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O melhor detergente é a luz do sol

JORNALISTA VINICIUS SOUZA: “O jornalismo falhou em compreender o jogo político que está sendo feito no Brasil”

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Pesquisador compartilha suas percepções sobre atuação da mídia hegemônica e sua contribuição para um cenário de fortalecimento da extrema-direita.

Safira Campos/PNB ON LINE

Fotógrafo, jornalista, professor e pesquisador. Atualmente, Vinicius Souza atua na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) como professor do curso de Jornalismo e do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Poder (PPGCOM). Por lá, tem dedicado seus estudos a temas como comunicação, política, direitos humanos, fotojornalismo, mídia alternativa, memória e imaginário. Graduado pela Faculdade Cásper Líbero, tornou-se mestre e doutor em Comunicação pela Universidade Paulista (Unip).

Crítico do trabalho realizado pela mídia hegemônica brasileira, participa do coletivo Jornalistas Livres, grupo de profissionais da imprensa identificados com o viés ideológico da esquerda e reúne atualmente milhares de seguidores nas redes sociais. Nesta entrevista especial dada ao PNB Online, Vinicíus compartilha com os leitores suas percepções sobre atuação do jornalismo no contexto atual e rememora episódios que contribuíram decisivamente para um cenário que fortaleceu a atuação da extrema-direita no país.

PNB Online – O que é o Jornalistas Livres?

Vinícius Souza – O Jornalistas Livres é um coletivo de jornalistas com muitos integrantes da grande imprensa, ou que passaram por grandes veículos como Folha de S. Paulo, Carta Capital, Estadão, Globo. Nós nos reunimos em março de 2015 exatamente por causa da dificuldade que tínhamos de ver uma contranarrativa a respeito do golpe que estava sendo arquitetado contra a Dilma Rousseff. Nós ficamos absurdamente indignados com essa questão de não haver um contraponto à propaganda que a grande mídia fazia conta o governo Dilma chamando para manifestações dizendo que aquilo era democracia sem deixar espaço para qualquer outra informação que não fosse essa de que o governo era corrupto e precisava ser derrubado. O Jornalistas Livres surge como uma plataforma na internet. Nós temos site, redes sociais, fazemos live, podcast.

PNB Online – Qual o peso dessa liberdade?

Vinícius Souza – O peso da liberdade que nós temos é total. Nós temos liberdade para fazer o que nós quisermos. Nós temos um manifesto inicial em que nós nos declaramos como jornalistas de esquerda, logo, nós temos uma identidade ideológica. Mas o fato é o nosso principal objetivo. Fazer um jornalismo absolutamente baseado no factual. Nós não fazemos fake news, nós não inventamos notícias, nós não deturpamos informações. Nós fazemos jornalismo com viés ideológico de esquerda, mas um jornalismo sério e bem feito.

Outro peso que nós temos é que é um coletivo de jornalistas absolutamente independentes. Ninguém ganha dinheiro e nós não temos financiamento para as coberturas que nós fazemos para manter a nossa rede. Nós fizemos um crowdfunding inicial em 2015 e levantamos algum dinheiro para suprir os custos básicos, mas é isso. Cada um dos jornalistas livres que faz parte do coletivo tem seu próprio trabalho paralelo a isso. A maioria trabalha com jornalismo. Há colegas de veículos nacionais, assessores, estudantes de jornalismo. Eu no caso, vivo como professor de Jornalismo e da Pós-Graduação em Comunicação e Poder aqui na UFMT.

PNB Online – O jornalista e professor de jornalismo, Nilson Lage, diz que o jornalismo se compõe de grandezas e fraquezas. Como o senhor enxerga esses dois polos na imprensa brasileira atual?

