(65) 99638-6107

CUIABÁ

Assim caminha a Humanidade

JOSÉ ORLANDO MURARO, direto da Gleba Mojolo, na Chapada dos Guimarães, polemiza com o filósofo esloveno SLAVOJ ZIZEK sobre o impacto das cenas de tortura registradas por Kathryn Bigelow no filme "A Hora mais Escura", que disputa o Oscar

Publicados

Assim caminha a Humanidade

Quando os torturadores usam black-tie
POR JOSE ORLANDO MURARO
 
Estou na Gleba Monjolo. Sábado, dia 2 de fevereiro, meio –dia. Acabamos de realizar uma grande assembléia. Todos estão tranqüilos, assentados em seus  lotes rurais. Esta área, arrecadada e matriculada em nome da União federal foi usurpada por grandes grupos econômicos: BRF Brasil Foods ( antiga Sadia) Agropecuária Sagrado Tupã, fazenda Morro da Laje….mas a área foi ocupada por 200 famílias, e a Justiça Federal negou todas e quaisquer liminares de despejos a favor dos grileiros.
Assumi a organização da secretaria da Associação de Pequenos PERMACULTORES da Gleba Monjolo, a primeira do Brasil. Permacultura, uma prática de uso da terra com baixo impacto ambiental, incorporando a produção, sem retirar a cobertura vegetal do cerrado….uma experiência pioneira….
Mas algo me irrita. O jornalista Luiz Nassif enviou um texto  para o também jornalista Enock Cavalcanti. Uma crítica sobre a cineasta K. Bigelow, a quem, respeitosamente denomino de “La Bigelow”. Por sua vez, Enock redirecionou o texto para o meu correio eletrônico. Ele me provoca, quer que eu escreva. Sempre me cobra um texto, semanal, pelo menos. Não entende que os trabalhos na Gleba Monjolo consomem horas e horas do meu dia…Dane-se, ele quer um texto para a seu blogue…. ele o terá!
EM primeiro lugar, tem que se ressaltar que a crítica é sobre o último filme dirigido por la Bigelow, “A Hora Mais Escura (Zero Dark Thirty, 2012)”, que está indicado para cinco Oscar da Academia de Cinema norte-americana. E nem Luiz Nassif,  nem Enock Cavalcanti e nem eu mesmo assistimos tal filme, que deve ser lançado esta semana ( ou na outra) no Brasil. Portanto, qualquer crítica ou aplauso de um destes três personagens será pura enganação.
Mas vamos ao texto de Slavoj Zizek, que, segundo o rodapé do artigo, “é um filósofo e escritor esloveno. É professor da European Graduate School e pesquisador sênior no Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana. Atua como professor visitante em várias universidades dos Estados Unidos.”
Resumindo a zanga de Slavoj Zizek: ele critica que no filme de Bigelow os torturadores são pessoas normais, que hoje torturam um prisioneiro e no outro dia desfilam pelas ruas usando ternos bem recortados. Ou seja, para ele, ao se apresentar um torturador como uma pessoa normal, que apenas faz o seu trabalho, a cineasta estaria “normalizando” a tortura”, ou seja, defendendo  que a tortura é praticada por pessoas normais, bons pais de famílias, pagadores de impostos, que transam com suas esposas e comem  sandubas no Mc” Donalds…
Para este filósofo esloveno, tal apresentação de um torturador, como uma pessoa normal, que apenas faz o seu trabalho, facilita a aceitação da tortura como uma prática normal, usual, em interrogatórios, amortecendo as críticas.
Ou como ele escreve:
“ Sem sombra de dúvida, ela está aliada a uma normalização da tortura. Quando Maya, a heroína do filme, presencia pela primeira vez uma simulação de afogamento, fica um pouco chocada, mas rapidamente aprende as artimanhas; mais adiante no filme ela chantageia friamente um prisioneiro árabe , “se você não cooperar, nós lhe mandaremos para Israel”. Sua perseguição fanática atrás de Bin Laden ajuda a neutralizar escrúpulos morais comuns.
Ainda mais ameaçador é seu parceiro, um agente da CIA jovem e barbado que domina perfeitamente a arte de passar desembaraçosamente da tortura para a gentileza uma vez que a vítima está completamente desamparada (acendendo seu cigarro e lhe contando piadas).
Existe algo extremamente perturbador como, mais para frente, o este agente muda de um torturador vestindo jeans para um bem-vestido burocrata de Washington. Isto é normalização mais pura e eficiente – existe um pequeno mal-estar, mais pela sensação da tortura que pela ética, mas o trabalho tem de ser feito.”
Antes de avançar, fico a pensar: qual o estereótipo do torturador que Slavoj tem no seu imaginário? Um gigantesco russo, todo peludo, sem camisa e suado, torturando o pobre RAMBO, num deserto qualquer do Afeganistão ( Rambo III???)?
Talvez para a Eslovênia, tal imagem faça sentido. Mas cá prá nós, aqui nas Américas, tal imagem não cola.
Imaginem a cena de Slavoj conversando com o coronel do Exército Carlos Alberto Brilhante Ustra, o primeiro militar declarado como torturador  pela Justiça Brasileira (TJ/SP). O cara é culto. Domina o inglês, espanhol e francês. Escreveu dois livros: Rompendo o Silêncio (1985) e A Verdade Sufocada ( 2006). Tudo bem: nos porões do DOi-CODi em São Paulo era conhecido como ‘Dr. Tibiriçá”, nome em tupi, bem ao gosto de um homem culto….torturador… brutal…. mas nada a ver com o estereótipo do russo grandalhão e peludo do imaginário de Slavoj.
Voltando ao cinema nacional, que Slavoj deve desconhecer, temos a cena paradigmática do filme Prá Frente, Brasil,(1982) escrito e dirigido por Roberto Farias, estrelado por seu irmão Reginaldo Farias ( Jofre), Antônio Fagundes, Natália do Valle e Carlos Zara, no papel do torturador Barreto. Em determinado momento, os torturadores param o espancamento para assistir a uma partida de futebol, entre a seleção brasileira e a Inglaterra, pelo campeonato mundial de 1970. Comem sanduíches, dão lá seus palpites e voltam para o espancamento do preso. It´s  my job…
Da mesma forma, no filme O Que é isto, Companheiro?, filme de Bruno Barreto ( 1997) com Pedro Cardoso como o jornalista Fernando Gabeira, em uma das cenas já no final, o torturador, que usa ternos bem cortados, tranquilamente tira o paletó, dobra as mangas da camisa, descansa o cigarro na ponta da mesa, fala alguma coisa, enquanto o prisioneiro, no pau-de-arara, aguarda a pancadaria….
Tudo bem, não há de se exigir que Slavoj conheça filmes brasileiros. Mas vamos então para o cinema norte-americano: AMEAÇA TERRORISTA ( Unthinkable, 2011), dirigido por Gregor Jordan, com Samuel L Jackson, Carrie Anne Moss e Michael Sheen.
O torturador aqui também foge do estereótipo do russo-gigante-e- peludo-torturando-Rambo-no Afeganistão. Em primeiro lugar  é um negro, casado, pai de dois filhos, que ama e vive em função da sua mulher ( Rhinna, nascida na Bósnia). No contraponto, a agente do FBI,  que a todo momento reluta em assistir ou compartilhar dos atos brutais, brutais mesmo, de torturas. E o terrorista é um norte-americano, interpretado por Michael Sheen, que (lógico) se converteu ao islamismo, é casado com uma árabe-americana e tem um casal de filhos também.
