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JOSÉ MENEZES GOMES: O big bang das fake news. Vivemos uma regressão social profunda

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O BIG BANG DAS FAKE NEWS
José Menezes Gomes

Estamos vivendo um momento na história mundial em que as notícias falsas passaram a ser produzidas e disseminadas, especialmente a partir das mídias sociais, onde a extrema direita usa as tecnologias mais modernas para pedir a volta da Idade Média. Curiosamente se usa as tecnologias mais modernas de comunicação, que a ciência produziu, para se afirmar o negacionismo tendo como destaque até o movimento terra planista.

Todavia, esse processo de recorrer ao falseamento da realidade não é coisa nova na história mundial e precisa ser localizado. O grande momento dessas teorias conspiratórias teve seu nascedouro durante a Guerra Fria no imediato pós Segunda Guerra, tendo no macartismo seu grande propagador e atingindo muitas personalidades, partidos e até mesmo artistas que eram chamados de comunistas. Charles Chapelin e muitos outros foram perseguidos e até mesmo banidos pelos grandes estúdios de cinema e pela mídia controlada pelo Complexo Industrial Militar, seja jornais, Redes de Televisão, editoras e rádios. O mundo estava dividido entre o bloco capitalista e o bloco socialista, enquanto a humanidade vivia uma corrida armamentista que chegou nos anos 1960 a capacidade de destruir o planeta 34 vezes, dentro do que se chamou de Estado de Bem estar social ou os trinta gloriosos.

No caso do Brasil e do restante da América Latina as fake news atuais tem a mesma origem na guerra fria, que no continente resultou nos golpes militares em praticamente todos os países, desde os anos 1960, tendo como base o apoio ao governo Cívico Militar com grande apoio de grupos religiosos, seja católicos, evangélicos ou espiritas. Tudo isso era justificado como forma de não permitir uma nova revolução cubana, que na verdade era um movimento em defesa da propriedade privada para os grandes latifúndios e de assegurar novos espaços para a economia dos Estados Unidos da América (EUA), que começava apresentar elementos de crise. Essa crise inicial acabou resultando no fim de Bretton Woods em 1971, com o fim da convertibilidade do dólar, início da crise do dólar, perda de competitividade da economia estadunidense, surgimento dos primeiros deficits comerciais no início dos anos 1970 e aprofundamento da crise fiscal.

Vale lembrar que todos esses golpes militares no continente tiveram o apoio dos EUA, via CIA (Central Intelligence Agency) como grande fonte de noticiais falsas que justificassem a derrubada de governos que não fossem aliados com os interesses dos EUA. Quando observamos melhor, no seio familiar de muitos brasileiros, a trajetória e argumentos dos que hoje apoiam o atual Governo Federal e seu negacionismo da Ciência temos um fato novo em relação ao fundamentalismo religioso, pois esse encontra-se mais intenso com a incorporação da teologia da prosperidade, que potencializou o pensamento neoliberal próprio dos anos 1980/90, tendo como base o individualismo, o egoísmo e a perda de qualquer referência humanista, num momento que vivemos uma regressão social profunda.

Nesse processo temos que observar que parte das famílias que saíram do campo nos anos de 1970 e foram para as cidades acabaram se transformando também em apoiadores da ditadura, quando não perceberam que o Regime Militar introduziu um modelo concentrador de renda e da propriedade que acabou expulsando parte dos pequenos agricultores em função do fortalecimento do latifúndio, da modernização agrícola e da destruição ambiental. Aqui podemos observar que parte das famílias passou a apoiar a ditadura militar, mesmo tendo sido expulsas do campo e indo morar nas periferias das médias e grandes cidades.

Para descrever melhor isso, vou usar um exemplo familiar que acabou sendo também o divisor de água político dentro da família, dos anos de 1970 até os dias atuais, entre os parentes que tiveram relativa ascensão social e aqueles que ficaram a margem do que se chamou de milagre brasileiro. Lembro bem o dia em que meu pai, que estava numa plantação de milho, numa terra que não era dele, dizendo que tinha recebido roupas usadas de um irmão que já estava na cidade e que era pertencente a Arena Jovem. Meu pai reproduzia a frase do seu irmão da cidade: “Brasileiro tem que usar verde ou amarelo, pois quem não usasse essas cores não seria um bom exemplo”.