Vinícius Souza – O julgamento do ex-juiz Sérgio Moro no STF expôs uma ferida profunda no jornalismo que nós temos visto pelo menos desde junho do ano passado quando saiu a ‘Operação Vaza Jato’, em que o The Intercept Brasil começou a publicar textos e áudios do Moro e dos procuradores que faziam parte da Lava Jato. A partir daí ficou absolutamente claro como a imprensa estava sendo manipulada por um projeto de poder da direita com a eleição de Bolsonaro e mais de 270 mil mortes pelo coronavírus no Brasil. O jornalismo atual falhou miseravelmente em compreender o jogo político que está sendo feito no Brasil. Pelo menos de 2010 para cá, primeira campanha de uso intensivo de fake news, não só pela internet, mas também pela própria grande imprensa. Eu tenho 2010 como esse marco por dois motivos muito grandes. Primeiro a ficha falsa da Dilma na capa da Folha de S. Paulo. Segundo a história da bolinha de papel que foi jogada na cabeça do José Serra, que era o adversário dela na campanha, que foi transformado em um tijolo para criar uma comoção. Há ainda histórias bem mais cabeludas que essas: falsa questão dela ter uma esposa, empregada doméstica que ela abandonou, apoio à pedofilia no Oriente Médio, coisas escrabosas que depois viraram meme e corrente no Whatsapp e que foram depois usadas na campanha de 2018. Tudo isso começou em 2010 e começa com a capa da Folha. Desde 2010, o jornalismo da grande imprensa tem falhado miseravelmente na sua função de informar as pessoas, de ser instrumento da democracia e não corrente de transmissão de determinados setores da sociedade.

Com a anulação das condenações do Lula, o dólar subiu, a bolsa caiu, o mercado está nervoso. Mas que mercado é esse que os jornais, que as colunas econômicas, que as tvs, as rádios estão tão preocupados? O que é que o mercado representa na economia real do Brasil? É meia dúzia de especuladores que estão ganhando ou perdendo muito dinheiro. O jornalismo econômico brasileiro é totalmente refém dos rumores do tal do mercado. Isso não significa nada para a vida real da população brasileira. Quando o jornalismo não consegue informar sobre a política, quando o jornalismo se distancia dos interesses reais da população que está sofrendo com uma crise econômica, para que serve esse jornalismo? Esse é a grande fraqueza do jornalismo hoje. O jornalismo profissional está se tornando irrelevante. As pessoas não lêem mais jornal, não escutam mais o rádio e não vêem mais tv porque as informações são muitas vezes manipuladas ou simplesmente não interessam para sua vida real.

“Eles não têm temor pelo diálogo. Eles simplesmente massacram o diálogo”

Por outro lado, existe uma grande força no jornalismo, uma grandeza mesmo, que é o jornalismo voltar a fazer jornalismo. Nós voltarmos a fazer reportagem, fazer análise profunda de situações reais, estar focados no fato e no contexto do fato. Não adianta simplesmente dizer que uma pessoa foi morta, ou que o coronavírus matou 270 mil pessoas no Brasil. Por que isso está acontecendo? As seis perguntas básicas do jornalismo: ‘o quê?’, ‘quem?’, ‘quando?’, ‘como?’, ‘onde?’, ‘por quê?’. Por que está morrendo tanta gente no Brasil? O que levou a isso? Quais as consequências disso para o futuro do país? Como vamos brecar essa situação?

Existe sim, felizmente, muitas iniciativas de jornalistas, a maior parte independentes, que estão fazendo isso. Há o The Intercept Brasil, a Agência Pública, o Jornalistas Livres. Há aqui em Cuiabá veículos como PNB Online que fazem jornalismo. Temos bons jornalistas fazendo jornalismo em vários lugares. Vai ser complicado o jornalismo voltar a ter a importância na sociedade que as fake news têm hoje, exatamente por causa dessa grande falha da imprensa que não é de hoje, mas que culminou no estado do atual jornalismo hegemônico atual. Em que tanto a extrema direita critica como setores da esquerda que com justiça apontam incoerências.

PNB Online – Qual é o papel do jornalismo no contexto contemporâneo?

Vinícius Souza – O papel do jornalismo no contexto atual é ser um bom jornalismo. Tem que fazer reportagem. Tem que fazer análise. Tem que trazer o contexto dos fatos. Nunca o jornalismo foi tão importante e paradoxalmente o jornalismo nunca foi tão atacado.

PNB Online – Por que a prática do jornalismo é tão diabolizada por radicais?

