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JOSÉ ORLANDO MURARO trata de esquizofrênicos e esquizoides

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O maior ESQUIZOIDE da cinematografia é, segundo José Orlando Muraro, o doutor HANIBAL LECTER, do filme “Silêncio dos Inocentes”...um cara normal, bom profissional...mas.....mas...mas...


Entre vampiros e medíocres
por JOSÉ ORLANDO MURARO
Tento ler Onetti…juro, me esforço…deitado na rede, com o netbook no colo…. os contos do uruguaio Juan Carlos Onetti, em uma coletânea publicada pelo jornal Folha de São Paulo…
Os contos de Onetti são um não-sei-lá-o-quê… apenas a descrição de um momento ou, no máximo, UM DIA na vida dos seus personagens… não há amanhã, ou um enredo que se prolongue no tempo. Mas, o pior: também não há o ontem, as explicações necessárias de como os personagens chegaram a este ou aquele momento, a este ou aquele dia….simplesmente estão ali…
Dias atrás terminei a leitura  do alentado volume de RUAS ESTRANHAS, organizado pelo George R.R. Martin ( autor dos livros e da série da HBO “Games of Trones”). Comprei o livro apressadamente na rodoviária de Brasília, e já dentro do ônibus descubro que, na realidade, é uma coletânea de diverso autores feitos pelo R.R.Martin, o que já  fez sentir-me lesado…mas o pior veio depois: a coletânea era de contos de vampiros e lobisomens…detetives…pode isto?
Mas a raiva maior tinha acontecido antes. É de deixar qualquer um embasbacado e revoltado: na Rodoviária interestadual de Brasília É PROIBIDO vender cervejas!!!!!  Ou seja, todo ladrão, com mandatos ou não, pode roubar à vontade na capital federal, mas um alcoólatra assumido é privado de beber uma cerveja….como se nós, e não os ladrões, com mandatos ou não, fôssemos o maior perigo para a estabilidade da República!!!
Sem cerveja e como única distração um livro de capa clonada ( como se fosse realmente obra do RR Martin), com contos de vampiros e lobisomens…detetives…. e 18 horas de viagem pela frente….. agüenta coração….
Mas antes de discorrer sobre tais contos, levanto-me da rede, e com o netbook nas mãos, parto para tentar cozinhar algo nesta noite fria de Chapada dos Guimarães.  Impossível sair e ir ao supermercado  a pé, já que não sei dirigir….nesta noites frias e sitiadas, o prato invariavelmente acaba sendo o famoso IAKI-SOBRA…a receita é simples: dar um baculejo na geladeira, juntar tudo que é resto de almoço,  socado nos tupperwares e fazer um cozidão…
Sentado, na mesa da cozinha, enquanto o macarrão com batatinhas cozinha na panelinha de ferro, eu fico pensando sobre os contrapontos dos personagens do escritor uruguaio Juan Carlos Onetti, com os dos contos reunidos e organizados pelo R R Martin.
Os tais lobisomens e vampiros, sabem que têm mais força do que a sociedade humana envolvente… mas são em menor número… e  aceitam as limitações que lhes são impostas…. a consciência da superioridade de poucos contra a mediocridade de muitos…mas eles sabem: são os medíocres que dominam a Terra, através de alianças e acordos….
Apesar do aviso de RR Martin, no prefácio, de que aqueles contos tratam de um REALISMO FANTÁSTICO, não há como não se identificar com os dramas daqueles que se sabem estranhos e segregados pela sociedade envolvente …… talvez um drama dos mais comuns nesta sociedade caótica, perdulária e consumista que vivenciamos na atualidade…
O psiquiatra britânico Ronald D. Laing, que dedicou a maior parte dos seus estudos para a PSICOSE, publicou, em 1960, o livro “O EU DIVIDIDO” ( The dividied self) onde estuda profundamente a esquizofrenia, mas identifica um novo distúrbio emocional, que surge nas sociedades modernas, na qual ele nomeou de ESQUIZOIDIA, ou seja, em uma sociedade turbo-capitalista, onde o ser humano entra no sistema gente e sai lingüiça, o distanciamento e a RUPTURA entre o eu-interno  (não interior) e o eu-externo (viver de aparências, como se isto fosse normal) acabaria por aniquilar qualquer chance de uma vida criativa, e acabaria por criar os denominados psicóticos-sociais.
Enquanto o esquizofrênico navega em  um mundo de vozes e imagens dentro da própria cabeça, e os psicopatas sociais aprontam, detonam e matam, sem qualquer explicação, como muito bem retratou Truman Capote em “A sangue frio”, aliás, baseado em fatos reais…Mas o ESQUIZOIDE navega em outras águas….ele é (aspas) NORMAL, mas capaz de atrocidades sem quaisquer explicações…o maior ESQUIZOIDE da cinematografia é, sem dúvida, HANIBAL LECTER, do filme “Silêncio dos Inocentes”…um cara normal, bom profissional…mas…..mas…mas…
Aquele moto-boy, dito “do parque”, que assassinou mais de dez jovens, enquadra-se como um esquizóide, e não como esquizofrênico. No dia-a-dia, um sujeito normal, que trabalha, tem conta em banco, etc e tal…. à noite, um ser completamente irracional…. Os laudos de avaliação, feito pelos psiquiatras convencionais, não foram conclusivos….. não era esquizofrênico, era um sujeito normal, mas cujos atos extrapolavam quaisquer explicações…
Mas, nos livros que comento, os personagens fogem dos estereótipos da psicanálise: não são esquizofrênicos, nem psicopatas sociais, e nem esquizóides….são personagens criados pelos autores….mas…mas…mas….
Os personagens de Juan Carlos Onetti são mais irreais do que os dos contos organizados por RR Martin: eles não têm vida, apenas  momentos ou um dia somente….não lutam por nada, nem mesmo pela própria sobrevivência…deixam-se levar pelas circunstâncias, onde não há eu-interior ou eu-exterior…apenas  personagens atropelados pelas vicissitudes da vida.
Os vampiros e lobisomens dos contos organizados por RR Martin ( RUAS ESTRANHAS) trilham duramente o caminho inverso: sabem que não são normais aos olhos da sociedade envolvente, mas aceitam as regras e imposições, como a única forma de sobreviverem…. submetem-se a esmagadora maioria dos medíocres, mesmo sabendo que, individualmente ou em reduzidas matilhas, são mais fortes….
Esta forma de viver, sabendo-se ser diferente ou estranho aos ditames da sociedade envolvente, mas RESISTINDO à todo canto da sereia, espelha, e muito, os caminhos da intelectualidade brasileira na atualidade. São superiores, mas sem forças para enfrentar a esmagadora maioria dos medíocres……
JOSE ORLANDO MURARO SILVA
Advogado, aluno de geologia da uFMT e morador de Chapada dos Guimarães