Envelopando tudo isto, a ordem do general americano: isto aqui nunca existiu, nós nunca prendemos este homem, sua mulher ou seus filhos….ou seja, eles podem ser torturados e mortos….. As cenas de torturas são brutais, mas o terrorista não declara onde deixou as três bombas atômicas. A mulher do torturador chega com o lanche, eles se sentam na grama, e pela internet o torturador conversa amavelmente com seus dois filhos….normalíssimo????
Quem tiver a curiosidade, que assista o filme. É de ficar embasbacado.
Mas aqui eu volto à crítica que Slavoj Zizek lançou contra o filme dirigido por La Bigelow: ao apresentar o torturador como uma pessoa normal, ela normaliza também a tortura. It’s my job…
Ai que me preocupa de quem tem o estereótipo errado, sobre um torturador. A simples resenha que fiz demonstra que , para o torturador, um psicopata, que age por maldade, ele apenas é um servidor do Estado, da mesma forma que um soldado nazista nas portas dos fornos crematórios.
Agora vejamos a moldura do quadro. A denominada lei Patriótica dos EUA dispõe que terroristas inimigos dos EUA ( tem os amigos…) presos não têm direitos de petição aos Tribunais, não podem constituir advogados de defesa ( são dativos, nomeados pelo juiz) e não podem apresentar defesa oral nas audiências, que eles nem participam.. Isto é NORMAL??? E lá se vão ONZE LONGOS ANOS que prisioneiros são torturados em Guantânamo…
Para um país de loucos e assassinos em potencial, isto é NORMALÍSSIMO… até mesmo reeleger um débil mental como George W. Bush como presidente. Ou um negro vacilão como o Barack Obama. Então tanto faz torturar um preso e sair para comer no McDonalds, ou caminhar até uma escola e matar dezenas de crianças. Isto é normal, é aceitável, em uma sociedade podre e agonizante como a norte-americana….normalíssimo….
O que revolta Slavoj Zizek, acredito , é que La Bigelow coloca o dedo bem fundo na ferida: a tortura  é NORMAL e aceitável, e até mesmo defendida, pela maioria da população norte-americana… mas Zizek, já bem pasteurizado na convivência com a “ cultura norte–americana” da violência se horroriza: “-isto está errado. Bigelow não pode apresentar no filme o fato de que somos nós, cidadãos americanos NORMAIS quem torturamos presos, a quem negamos quaisquer dos direitos amparados pela nossa Constituição. Não, os torturadores são os russos-peludos-e suados, os mesmos que torturaram o Rambo no Afeganistão…”
Tudo bem: Zizek não é norte-americano. Só isto explica a idiotice que escreveu: torturas salvam vidas, mas perdem-se almas…. de quem? Dos torturadores…..estes, com certeza,  nunca a tiveram….
Como escrevi acima, nem eu, nem Luiz Nassif nem Enock Cavalcanti assistimos o filme A Hora Mais Escura, qualquer comentário será mera suposição. Agora, pela filmografia que discorri, dá para ficar claro que o torturador-russo-peludão-e- suado não passa de um clichê só existente na cabeça  de Slavoj ZizeK.
Vamos ao filme, na telona grande, com um imenso pacote de pipocas…. ainda em fevereiro…. e os artigos vão pipocar…Dá-lhes, Bigelow!!!!
 