Vinícius Souza – A prática do jornalismo é realmente diabolizada pelos radicais, porque para eles se o jornalismo está fazendo o seu trabalho, o jornalismo está desmentindo as fake news que os radicais estão promovendo. Quando você diz coisas como o ‘kit gay’, por exemplo, que foi uma das grandes mentiras da eleição de 2018, você tem a extrema direita dizendo que os professores são doutrinadores que estão sexualizando as crianças na sala de aula, que estão transformando todo mundo em comunista. Essa é uma imagem que vai bater muito fundo na emoção das pessoas e atiçar os medos principalmente. Vai manipular as emoções mais básicas. A única forma de você quebrar essa cadeia de manipulação é com informação de qualidade e informação de qualidade é produzida pelo jornalismo.

O que acontece é que os radicais, especialmente a extrema direita, vai demonizar a imprensa de um modo geral. Ela vai falar que todo mundo não presta, que todos são inimigos. Eles precisam manter essa narrativa falsa. Nesses dias mesmo estava o ministro Paulo Guedes falando que a economia brasileira se deu muito melhor no ano passado do que a economia alemã, do que a francesa, ou a inglesa. Dizendo que nós estamos no melhor dos mundos. Isso é verdade ou é mentira? O jornalismo não pode simplesmente repassar essa informação que foi dada pelo ministro Paulo Guedes. O ministro disse que o PIB brasileiro caiu menos do que os desses países. Isso é verdade. Mas o que interessa o PIB na economia real dos países? Por que o PIB brasileiro não caiu como nesses outros países? Isso aconteceu porque nós exportamos uma quantidade monumental de produtos básicos, especialmente da agropecuária e da produção mineral. Nós exportamos principalmente para a China em um contexto de alta do dólar. Ou seja, meia dúzia de latifundiários e empresas transnacionais que produzem minério no Brasil ganharam muitíssimo e isso elevou o PIB. Por outro lado, o desemprego explodiu, a miséria aumentou, a fome estrutural voltou, a pandemia está completamente fora de controle. Essa não é a situação da Alemanha, da França e da Inglaterra. Esclarecer esse tipo de situação é a função do jornalismo.

PNB Online – O senhor vê fragilidade no presidente Bolsonaro ao atacar a imprensa? O temor seria pelo diálogo?

Vinícius Souza – O jornalismo bem feito é inimigo da fake news. Esse governo foi eleito e se sustenta em cima da mentira. Você ter informação de qualidade é sempre um problema. Mas eu não acho que seja o temor pelo diálogo. Não existe diálogo possível com fascistas. Estamos vendo um governo formado por fascistas. Eles não têm medo. Eles destroem o diálogo. Eles fazem um monólogo. Basta ver a quantidade de coletivas de imprensa que foram chamadas pelo ministro Pazuello e que não foram abertas para perguntas. Chama de coletiva de imprensa o que é na verdade um pronunciamento de um ministro que não admite ser questionado. O presidente Bolsonaro também não dá coletivas de imprensa, não fala com a imprensa. Ele fala pelas lives. É unilateral, não é diálogo. Quando ele está em algum evento, passa por um jornalista e o jornalista faz alguma pergunta que é incômoda, ele interrompe no mesmo minuto. Eles não têm temor pelo diálogo. Eles simplesmente massacram o diálogo.

FONTE PNB ON LINE

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CHOCOLATE CONTRA O PRECONCEITO: Nestlé muda nome de bombom para “acabar com racismo e discriminação”

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O bombom da Nestlé ” Negrita ” mudará seu nome para ” Chokita ” para evitar “atitudes racistas e preconceituosas”, diz a marca. O nome estampou o chocolate por 60 anos , e deixará de existir a partir de outubro .

Segundo a Nestlé, o novo nome “refere-se ao inconfundível sabor do chocolate, somado ao diminutivo que no Chile reflete o que tratamos com carinho. Esta modificação não afeta de forma alguma a receita do produto, que mantém sua qualidade e sabor característico de sempre.”

Para a empresa, chegou a hora de fazer a alteração, pois, há 60 anos, viviam num contexto completamente distinto. Hoje, o chocolate por vexes é utilizado de maneira jocosa com pessoas de pele preta.

A empresa diz que os consumidores receberam bem a mudança e concordam que era a hora certa.

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Caso parecido aconteceu com o bombom ” Feitiçaria “, da Lacta, que teve que trocar a estampa após teorias da conspiração.  Inspirado no clássico “feitiço”, famoso na década de 90, foi acusado de conter “mensagens malignas” na embalagem. A companhia então trocou o nome para “Lacta Chocolate” e “Lacta Morango”.

 

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