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LEANDRO KARNAL: Livro é um presente permanente. Ler é esperança, sempre

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Uma ponte de livros

Por Leandro Karnal

Sim! Você sobreviveu até a penúltima semana de 2020. Parabéns! Eu sei que os pessimistas estão dizendo: ainda faltam vários dias. É verdade. Seria tão injusto falhar agora! Viemos nadando com desafios desde março. A outra margem do rio está tão próxima. Sejamos otimistas: chegaremos todos a 2021.

Há uma possível pausa pela frente. Em algum momento você terá um pouco mais de folga. Chegou a hora de pensar estrategicamente: livros. Por quê? Não sei o que nos aguarda no ano próximo e novo. Sei que ele será mais bem vivido se houver mais pensamentos, maior conhecimento, mais informações. Atrás de sugestões para ter ou presentear? Farei algumas. Lembre-se sempre: um livro é um presente permanente que pode mudar a cabeça do agraciado.

Literatura? É o ano do centenário de nascimento de Clarice Lispector. A editora Rocco lançou um volume alentado e lindo com Todas as Cartas. É a correspondência da nossa maior escritora em um tomo que “fica sozinho em pé”. A leitura me trouxe um enorme prazer. Se o gênero correspondência não faz sua cabeça, mergulhe nos volumes da mesma editora com várias obras de Clarice: A Maçã no Escuro, A Legião Estrangeira, Onde Estivestes de Noite, O Lustre, Perto do Coração Selvagem, Felicidade Clandestina e A Bela e a Fera. São apenas alguns dos títulos lindos, com capas sedutoras e textos que vão alterar seu mundo.

Quer reencontrar outros clássicos? A Cia das Letras lançou Ressurreição, de L. Tolstoi. A luta de um nobre para reparar um erro grave do passado é o eixo daquele que, para mim, é uma das melhores obras do russo genial. Se Tolstoi o atrai, a editora Todavia reuniu 4 obras dele (Felicidade Conjugal, A Morte de Ivan Ilitch, Sonata a Kreutzer e Padre Siérgui) em um único volume.