 
Jose Orlando Muraro Silva
Advogado agrarista, aluno do curso  de Geologia
(UFMT) e morador em Chapada dos Guimarães
 
 
 
 

COMENTE ABAIXO:
Leia Também:  EMPRESÁRIO E ADVOGADO RENATO GOMES NERY: No Brasil, todo partido que tem sobrevida nos “grotões” está com os dias contados. Foi assim com a Arena, com o PFL e com o DEM, que ora agoniza a olhos vistos. E não deve ser diferente com o partido ganhador das últimas eleições

Propaganda
3 Comentários

3 Comments

Você precisa estar logado para postar um comentário Login

Deixe uma resposta

Assim caminha a Humanidade

JUACY SILVA: A grande maioria das cidades mundo afora, inclusive no Brasil, mais se parecem com áreas segregadas

Publicados

em

Por

Juacy

CIDADES VERDES E SUSTENTÁVEIS

JUACY DA SILVA

Todas as pessoas, com raríssimas excessões, gostariam de viver em cidades limpas, sem esgoto correndo a céu aberto, com ruas, avenidas, praças, parques e quintais totalmente arborizados; com inúmeros parques, áreas verdes, margens de córregos e rios cobertos de vegetação e com águas limpas; cidades sem poluição oriunda das chaminés das fábricas ou de imensas frotas de veiculos que lançam diariamente milhões de toneladas de gases tóxicos na atmosfera; sem favelas e habitações que não atendem aos requisitos da dignidade humana, com sistema público de transporte, eficiente, seguro, movidos por fontes de energia limpa e renovável; com calçadas que permitam que idosos, crianças, pessoas com deficiência ou mulheres empurrando os carrinhos de seus filhos possam se locomover com segurança; sem lixões onde amontoam dezenas ou centenas de milhares de pessoas buscando no lixo seu sustento e sua comida do dia-a-dia, misturando-se com urubus, ratos, cobras e outros animais peçonhentos ou rejeitos tóxicos, onde a educação ambiental seja parte dos curriculos escolares em todos os niveis, para que as criancas, adolescentes, jovens e adultos possam despertar para a consciência ecológica/ambiental e melhor cuidarem do planeta.

Enfim, isto e muitos outros aspectos é o que fazem das cidades lugares aprazíveis para se viver, com qualidade de vida, com segurança e com saúde ou o que podemos denominar do BEM VIVER. Cidades assim são denominadas de CIDADES VERDES ou então CIDADES SUSTENTÁVEIS. Este deve ser o sonho de consumo de milhões e bilhões de pessoas que jazem `a margem da sociedade, excluidas econômica, social, ambiental e politicamente.

A grande maioria das cidades mundo afora, inclusive no Brasil, mais se parecem com áreas segregadas, verdadeiros apartheids sociais e econômicos,  onde convivem, as vezes lado a lado, uns poucos bairros ou residenciais de alto luxo, com características de uma cidade verde ou sustentável, e a maior parte do espaço urbano com as características que bem conhecemos e, as vezes, principalmente os governantes, fingem não perceberem que mais de 80% da população de algumas cidades vivem na mais precária e degradante situação e condição de vida.

Diante de tantos desastres e degradação ambiental que vem ocorrendo em diversas países, em todos os continentes, inclusive no Brasil, em todos os Estados e municipios, diante da constatação de que as mudanças climáticas estão se tornando uma ameaça `a vida no planeta e a própria sobrevivência da humanidade, parece que, a duras penas o nível de consciência ambiental vem ganhando espaço paulatinamente, mas, em minha opinião, ainda de forma muito vagarosa. Parece que ainda não acordamos deste sono letárgico, desta alienação que, de forma passiva nos impõe um olhar desvirtuado desta triste e cruel realidade.

Todavia, além desses aspectos, outro fator que também tem contribuido para este despertar vagaroso da consciância quanto `a gravidade da situação ambiental é que a população mundial, em praticamente todos os países está cada vez mais concentrada no meio urbano, onde é gerada a maior fatia do PIB mundial e também onde são produzidos os maiores volumes de gases de efeito estufa, oriundos, basicamente, dos diversas tipos de poluição, principalmente da poluição do ar e que são os maiores causadores do aquecimento do planeta e a maior causa das mudanças climáticas.

Diante do avanço da urbanização que tem ocorrido, principalmente nos paises do chamado terceiro mundo e também dos países emergentes, que, por ironia são os mais populosos, a preocupação com o desenvolvimento sustentável e com a presença do verde, tem se tornado um elemento crucial no que concerne ao planejamento estratégico e sustentável das cidades. Daí, o surgimento do conceito de cidades sustentáveis e de cidades verdes.

No contexto da sustentabilidade e, principalmente, das cidades sustentáveis, o verde é condição necessária, mas não suficiente, para que as cidades possam, de fato, serem consideradas sustentáveis. No entanto, podemos afirmar, sem sombra de dúvida , de que sem o verde, abundante, sem arborização dos espaços públicos e privados, sem áreas verdes, sem áreas de proteção ambiental, sem quintais verdes, sem florestas urbanas, uma cidade, mesmo que tente atender `as demais dimensões da sustentabilidade, jamais poderá ser considerada uma cidade sustentável.