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Tratava-se de uma interpretação rural do “Brasil ame-o ou deixe-o”, que vigorava no mundo urbano durante a fase mais violenta do regime militar com o AI 5 (Ato Institucional Número Cinco) emitido pelo presidente Artur da Costa e Silva em 13 de dezembro de 1968 e a suspensão dos direitos políticos, com o uso da tortura e assassinatos de todos aqueles que discordavam de um Governo Militar, que resultou de um golpe organizado pelo braço do Estado, com apoio da burguesia brasileira. Nesse momento, temos um irmão tendo ascensão social por fazer parte de um aparelho estatal, fruto de sua atuação política na tentativa de legitimar o golpe militar e o outro que trabalhava na terra de um fazendeiro com o compromisso de no final do ano plantar capim e devolver a terra para criação de gado do latifundiário. Todavia, meu pai acabava reproduzindo a ideologia do regime feito a força que em seguida levou a sua expulsão do campo e deslocamento para a cidade grande.

Este divisor de água político dentro da família gerou um permanente conflito de interesse entre os irmãos mais velhos, que tinham ligação com o campo e com a origem nordestina e os irmãos mais novos, dos quais se afastavam cada vez mais que se ampliava a ilusão de pertencimento a uma nova classe. O fato surpreendente é que filhos de nordestinos emigrantes, que procuravam terras no Centro Oeste para poder trabalhar e garantir seu sustento, acabaram perdendo sua identidade cultural com o Nordeste e com o campo, assimilando assim padrões de valores próprios onde passaram a se identificar como burgueses, mesmo sem possuir meios de produção. O fio condutor de tudo isso foi a questão religiosa e a relocalização artificial de classe que acabou gerando um ódio de classe errado dentro da família.

O impressionante é que o conjunto de valores defendidos por esses foi amplamente massificados pelos órgãos de defesa da classe dominante impulsionados pela CIA, em especial. Os apoiadores do golpe na família se diziam anticomunistas, enquanto a maior parte da família era de fato sem-terra e precisavam, sim, das reformas de bases como a Reforma Agrária e de políticas públicas. Dessa forma, os irmãos mais novos passaram a agir dentro da família como propulsores dos novos valores vindos da ditadura militar, enquanto os mais velhos acabaram todos vindos para a cidade e não tiveram facilidade na inserção laboral no mundo urbano.

A frase que sempre lembro dita por um tio era que “Filho de pobre tem que apoiar o Governo”. A resposta a isso veio com a entrada de grande parte da família no serviço público, sem concurso, já que naquele momento o acesso ao serviço público se dava pela adesão das famílias ao apoio a ditadura, já que nos anos 1980 a eleição começa a ser restabelecida. Se queremos saber por que muitos servidores públicos, ainda hoje, são apoiadores do atual Governo e da ditadura militar devemos lembrar que muitas famílias estiveram no serviço público como parte da busca de cooptação pela ditadura. É sabido que também temos servidores públicos concursados que são apoiadores da ditadura. Todavia, podemos observar que temos uma repetição das noticiais falsas próprias do momento atual como aquelas dos anos de 1960. Os mesmos que hoje apoiam o atual Governo e massificam fake news nos grupos de família apoiaram a ditadura, votaram para presidente em Fernando Collor, Fernando Henrique Cardoso e apoiavam a candidatura de Aécio Neves. São identificados com os partidos de direita desde aquele momento.

O maior fake News de todos é que esses apoiadores se consideram pertencentes a uma classe média determinada, quando na verdade a maioria é constituída por pessoas que vivem abaixo da linha da pobreza cheia do DIEESE ou ganham menos que o Salário-Mínimo Necessário. Dessa forma aqueles que passaram se identificar com a classe dominante, pois acreditavam que um dia chegariam lá, passaram a sempre apoiar Governos e grupos políticos que fossem identificados como “anticomunistas” ou antissociais. Por esse motivo sempre apoiaram os vários Governos envolvidos com a corrupção, aparelhamento do Estado e mais recentemente tentaram se colocar como inimigos da corrupção.

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Comunistas para esses seriam os Governos voltados para a defesa dos direitos sociais, tais como: reforma agrária, saúde, educação, habitação popular, cultura, saneamento básico, direito à aposentadoria etc. Em outras palavras, passaram a apoiar tudo aquilo que o restante da família mais precisava. Dessa forma foram cúmplices de toda política de empobrecimento social que os demais membros da família sofreram, buscando sempre legitimar o sistema que produziu as desigualdades sociais e regionais que levaram os antepassados da Bahia para Mato Grosso.