Você sobreviveu a uma das mais transformadoras epidemias na história. Que tal ler A História das Epidemias, de Stefan Cunha Ujvari? Saiu pela editora Contexto. Aprende-se muito com o livro, bem escrito e solidamente pesquisado. Prefere o terreno argiloso da política e da sociedade? A pesquisa de Bruno Paes Manso resultou no necessário A República das Milícias. O livro proporciona análises indispensáveis e medos incontornáveis.

Leia Também:  JOSÉ DOMINGUES GODÓI, PROFESSOR DA UFMT: Que sinais deixaremos para as futuras gerações?

Você prefere algo que o anime? Pedro Salomão lançou o Valor Presente – A Estranha Capacidade de Vivermos um Dia de Cada Vez pela Best Business. Tive o privilégio de fazer o prefácio. Na mesma linha, uma coletânea com textos exemplares de Mario Sergio Cortella: Sabedorias para Partilhar, da Vozes/Nobilis.

Quer discutir amor e casamento? Não perca Amor na Vitrine – Um Olhar Sobre as Relações Amorosas Contemporâneas, de Regina Navarro Lins. A psicanalista vai mexer com suas convicções tradicionalistas e desafiar seus censores invisíveis.

Eduardo Giannetti sempre faz pensar. Li com avidez O Anel de Giges, da Cia das Letras. Tomando a lenda platônica do anel que produz invisibilidade, o que restaria da ética? Um homem invisível precisa se manter com boas regras morais ou vai acabar se entregando a seus desejos e caprichos menos nobres de espírito? Foi a leitura que mais me provocou inquietações no ano de 2020. É genial a capacidade de Gianetti de combinar densidade com linguagem leve.

Você ou o seu amigo-secreto amam viajar? Guilherme Canever lançou dois tomos pela Pulp: Destinos Invisíveis – Uma Nova Aventura pela África e Uma Viagem Pelos Países Que Não Existem. Livros densamente ilustrados, com um olhar agudo para lugares inusitados.

A Autêntica vai fundo na alma humana ao lançar uma nova edição do Além do Princípio do Prazer. O livro chegou ao centenário agora e a cuidadosa tradução de Maria Rita Salzano Moraes ajuda a valorizar a obra fundamental do dr. Freud.

Foi um ano estressante, reconheçamos. Talvez seja hora de pensar em um texto sobre ansiedade e o desafio da saúde mental. O dr. Leandro Teles, pela editora Alaúde, lançou Os Novos Desafios do Cérebro – Tudo o Que Você Precisa Saber Para Cuidar da Saúde Mental nos Tempos Modernos. Acho que a grande meta de 2021 é o desafio do equilíbrio. O livro do dr. Teles ajuda muito.

Leia Também:  ARQUITETO ZÉ ANTÔNIO LEMOS questiona interdição prolongada do Estádio Dutrinha. E aí, Emanuel Pinheiro?

Você ama narrativas biográficas? A obra de Adam Zamoyski (Napoleão – O Homem Por Trás do Mito – ed. Crítica) prenderá sua atenção do início ao fim. O imperador raramente encontrou um biógrafo tão denso e sem lados definidos: sem o sempre esperado “monstro corso” (contra) ou gênio militar e político (a favor). Continua interessado em narrativas biográficas e domina inglês? Hildegard of Bingen – The Woman of Her Age, de Fiona Maddocks (Image Books), foi uma descoberta muito feliz. A entrevista final com a Sister Ancilla no mesmo mosteiro onde morou a santa medieval é um recurso muito interessante para iluminar a tradição da grande doutora da Igreja.

Anseia explorar uma área nem sempre devidamente destacada? Aventure-se pela obra A Razão Africana – Breve História do Pensamento Africano Contemporâneo (Muryatan S. Barbosa – Todavia). O Racismo Estrutural, obra crítica de Silvio de Almeida (editora Jandaíra), ajuda em um tema que foi destaque em 2020. Na mesma coleção, a coordenadora da série, Djamila Ribeiro, tem texto indispensável: Lugar de Fala. Você se preocupa com o universo feminino e suas muitas abordagens? Mary del Priore escreveu Sobreviventes e Guerreiras: Uma Breve História da Mulher no Brasil de 1500 a 2000 (editora Planeta). 2021 demandará consciência social. Prepare-se!

Muitos e bons livros para todos os gostos. Ler dá perspectiva, vocabulário, ideias e companhia. Um bom texto aumenta seu mundo e o faz sair do senso comum. Embeber-se em histórias é viver de forma ampla. Já é um bom projeto para 2021. Ler é esperança, sempre.

Leandro Karnal é historiador e escritor, autor de ‘O dilema do porco-espinho’, entre outros. Artigo publicado originalmente no jornal O Estado de S Paulo

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