O verde é essencial para proteger as nascentes, as margens de córregos, dos rios e lagos, para sequestrar carbono e outros  gases tóxicos que são lançados diariamente e se acumulam na atmosfera, para embelezar a cidade, para dar sombra e frutos, para propiciar a existência da biodiversidade, para manter o regime das chuvas, para a valorização dos imóveis, para garantir saúde para todos e para melhorar ou garantir uma boa qualidade de vida.

O conceito de sustentabilidade como é conhecido e utilizado atualmente, surgiu em 1987, quando da apresentação do Relatório “NOSSO FUTURO COMUM”, produzido, a pedido da ONU, pela Comissão Brundtland, quando a idéia de desenvolvimento sustentável passou a ser uma preocupação e um dos mais importantes pressupostos do planejamento urbano e, também de cientistas e líderes mundiais.

Por decisão da Asssembléia Geral da ONU aquela Comissão tinha como missão e objetivo analisar os impactos que as atividades humanas tem ou tinham sobre os recursos naturais do planeta, ou seja, sobre o meio ambiente.

No entanto, mesmo antes do Relatório da Comissão Brundtland, nos EUA, em 1969, quando da aprovação da primeira legislação nacional de proteção ao meio ambiente, o conceito de desenvolvimento sustentável foi formulado/definido como sendo o desenvolvimento econômico que beneficie a atual geração (daquela época ou de cada época considerada) e também  sem prejudicar as futuras gerações e, ao mesmo tempo, sem causar danos (degradação ambiental) aos recursos do planeta, incluindo seus recursos biológicos/biodiversidade, as águas, o solo e o ar.

Daí surge a certeza, baseada em estudos, pesquisas e constatações científicas, de que os recursos naturais não são infinitos, mas sim limitados e não podem ser explorados de forma predatória, mas com parcimônia e no contexto do bem comum e da justiça ambiental.

Leia Também:  FILÓSOFA MARILENA CHAUI: "Desmontagem" da democracia, no Brasil e ao redor do mundo, é resultado do poder da economia política neoliberal

Desde meados da década de 1960, com ênfase nos anos seguintes e com mais vigor na atualidade, em todos os centros de estudos, pesquisas e universidades a questão da sustentabilidade passou a ser objeto de análise em diversas disciplinas acadêmicas e, aos poucos surgiu a certeza de que apenas na interdisciplinariedade, em uma perspectiva holística, podemos pensar, planejar e gerir as cidades, tendo como foco central o que hoje conhecemos como CIDADES SUSTENTÁVEIS, CIDADES VERDES ou sustentabilidade urbana. Isto está muito próximo do que o Papa Francisco tem enfatizado na Encíclica “Laudato SI”, quando fala de ECOLOGIA INTEGRAL.

O ano de 2015 é um marco significativo para as relações da humanidade e a natureza. Naquele ano o Papa Francisco apresentou ao mundo a Encíclica LAUDATO SI (a chamada Encícilica Verde), enfatizando as idéias e conceitos de que tudo neste planeta terra, que é a nossa CASA COMUM, está interligado nesta teia de relações, de que os recursos naturais devem ser usados para o bem comum e a melhoria da qualidade de vida da população inteira e não apenas como um bem privado ou de apenas alguns países ou grupos dominantes, que visam única e exclusivamente a exploração irracional dos recursos naturais e o lucro, que é o motor de uma economia insana e desumana, razão pela qual o Santo Padre tem também insistido quando fala da NOVA ECONOMIA ou a ECONOMIA DE FRANCISCO.

Foi também em 2015 que a ONU, ao se encerrar o periodo do que eram considerados os OBJETIVOS DO MILÊNIO, foram substituidos pelos 17 OBJETIVOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENÁVEL e suas 161 metas, como forma de balizar o desenvolvimento dos países até o ano de 2030, a chamada AGENDA 2030.