A nova geração de descendentes, em grande parte, não tem mais identidade com o Nordeste, nem com o campo e muito menos com os trabalhadores rurais. Ao contrário apoiam Governos que discriminam os nordestinos, os pobres e os sem-terra, ou seja, negam sua origem, apoiam a tortura, pena de morte e todo tipo de intolerância: racismo, xenofobia, homofobia, sexismo, machismo, misoginia etc. Esse segmento que se considera o novo rico e anticomunista são filhos de oprimidos que se convertem em auxiliares dos opressores e apoiam todas as reformas que acabam com todos os direitos: trabalhista, previdência, tributária, Universitária etc.

O que tenho hoje na minha família é o que existe em muitas famílias e que se expressa nas palavras de ódio da classe errada, na divulgação de falsas notícias, na negação da Ciência e no apoio ao Governo que tem como projeto acabar com todos os direitos que os mais pobres da família tanto necessitam. Isso tudo ironicamente em nome da defesa da família, da propriedade e dos valores que consideram cristãos. Todavia, tudo que fazem é comprometer as condições de vida de parte da família e da maioria da população brasileira, já que o anticomunismo que praticam é fundamental para legitimar as políticas que aprofundam o enriquecimento privado e o empobrecimento social, num momento de cotidianização da barbárie e de aprofundamento do quadro social dos seus parentes mais pobres. Ou seja, são comensais da burguesia sempre esperando migalhas daquilo que a burguesia se apropria gerado pelos trabalhadores, para manter a aparência de classe média.

A motivação desse texto vem do contato recente com um parente que repete os mesmos argumentos de 40 anos para justificar o apoio ao Governo atual, que põe em risco toda a família e a maioria da população brasileira, seja pelo negacionismo diante ao COVID 19, ou com a introdução de políticas que destroem o serviço público e os direitos sociais, mesmo com o registro no dia de hoje, 30 de janeiro de 2021, de 223.945 mortos no Brasil e 2.221.640 no mundo. Devemos lembrar que esse anticomunismo ocorre justamente quando a restauração capitalista que se tornou cada vez mais ampla em todo o planeta e a China (segunda grande potência mundial) é acusada de propagar o vírus COVID 19 para propagar o comunismo. Na essência, a China se tornou o principal centro de extração de mais valia do capitalismo mundial.,

O big bang das noticiais falsas passou pela Guerra Fria, pela introdução do regime militar e agora tem seu novo apogeu com um Governo autoritário eleito com fake news pelos oprimidos que se converteram em operacionais dos novos opressores movidos por um fundamentalismo religioso e pelo ódio da classe errada. É fundamental lembrar que o Regime Cívico Militar foi o responsável pelo endividamento externo convertido em dívida pública, na tentativa de legitimar aqueles Governos com a ideia do crescimento econômico como justificativa para a existência de um Governo autoritário. Não podemos esquecer que a inspiração do princípio da noticia falsa vem do período do nazismo com Joseph Goebbels, braço direito de Hitler e ministro da propaganda que dizia: “Uma mentira repetida mil vezes se torna verdade”.

JOSÉ MENEZES GOMES, nascido em Poxoréo MT, é econonomista formada pelo UFMT e, atualmente, professor de Economia na Universidade Federal de Alagoas – UFAL.

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Eu sem fé, adoro a religião. Um artigo do saudoso filósofo italiano Umberto Eco

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“Acho que a verdadeira dimensão ética começa quando o Outro entra em cena. Até os leigos virtuosos estão convencidos de que o Outro esteja dentro de nós. Não se trata de uma vaga inclinação emotiva, mas de uma condição fundamental. Assim como não podemos viver sem comer ou dormir, não podemos compreender quem somos sem o olhar e a resposta dos outros”, escreve Umberto Eco, escritor, semiólogo e linguista italiano falecido em 19 de fevereiro de 2016, em artigo publicado por Il Sole 24 Ore, 14-02-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Sempre fui fascinado pela figura de um apóstata que permanece ligado aos mitos, imagens e ideias da religião que ele abandonou. E isso porque, mesmo em meus escritos subsequentes, o meu abandono da fé sempre foi acompanhado por um fascínio pelo pensamento medieval e pelo respeito pelo universo religioso. Sei que esse é um sentimento ambíguo, mas gostaria de oferecer um exemplo do que aconteceu quando escrevi meu primeiro romance, O Nome da Rosa. É ambientado na Idade Média e apresenta as visões contrastantes da verdade e da fé que já estavam surgindo naquela época. O romance foi imediatamente atacado por alguns críticos católicos (especialmente da revista dos jesuítas, “La Civiltà Cattolica”), mas nos anos seguintes recebi quatro títulos honorários de quatro universidades católicas, a Universidade de Louvain, a Universidade Loyola, a Universidade Santa Clara e o Pontifício Instituto de Toronto. Não sei dizer quem estava certo, mas fico feliz que os sentimentos contraditórios que me acompanharam até agora tenham aflorado também através do meu romance.

