpra com as suas responsabilidades para com todas e todos e garanta para além da saúde, a vida da população brasileira.

 

Lucineia Soares é economista, mestra em Política Social e doutora em Sociologia.

 

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SAÍTO: Como ser feliz na comédia contemporânea? Ser ou não ser não é mais a questão

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Modernidade implacável

POR GONÇALO ANTUNES DE BARROS NETO

 

Existe uma máxima que anda por aí bastante difundida, circunspecta que só – não julgueis ou da forma que julgais, será julgado. É muito interessante adaptá-la à razão. Por exemplo, como a pessoa se reconhece? Poderíamos afirmar que seria conhecendo a si próprio, ou mesmo através de um complexo processo de autoavaliação constante ou reflexão profunda sobre o “eu” individual. Poderíamos, mas não sem errar.

Sabemos, a partir do pensamento moderno, em especial o de Lacan, que o ser se reconhece no outro; sim, na alteridade, na comparação dialética entre aquilo que sou – de comportamento, atitude, forma de posicionar frente às vicissitudes da vida – e o que tudo isso representa no outro ou de como esse outro se manifesta. Vejamos, então: o reconhecer-se no outro não é um processo de julgamento? Pois bem. Nos acertos e erros do outro é que descobrimos a nós em acertos e erros, também. Assim, a partir daquilo que julgamos acertado ou errado no outro é que definimos e caminhamos solitariamente para a própria subjetivação.

Neste exato momento, lendo estas palavras iniciais, já estamos concordes ou discordes; julgando, portanto. Talvez o pregador queira se referir a um julgamento mais puro, sem os pecadilhos da maledicência, inveja e outros sentimentos tão ou bem menos nobres. Seria desta forma: não julgueis por preconceito, sem razoabilidade, senão… O julgamento dos amigos, do vizinho, dos colegas de trabalho, da família, enfim, todos e dos mais variados tipos, estão no dia a dia de cada qual e para cada qual.

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Nas redes sociais, os julgamentos são mais abertos, transparentes, à exceção é o anonimato, deste o sufixo já diz tudo. Consideremos o Facebook – das curtidas ou não, já que a ferramenta está a um “clic” do interessado, se pode sentir a reprovação ou aprovação de seu texto ou comentário; ou ainda, a teimosia ou mesmo a indiferença a ele, que não é surda, mas eloquente. Julgou-se eletronicamente e em tempo real, e o autor pode avaliar os “amigos”.

O anonimato se relaciona mais com os sites de notícias, nos comentários. Tirando o conteúdo que de cara se percebe a veia da vingança ou de falta de cultura e conhecimento, têm-se verdadeiras lições a tirar. Os teóricos sociais deveriam debruçar mais sobre isso. Há uma coerente participação popular neles. Antes, os comícios e reduzida plateia; agora, uma corresponsabilidade no produzido e no resultado. A máscara cai ou lhe é devida dependendo da argumentação dos comentaristas, anônimos ou não. Contra eles se tentou até regulamentação. Suas potestades permaneceram incólumes.

O recato, a paz dos inocentes, não prevalece mais, foi-se embora, impotente. Está-se a criar novas tolerâncias. Se seu nome aparece no Google, e de forma injusta, a justiça dos novos julgamentos te servirá como redenção. Para analisar todo esse material histórico, somente os historiadores não bastam, tornamo-los. Nisso somos bacharéis e sem qualquer certificado universitário ou ético, muito menos dos necessários referenciais teóricos e da disciplina acadêmica. O grito de Fidel – “condenem-me, não importa, a história me absolverá” – ecoa livremente na consciência, mais ou menos crítica, de seus amigos ou detratores, tudo a depender dos julgamentos modernos, de tempo real, e da “generosidade” postada nos bancos de dados eletrônicos. A profundidade dos acontecimentos não importa mais, todos queremos participar. A capacidade é detalhe dos desavisados.

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E diante disso, como ser feliz na comédia contemporânea? Ser ou não ser, que desculpemos a Shakespeare, não é mais a questão. É outra a inquietação: de sobrevivência, de dramaturgia. De minha parte, creio no julgamento divino e na   misericórdia de Seu Filho primogênito. Àquele que não o procurou durante a vida, posto seus honorários não se pagar com qualquer vintém, o que terá? O julgamento dos iguais e anônimos, de sentença arquivada no Google. Ou não?

É por aí…

GONÇALO ANTUNES DE BARROS NETO, o SAÍTO, tem formação em Filosofia e Direito, autor do Bedelho.Filosófico no Facebook e Instagram

 

(e-mail: [email protected]).

 

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