Mais de 190 países firmaram o compromisso de atingir tais objetivos e metas até o ano 2030 em diversas áreas, a quase totalidade delas que tem uma estreita relação com o meio urbano, com as cidades, onde a cada ano uma maior proporção de pessoas fazem seu local de residância/moradia e trabalho.

Apesar de já terem se passado cinco anos desses marcos internacionais, muitos paises ainda ignoram, inclusive o Brasil, os Estados e municípios a importância desses objetivos e suas metas como bússulas para planejarem, definirem politicas, estratégias e ações para que os mesmos sejam conquistados.

De forma semelhante, apesar da ênfase contida na Encíclica Laudato Si e das constantes exortações do Papa Francisco, a grande maioria dos católicos, incluindo fiéis, sacerdotes ou mesmo membros da alta hierarquia da Igreja em diversas países, inclusive no Brasil, simplesmente continuam ignorando o conteúdo da Encíclica Verde, as exortações e apelos do PAPA e pouco ou quase nada existe em termos de atuação nas paróquias, dioceses e arquidioceses que demonstram que existe um empenho real da Igreja na defesa e cuidado com o meio ambiente.

Mesmo que praticamente todos os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável direta ou indiretamente estejam relacionados com o meio ambiente e com as cidades, onde vivem os maiores contingentes populacionais, alguns tem um significado maior para a sustentabilidade urbana.

Alguns estudiosos, tentam classificar ou agrupar os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) em quatro grupos, a saber: Dimensão social: 1) erradicação da pobreza; 2) fome zero e agricultura sustentável; 3) saúde e bem estar; 4) educação de qualidade; 5) igualdade de gênero e 10) redução das desigualdades; Dimensão ambiental: 6) água potável e saneamento básico; 7) energia limpa e acessível; 12) consumo e produção responsável; 13) ação contra as mudança global do clima; 14) vida na água; 15) vida Terrestre; Dimensão econômica: 8) trabalho decente e crescimento econômico; 9) indústria, inovação e infra-estrutura e 11) cidades e comunidades sustentáveis e, finalmente, Dimensão institucional: 16) paz, justiça e instituições eficazes e, 17) parcerias e meios de implementação.

Como em todas as classificações, não existem limites rígidos entre os grupos de objetivos, muitos ou todos estão inter-relacionados e os efeitos das ações ou omissões em relação aos mesmos também tem caráter holístico.

Por exemplo o Objetivo número 11 estabelece: “Tornar as cidades e os assentamentos humanos inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis”,  está intimamente relacionado com os seguintes objetivos:15 “Proteger, recuperar e promover o uso sustentável dos ecossistemas terrestres, gerir de forma sustentável as florestas, combater a desertificação, deter e reverter a degradação da terra e deter a perda de biodiversidade”, bem como o Objetivo 13. “Tomar medidas urgentes para combater a mudança climática e seus impactos” e tambem os demais objetivos inseridos no contexto da dimensão ambiental e, intimamente interligados com o de numero 2. “fome zero e agricultura sustentável”, principalmente com a agricultura urbana e periurbana e também com o objetivo 12. “consumo e produção responsável”, que se assim não acontecer estaremos produzindo a cada dia e a cada ano um volume muito maior de residuos sólidos/lixo, principalmente plásticos, que irão aumentar a poluição das águas (córregos, rios, lagos/lagoas e os oceanos).

Também é importante destacar que na elaboração e aprovação dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável é feita uma referência explícita ao Acordo de Paris, que estabeleceu uma série de compromissos de todos os países com medidas e ações que consigam reduzir as emissões de gases de efeito estufa de tal maneira que a temperatura média do planeta fique entre 1,5 e 2,0 graus centigrados a mais, considerando o marco temporal dos niveis pré-industriais.