Outra prova do meu interesse pelos problemas religiosos foi a troca de correspondências que aconteceu em 1996 com o cardeal Martini, o arcebispo de Milão (In cosa crede chi non crede? ou Quando entra in scena l’altro, agora em Cinque scritti morali) que tinha aceitado dialogar com um não crente e o fez com uma mente aberta e grande respeito pelos pensamentos alheios. Gostaria de citar meu último comentário sobre a ética daquele diálogo. Martini perguntou-me: “Qual é o fundamento da certeza e da imperatividade das ações morais de quem, para estabelecer o carácter absoluto de uma ética, não pretende apelar a princípios metafísicos ou a valores transcendentais ou mesmo imperativos categóricos universalmente válidos?”. Procurei explicar os fundamentos sobre os quais assenta a minha “religiosidade leiga”, porque estou firmemente convencido de que existem formas de religiosidade mesmo na ausência de uma fé numa divindade pessoal e providente. Comecei abordando o problema dos “universais semânticos”, isto é, aquelas noções elementares que são comuns a toda a espécie humana e que podem ser expressas em todas as línguas. Todas essas noções comuns a todas as culturas referem-se à posição do nosso corpo no espaço. Somos animais eretos, por isso é cansativo ficar de cabeça para baixo por muito tempo, por isso temos uma noção comum de “para cima” e “para baixo”, tendendo a favorecer o primeiro em relação ao segundo. Da mesma forma, temos a noção de esquerda e direita, de ficar parado e caminhar, de ficar em pé ou deitado, de engatinhar e pular, de acordar e dormir. Como temos membros, todos sabemos o que significa bater contra um material resistente, penetrar numa substância macia ou líquida, esmagar, bater com os dedos, socar, chutar, talvez até dançar. A lista poderia ser longa e incluir ver, ouvir, comer ou beber, engolir ou excretar. E certamente todo ser humano tem algumas noções sobre o significado de perceber, lembrar, sentir desejo, medo, dor ou alívio, prazer ou dor, e fazer sons que expressam essas coisas. Portanto (e já estamos no âmbito dos direitos) existem conceitos universais sobre a constrição: não queremos que ninguém nos impeça de falar, de ver, de ouvir, de dormir, de engolir, de expelir, de ir aonde quisermos; sofremos se alguém nos amarra ou nos separa, nos espanca, nos fere ou mata, ou nos sujeita a torturas físicas ou psicológicas que diminuem ou anulam a nossa capacidade de pensar.

Esses sentimentos básicos podem ser tomados como a base de uma ética. Em primeiro lugar, devemos respeitar os direitos da corporeidade dos outros, que incluem também o direito de falar e pensar. Se nossos companheiros tivessem respeitado esses “direitos do corpo”, nunca teríamos o Massacre dos Inocentes, os Cristãos no circo, a Noite de São Bartolomeu, a fogueira dos hereges, a censura, o trabalho infantil nas minas ou o Holocausto. Acho que a verdadeira dimensão ética começa quando o Outro entra em cena. Até os leigos virtuosos estão convencidos de que o Outro esteja dentro de nós. Não se trata de uma vaga inclinação emotiva, mas de uma condição fundamental. Assim como não podemos viver sem comer ou dormir, não podemos compreender quem somos sem o olhar e a resposta dos outros.

 

Leia Também:  ADVOGADO BRUNO BOAVENTURA: Defendo a Constituinte exclusiva não no tema mas, sim, na representação. Ou seja, poderiam os constituintes exclusivamente eleitos pelo voto popular, e que possam ser candidatados independentemente de filiação partidária, proporem mudanças em toda a Constituição e não somente no sistema politico.

 

 

FONTE INSTITUTO HUMANITAS UNISINOS

ADITAL

Eu sem fé, adoro a religião. Artigo de Umberto Eco – Instituto Humanitas Unisinos – IHU

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