Com certeza, o terceiro marco importante na questão ambiental foi, sem dúvida, a aprovação do ACORDO DE PARIS, também em 2015, estabelecendo que “Reconhecemos que a UNFCCC [Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima] é o principal fórum internacional e intergovernamental para negociar a resposta global à mudança climática. Estamos determinados a enfrentar decisivamente a ameaça representada pela mudança climática e pela degradação ambiental.”

Apesar deste compromisso solene, alguns paises, como os EUA deixaram o Acordo e outros, como o Brasil, pouco fazem para de fato, cumprirem integralmente os compromissos assumidos naquele Forum Ambiental Internacional.

Em 2018, o IPEA publicou um documento bem extenso (546 página) intitulado “AGENDA 2030 ODS – Metas Nacionais dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável”,  detalhando cada objetivo, suas metas e indicadores e quais são os compromissos firmados pelo Brasil para que em 2030, passamos dar a nossa contribuição para um mundo melhor, com melhor qualidade de vida, economicamente menos injusto, socialmente mais solidário,  ambientalmente mais sustentável e democraticamente mais transparente e participativo. Estamos muito longe de atingirmos aqueles objetivos e metas, apesar dos discursos falaciosos de nossas autoridades.

Leia Também:  SAÍTO abraça o entendimento de que interpretar a lei não é legislar. "A crescente demanda social exige de todos os órgãos do Poder Judiciário a visão de filtro, ou seja, a interpretação das leis sob a lente constitucional", argumenta, citando contribuições de Peter Haberle, Friedric Muller, Juarez Tavares, Gilmar Mendes e Klaus Jürgen Philippi

O que seria razoável é que tanto o Governo Federal quanto os governos estaduais e municipais incluissem, de forma explícita, tais objetivos, metas e indicadores em seus respectivos planos, politicas, estratégias e ações de governo, visando, de fato, um desenvolvimento sustentável, integrado, articulado, enfim, uma agenda cujo horizonte deve ser o ano de 2030, de acordo com a ONU e todos os paises, inclusive o Brasil, que se comprometeram com a AGENDA 2030.

No entanto, todas essas instâncias governamentais não conseguem sequer planejar os períodos de seus mandatos/gestões e nunca, ou praticamente quase nunca, uma adminstração/gestão governamental consegue dar continuidade `as ações de seus antecessores, acarretando paralização de obras e serviços públicos, desperdício de recursos humanos, materiais, financeiros e tecnológicos escassos, o que significa um verdadeiro crime contra a administração pública, a população e o país.

Quando falamos em cidades e comunidades sustentáveis, não podemos perder de vista que a primazia das ações deve ser dos poderes/organismos públicos, afinal, a população está a cada dia mais sujeita, no caso do Brasil, a uma das maiores cargas tributárias do mundo e pouco ou quase nada recebe em retorno na forma de obras e serviços públicos essenciais e de qualidade, incluindo servicos ambientais.

Todavia, existe um grande espaço para a ação voluntária, em todas as áreas relacionados com os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) onde participam cada vez mais as pessoas, as organização não governamentais (ONGs), os clubes de serviços e entidades sindicais representativas dos trabalhadores e do empresariado e, também, alguas Igrejas de diferentes credos e denominações.

Se houver conjugação de ações, tendo os ODS como referenciais, com certeza, poderemos contribuir sobremaneira para que as CIDADES VERDES E SUSTENTÁVEIS, sejam, de fato, uma nova face da sustentabilidade urbana. Sem isso, continuaremos vivendo em cidades que representam um verdadeiro caos, onde a violência, a exclusão social e econômica, a corrupcao, a marginalização social e a degradação ambiental estão presentes no dia-a-dia de milhões de brasileiros.

Na tentativa de identificar as características de uma CIDADE SUSTENTÁVEL OU CIDADE VERDE, mencionadas em diversas estudos e pesquisas disponíveis ao grande público e também aos gestores públicos e empresários, podemos mencionar alguns desses requisitos, a saber: 1) promover a agricultura orgânica urbana e peri-urbana (agroecologia, hortas domésticas, escolares e comunitárias); 2) encorajar dietas alimentares saudáveis, através da educação alimentar, com preferência para consumir alimentos orgânicos produzidos localmente; 3) reduzir o consumo e o desperdício de água, de energia e de alimentos, contribuindo para a redução da geração de lixo; 4) promover o re-uso, a RECICLAGEM e a economia circular; 5) estimular o VERDE, através de amplos programas de arborização dos espaços públicos e privados, estimular a criação de QUINTAIS e moradias VERDES; 6) recuperar e preservar nascentes e cursos d’água (córregos, rios etc) arborizando essas áreas; 7) estimular o cultivo de plantas medicinais e árvores frutíferas e promares  principalmente em áreas urbanas e peri-urbanas desocupadas (incluindo verdadeiros latifúndios urbanos); 8) reconectar a cidade (área urbana) com seu entorno (áreas rurais), estimular os cinturões verdes; 9) criar corredores ecológicos dentro das cidades e entre cidades de uma mesma região fortalecendo a biodiversidade; 10) criar, ampliar e manter ciclovias, estimulando a substituição do transporte motorizado individual e coletivo, uma das maiores fontes de poluição urbana; 11) estimular e incentivar o uso de fontes alternativas de energia limpa, como a energia solar e eólica abundantes no Brasil; 12) construir e manter calçadas verdes e ecológicas, que favorecem o escoamento das águas de chuva e o deslocamento seguro de pedrestres, pessoas com deficiência e mulheres com criancas de colo; 13) universalizar o abastecimento de água potável e esgotamento sanitário para todos os moradores, contribuindo sobremaneira para a melhoria da saúde pública e a qualidade de vida urbana; 14) promover a universalização da coleta e tratamento adequado dos resíduos sólidos/lixo; 15) promover a reciclagem de forma ampla, reduzindo signficativamente o volume de lixo que não tem destinação correta e contribui para aumentar os niveis de poluição urbana; 16) reduzir e controlar os niveis de poluição urbana (poluição do ar, das águas e do solo); 17) estimular a redução do consumo de energia e estimular a eficiência energética em todos os setores e atividades urbanas; 18) estimular práticas sustentáveis na indústria, no comércio, nos serviços públicos e privados, na agropecuária e silvicultura, que conduzam a uma economia verde, uma economia circular de baixo carbono; 19) estimular e promover sistemas de transportes urbanos sustentáveis, facilitando a mobilidade urbana, reduzindo os niveis de poluição urbana e as mudancas climáticas; 20) universalizar e garantir moradia dígna para todos os moradores das cidades, reduzindo drasticamente as habitações sub-humanas (favelas, casas de cômodo, palafitas e congêneres).

Com certeza, todos esses aspectos devem estar presentes no que poderiamos denominar de uma NOVA URBANIZAÇAO e em uma AGENDA URBANA SUSTENTÁVEL, sem o que se falar em cidades verdes e sustentáveis pode soar como apenas um reforço de discursos demagógico por parte das autoridades e gestores públicos.

Oxalá todos os municipios possam construir uma AGENDA URBANA SUSTENTÁVEL, para que até o ano de 2030 possamos ter milhares de CIDADES VERDES E SUSTENTÁVEIS em nosso país.

Este desafio é de cada pessoa e de todos os brasileiros, é uma verdadeira cruzada da cidadania em prol da SUSTENTABILIDADE URBANA, ningém pode se omitir, nem durante as eleições e muito menos após a posse dos novos eleitos. A cidade pertence, não aos seus governantes, que são transitórios, mas sim a todas as pessoas que nela vivem, lutam, trabalham, reclamam de suas mazelas e sonham com dias melhores!

JUACY DA SILVA, professor universitário, fundador, titular e aposentado UFMT, sociólogo, mestre em sociologia.

Email [email protected] [email protected]

COMENTE ABAIXO:
Continue lendo

MATO GROSSO

POLÍCIA

Economia

BRASIL

MAIS LIDAS DA SEMANA